Vade retro, 2015!


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Não faz muito tempo, escrevi que 2015 poderia ser reconhecido como o pior da história do Brasil, pela completa ausência de boas notícias e a conjunção de tragédias, escândalos e um ‘miserê’ na economia que surpreendeu até os mais pessimistas. Poucos meses se passaram e o ano segue nos brindando com muita lama, deterioração incessante no cenário político-econômico e revelações tragicômicas nos múltiplos esquemas de corrupção que proliferam país afora.

imageA prisão do líder do governo no Senado, Delcídio Amaral, até então ausente do grupo de notáveis picaretas sempre envolvidos nos rumores de maracutaias, e do banqueiro André Esteves, cuja carreira ascendeu meteoricamente após a Era Lula, colocou querosene no fogaréu da Lava-jato. No centro da confusão, Nestor Cerveró, ex-diretor da área internacional da Petrobrás, preso e condenado e com uma delação premiada a caminho que tem causado noites insones em Brasília. Delcídio, o humanista, planejava a fuga de Cerveró apoiado por André, o arrojado. Na gravação da conversa com Bernardo, o ator, filho do preso que assombra os políticos, entregue pelo próprio à Polícia Federal, há elementos de sobra para constranger ainda mais o país: a compra do silêncio em troca da fuga, mesada de R$ 50 mil mensais e módicas luvas de R$ 4 milhões; a revelação que mesmo após ser assaltada por ladrões de toda estirpe, a moribunda Petrobrás segue alvejada pelos vampiros da pátria, cujo foco agora é a área de Tecnologia, que apesar de não ser ‘core-business’, detém contratos milionários com grande potencial de geração de pixulecos; o surpreendente vazamento do conteúdo da delação de Cerveró para Esteves, antes mesmo de ser oficializada; a confirmação do princípio mafioso na concepção de ética: delatores são canalhas, éticos são aqueles que mantém a boca fechada e a lealdade ao esquema; o suposto trânsito fácil e autoconfiante que o senador dizia ter junto ao STF, revelação que pode ter lhe custado um castigo mais severo que o usual…

Imaginem vocês se todas as conversas em Brasília fossem gravadas. O Brasil implodiria, submergiria no oceano, seríamos a Atlântida contemporânea!

Guiado por Murphy, aquele da lei maldita, o ano ainda nos ofereceu a lama de Mariana, uma epidemia de microcefalia no Nordeste causada por um vírus de nome sugestivo (Zika – carregado pelo mosquito da dengue), uma empreiteira (Andrade Gutierrez) assumindo que ‘subornou geral’ para ganhar as obras da Copa, e um presidente da Câmara mais enlameado que os cardumes do Rio Doce. Como se não bastasse, o Corinthians foi campeão brasileiro de maneira incontestável, sem deixar chance para reclamação. Não citarei as trapalhadas e os discursos desconexos de nossa chefe de estado, pois esses já fazem parte do anedotário popular e divertem nosso cotidiano.

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Um ano que escancarou nossas mazelas. Para esquecer? Não. Para ser lembrado e relembrado. Que figure nos livros de história como o momento da guinada de um país que anseia pelo fortalecimento de suas instituições, para que elas prevaleçam sobre governo e pessoas e sustentem o estado democrático de direito. No meio de tanta desgraça é inegável a constatação de que o país e evoluiu. A velocidade da mudança é inferior às nossas expectativas, mas pouco a pouco o vigor institucional vai debilitando a picaretagem. E quanto ao ‘miserê’ na economia? Nesse caso, não podíamos ser ingênuos a ponto de acreditar que as escolhas erradas da maioria seriam impunes. Esperemos que o sofrimento não seja em vão e que mais uma década perdida nos ensine a votar…

Apesar de todos os pesares, fica a esperança de que para todo esquema de bandalheira minuciosamente planejado para enriquecer uns poucos em detrimento de um país, haverá a partir de agora a ameaça da punição. E que a voz firme da opinião pública siga vigilante e capaz de produzir resultados surpreendentes, como o 59×13 do Senado. Que os minúsculos feixes de luz desse ano sombrio ganhem proporções estelares no futuro. ‘Vade retro, 2015! Já deu para você.’

2 Comments
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2 Comentários

  1. Márcia

    28 de novembro de 2015 em 08:40

    Já faz uns bons anos que sai do colégio ….muita coisa passou depois disso. Fiquei curiosa pra saber o que está escrito nos atuais livros de história geral e do Brasil (era essa a divisão na minha época de estudante) …será que atualizaram? Será que tudo o que estamos vivendo ficará registrado didaticamente ou paramos na ditadura?
    Li até o final e não li nada sobre o seu Vasco….

  2. Victor

    28 de novembro de 2015 em 23:04

    Marcia, o destino do Vasco ainda nao esta selado…e pode salvar 2015!!!

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