Sobre a arte do possível, recuo e derrotas

Dizem que a política é a arte do possível. Os otimistas alegarão que a reforma da previdência que está saindo do forno, bastante desidratada em relação à versão original, é melhor do que nada. Um meio termo entre o caos e a utopia. Terá que ser revista mais uma vez em um horizonte de até 10 anos. Hoje, seria a reforma possível, não a desejável.

Os realistas, ou levemente pessimistas, como eu, lamentarão a reforma perneta. Trata-se de um tema extremamente espinhoso, pois a inércia causará danos futuros, não percebidos no ‘aqui e agora’. Mesmo em sociedades com visão de longo prazo, ajustes no sistema previdenciário causam polêmica, imagine por essas bandas tropicas onde o longuíssimo prazo chega até o próximo carnaval.

Quando teremos outro governo definitivamente impopular que não se preocupe com esse assunto – popularidade – para liderar reformas amargas, mas necessárias? Nunca mais. Trata-se de uma oportunidade perdida. A pauta voltará com mais urgência na próxima década, mas nas mãos de quem estará preocupado com a (re)eleição.

Hoje, o governo também assimilou uma derrota importante na Câmara e não conseguiu aprovar o caráter de urgência da reforma trabalhista. Não significa que ela está engavetada, mas que seguirá os trâmites usuais dentro da casa, bem mais lentos.

O recuo na reforma da previdência e as possíveis dificuldades para implantar a trabalhista são péssimas notícias para o próximo(a) presidente, seja ele(a) quem for. Na prática, Michel Temer nada mais é que um ‘terceirizado’ do futuro(a) chefe de estado para fazer o serviço pesado em nossa desarrumada economia. Quanto mais a casa estiver ordem, melhor para quem for descascar o abacaxi a partir de 2019.


Quem tem ambição de assumir o palácio do planalto torce silenciosamente pelo êxito das empreitadas impopulares do governo Temer, pois isso lhe pouparia tempo e energia. Sob essa ótica, seus primeiros sinais de fragilidade política são desanimadores.

Convenhamos que se trata de um governo com um passivo moral gigantesco: oito ministros delatados e um sem número de correligionários com a corda no pescoço. Nada que surpreenda, uma vez que o PMDB foi auxiliar de chapa do PT ao longo de treze anos e co-protagonista da esbórnia. Esse é um fato tão irrefutável quanto a sua coragem de optar pelo caminho das pedras ao assumir a presidência.

Michel Temer poderia encampar uma agenda populista que melhorasse a sua popularidade, seguir na linha do ‘me engana que eu gosto’, adotada pela dupla de comediantes Dilma-Mantega e entregar um farrapo de país ao seu sucessor(a), valendo-se da famosa ’embarrigada’. Ao invés disso, tem capitaneado proposições de mudanças estruturais tão relevantes quanto amargas. Há de se reconhecer o mérito na tentativa.

Fosse um governo limpo de acusações, teria melhores credenciais para aprovar as mudanças junto ao Congresso. Mas não é, o que torna uma missão naturalmente difícil, quase impossível.

A intensidade das reformas será diretamente proporcional à velocidade de retomada do crescimento da próxima gestão. Sob a batuta de Temer, nos espera uma economia quase estagnada esse ano (com PIB variando entre 0 e 1%, dependendo do analista) e um crescimento pífio de 2% ou um pouco mais em 2018. Melhor que derreter quase 8% em dois anos, embora muito aquém das necessidades de um país que não aguenta mais ser protagonista de espalhafatosos voos de galinha.

Os últimos dias foram marcados pela delação do fim do mundo, recuo e derrota. Cada semana por aqui é um episódio de uma série da Netflix. Muitas vezes seus personagens se reabilitam surpreendemente de uma hora para outra, resta saber que tipo papel caberá ao Brasil. Adivinhar quem sobrevive ao final da temporada é um exercício de imaginação…

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