Excedente de óbitos na pandemia: cenário de guerra e paz

Texto originalmente publicado no site PapodeBoteco.net em Outubro/20

Já estamos há sete meses percorrendo a pandemia sem que haja um esclarecimento detalhado de seu real impacto no número total de mortes em relação ao período de normalidade, o que se costuma chamar de ‘excedente de óbitos’. Pouquíssimas publicações tem procurado destacar o assunto, dentre elas cito o renomado periódico britânico ‘The Economist’, talvez porque trata-se de um indicador a ser analisado após o término dessa confusão. Já é possível fazer uma análise parcial dessa realidade a partir de números conhecidos e algumas estimativas. Há um mês eu fiz um exercício sobre o tema em cinco estados brasileiros: Ceará, Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Dois deles sofreram demais (CE e RJ), dois estão no grupo dos menos impactados (PR e MG) e um ficou em posição intermediária no Brasil (SP). Resolvi aplicar a mesma metodologia para as 27 unidades da federação com os números oficiais dos cartórios na data de 30/09. Antes de avaliarmos os resultados, convém explicar algumas premissas.

Primeiramente, é importante destacar que esse estudo se baseia nas informações de óbitos reportadas pelos cartórios. Se você não acredita nelas ou acha que existe alguma conspiração para aumentar ou reduzir a sua quantidade, melhor nem perder seu tempo com a leitura.

As informações do Ministério da Saúde e dos Cartórios deveriam convergir no longo prazo e nota-se que isso tende a acontecer. No ‘consolidado Brasil’, a diferença de óbitos registrados como covid está em 3.7% até o final de Setembro (138.698 nos cartórios x 143.952 no MS). É normal que os números reportados pelas secretarias de Saúde sejam maiores, por serem obtidos mais rapidamente. É possível também que existam divergências mais significativas no ‘varejo’, em cidades ou estados, mas a lógica é que em algum momento estarão alinhados.

Dito isso, destaco que a primeira premissa para a análise do excedente de óbitos é estabelecer qual seria a quantidade normal esperada caso não houvesse pandemia. Como não existe um universo paralelo em que possamos averiguar esse número com exatidão, teremos sempre que estimá-lo com base no bom senso. Nesse caso, comparei o total de óbitos em cada estado entre 01/01 a 15/03 de 2020 e 2019, período no qual não há efeito do corona vírus. Normalmente temos um incremento de um ano para outro e variações nos resultados obtidos por estado (vide tabelas ao final desse texto). O esperado é que haja um aumento leve, que ocorreu de forma consolidada no Brasil (+3.7%). Esse índice é importante para projetar qual seria o total esperado de 2020 sem a pandemia. Aqui há uma possível fragilidade, pois eventuais efeitos de sazonalidade do inverno não estariam capturados, uma vez que tomamos o incremento durante o período de verão. Como o ótimo é inimigo do bom, seguimos com o que temos.

Com os números de 16/03 a 30/09 de 2019 em mãos, aplicamos esse multiplicador encontrado por estado para obter a estimativa de quanto seria o total esperado de óbitos se não houvesse pandemia, entre 16/03 e 30/09 de 2020. A seguir, ajustamos o mês de Setembro/20, pois a medição dos cartórios em 19/10 ainda será atualizada por algum tempo. Aqui novamente teremos uma aproximação. O ideal seria entender qual o índice de atualização dessas informações por estado, pois alguns deles podem ser mais rápidos que outros na velocidade com a qual registram os óbitos. Em uma avaliação que fiz sobre o mês de Junho no dia 19 de Julho e 30 dias depois, em 19 de Agosto, percebi que o total de óbitos no Brasil para o mesmo mês de Junho havia aumentado 16%. Tomei esse índice como padrão para todos os estados (e aqui novamente podemos incorrer em algum grau de imprecisão) e atualizei a informação de Setembro com +16% em cada estado, para encontrar então o número total de óbitos com a pandemia. Tomando a diferença entre o número real e o número esperado sem pandemia, temos o ‘excedente de óbitos’ estimado. Antes de descrevermos os resultados, importante dizer que de forma geral os óbitos decorrentes de pneumonia, infarto e septicemia caíram bastante após o início da pandemia, havendo aumento por covid, SRAG e outras doenças cardiovasculares. Quando medimos os demais óbitos, consolidados em uma única linha, normalmente não há variações relevantes. Em outras palavras, a pandemia alterou a dinâmica das fatalidades que normalmente ocorrem em uma localidade, principalmente aquelas originadas por causas respiratórias e cardiovasculares.

Sobre a redução em pneumonias e infartos, podemos atribuir à natural vulnerabilidade daqueles mais propensos a padecer dessas doenças e que foram atacados pelo covid (comorbidade). A queda na septicemia pode ser explicada pelo cuidado extremo que tem sido tomado em hospitais e unidades de atendimento médico para evitar a propagação do vírus. Por outro lado, o aumento de causas cardiovasculares deve ser devido ao fato de que as pessoas confinadas permitiram a deterioração de suas condições de saúde já ruins ou mesmo evitaram procurar um hospital para tratar de sintomas iniciais por causa do medo de se contaminar. De qualquer maneira, estamos aqui nos referindo ao todo. Um paciente de qualquer outra enfermidade é tão importante quanto o de covid e consome os mesmos recursos do sistema de saúde. Uma perda de vida também causa a mesma dor aos parentes e amigos, independentemente do fato gerador, por isso o excedente de óbitos é o indicador mais adequado para mensurar o real impacto da pandemia no cotidiano de um lugar.

O número consolidado de excedente de óbitos no país desde o dia 16/03 a 30/09 é de 105.368, 76% dos 138.698 reportados com covid, o que representa um excedente de 15.5% no período. Conforme já foi dito algumas vezes, o impacto da pandemia no país é bastante heterogêneo, com estados que sofreram muito e outros, nem tanto. No Amazonas houve 54% de excedente de óbitos, um cenário de guerra. No outro extremo, o Rio Grande Sul experimentou 1.1% a menos de óbitos do que seria o normal do período, um cenário de paz. Entre ambos, uma diversidade grande de situações, desde estados com excedentes inferiores a 10%, o que não seria algo alarmante, passando por aqueles com resultado parecido à média do Brasil e chegando nos que tiveram impacto superior a 20%, algo bastante crítico.

Cabe uma nota sobre Roraima, que aparece como um dos mais impactados pelo covid, e ao mesmo tempo com baixo excedente de óbitos. Com uma população pequena, as estatísticas podem nos iludir, pois qualquer variação mínima pode causar grande impacto nos números relativos.

Fica muito claro que em um país continental como o nosso, não vivemos a pandemia de maneira homogênea. A tese inicial de que todos os locais convergiriam para indicadores parecidos parece ter sido desmontada pela realidade, a essa altura inquestionável. Há lugares que sofreram muito menos, não somente a partir de uma comparação interna no país, como também quando avaliamos a Europa, América Latina ou Estados Unidos. As razões para isso não são objeto desse artigo, mesmo porque não tenho credenciais para decifrá-las, mas deveriam ser estudadas por especialistas para melhorarmos a efetividade das nossas ações em situações futuras semelhantes.

O quadro desmente tanto os negacionistas, que trataram a pandemia como algo um pouco pior que uma gripe, haja visto que excedentes de óbitos de 20, 30 ou até mesmo 40% são indicadores catastróficos, como também confronta as teses apocalípticas, uma vez que há regiões onde o impacto foi menor que 10% ou até mesmo negativo. Enfim, um meio termo entre as duas visões parecer ser a leitura mais razoável. Agora que está passando, ao menos a dita primeira onda, que para nós foi mais uma longeva ‘pororoca’, é importante que fujamos da superficialidade usual das análises cotidianas. Falhamos imensamente na gestão da informação ao longo da pandemia, deveríamos ao final dela superar essa deficiência e esmiuçar todos os seus números. Reconheço que esse desejo é quase uma utopia. Sigamos em frente, um dia a menos para o final da crise.

PS* Todas as informações desse artigo foram extraídas do Portal Transparência no dia 19/10/20.

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    Sergio Souza

    20 de dezembro de 2020 em 08:04

    Caro Victor H M Loyola, tenho imenso respeito pelos seus artigos graças à robustez baseada em fatos e ao cuidado para evitar influência política nas suas conclusões. Desta vez eu vou me permitir discordar do seu artigo. A forma que vc propôs para encontrar o “normal” ou “esperado” leva a uma conclusão muito diferente da conclusão utilizando um método muito simples: apenas comparar a quantidade total de óbitos com os anos anteriores no mesmo período. Digo anos e não ano, aumentando a base de comparação desde 2015, que está disponível na mesma fonte do Portal de Transparência do Registro Civil. Usando esta metodologia simples, o aumento do total de óbitos em 2016 sobre 2015 no período é de 22%, ou seja, entre Jan e Nov de 2016 houve registro de 22% mais óbitos que em 2015 no mesmo período. A série continua com 5%, 25%, 11% e finalmente, entre 2020 e 2019 …. 21%. Ou seja, este ano horroroso apresenta (por enquanto) o terceiro valor mais alto de crescimento de óbitos. Se examinarmos o crescimento de cada mês sobre o mesmo mês de 2019 vamos perceber que jan e fev foram praticamente iguais a 2019, uma situação atípica frente aos anteriores. A diferença dos dois foi de apenas 1%, enquanto nos outros anos a diferença vai de -13% a +27%. Por isso não parece uma boa idéia usar esses meses como base de comparação. Além disso a sazonalidade entre os meses muda de ano a ano, mantendo uma certa tendência de aumento no inverno. No gráfico abaixo, que mostra a % de aumento de óbitos entre um ano e o anterior, é fácil notar que, por enquanto, os anos de 2016 e 2018 foram um pouco piores que o ano de 2020. É claro que ainda precisamos esperar que o registro se atualize durante os próximos meses, mas não é provável que mude o suficiente para fazer de 2020 o pior ano desde 2015. Um outro aspecto que quero lembrar é que, conforme brilhantemente apontado por vc, a situação geral do Brasil é muito diferente da situação de cada estado. Eu não fiz a comparação simples por estado, quando conseguir baixar os dados do portal da Transparência com os detalhes de estado eu faço a análise, baixar a mão não vou fazer. Se vc souber como agradeço a dica. Finalmente, minha conclusão não é de que não houve impacto do COVID na saúde brasileira. O fato de não ter morrido mais gente do que se espera da série histórica não quer dizer que a doença não seja seríssima nem que não se deva tomar muito cuidado. Talvez demonstre que o que o Brasil fez deu certo, e que se não tivesse feito a quantidade de mortes seria maior. Mas isso é pura especulação. Os dados apenas mostram que, no final, este não foi um ano ruim em termos de quantidade de mortes. Mas foi péssimo pelo terror e estrago na economia. Valeu a pena? Isso é assunto para outro forum.

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