Os desafios de um continente envelhecido

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O continente europeu ainda se recupera da crise econômica que abalou as finanças de vários de seus países, interrompendo um período praticamente contínuo de prosperidade observado a partir do final da segunda guerra, mas continua rico. Muito rico. E cada vez mais velho. Muito velho.  É bem verdade que sua porção oriental, integrada há pouco mais de duas décadas à tradicional economia de mercado, não pode ser considerada rica, mas também envelhece a passos largos. A demografia age como um veneno que vagarosamente contamina seu tecido social. Se nada for feito para reverter as tendências atuais, em questão de décadas poderemos assistir sua derrocada.

O primeiro dos problemas é a baixa taxa de fecundidade da mulher europeia, na maioria esmagadora dos casos inferior a 2.1 filhos, que é o índice mínimo necessário para a reposição da população. Não se pode afirmar que trata-se de uma tendência de países desenvolvidos, já que no outro lado do Atlântico os EUA se reproduzem a taxas superiores a essa. Nesse caso, a Europa parece assemelhar-se mais ao Japão, onde a predominância cada vez maior de idosos é um dos fatores causadores do arrefecimento de seu vigor econômico. Os tempos em que o Japão era uma potência que ameaçava a supremacia americana se perdem nas longínquas memórias da década de oitenta.

Muitos países europeus experimentam redução em sua população e mais grave que isso, uma diminuição mais drástica na porção economicamente ativa ( dos 15 aos 65 anos), com a crescente participação dos idosos na fatia total. Isso significa que há cada vez menos gente trabalhando, gerando renda e impostos  para subsidiar os aposentados. O peso do sistema previdenciário sobre os trabalhadores na ativa aumenta desproporcionalmente e o resultado disso em algumas décadas pode ser catastrófico.

Medidas inevitáveis, antipáticas e de efeito limitado são tomadas em quase todo continente e dizem respeito à extensão do prazo para aposentadoria e redução de benefícios de seguridade social. Conceitualmente, fazem sentido. Afinal, os sistemas previdenciários foram criados em um tempo em que a expectativa de vida era muito menor. O problema é que essas ações ainda não convergem com a expectativa da maioria dos empregadores em relação à sua força de trabalho em um mundo cada vez mais automático e digital. A adoção dessas medidas invariavelmente é geradora de tensões sociais, já que solicita-se aos de hoje que façam um sacrifício pelos de amanhã, contrastando com a inegável redução no padrão de vida em relação aos de ontem. Em qualquer sociedade do planeta essa é uma conversa muito complicada.

Incentivar as famílias para que tenham mais filhos também não chega a modificar as tendências. Por mais que se estabeleçam subsídios e isenções de impostos, criar seres humanos ainda é uma atividade economicamente custosa, particularmente na Europa de alto custo de vida e espaços reduzidos.

Uma ação potencialmente atenuante do problema é o incentivo à imigração. Mantida a ínfima taxa de natalidade, os imigrantes e seus filhos ocupariam o espaço da população economicamente ativa não preenchido pelos nativos. Seria simples se não estivéssemos tratando de um continnte que ao longo de séculos se acostumou a enviar gente para os confins do mundo e nunca a recebê-los. O fluxo migratório para Europa é um fenômeno recente, de poucos anos de vida diante da histórica condição europeia de produtora de emigrantes. Por conta disso, ainda é muito difícil no velho continente a assimilação cultural de estrangeiros.

E para agravar uma situação que já não é trivial, boa parte dos que buscam oportunidades em solo europeu são oriundos de culturas muito diferentes. É cada vez mais relevante a participação de uma minoria islâmica no dia a dia dos principais países e frequentemente assistimos o que eu chamaria ‘decantação social’: Imigrantes de um lado, nativos de outro, jamais se misturando. Vez por outra, assistimos às manifestações desse espírito segregacionista nas confusões registradas nas periferias das grandes metrópoles e nos próprios atentados terroristas perpetrados em vários países. Diariamente, legiões de desesperados provenientes de países africanos tentam entrar ilegalmente no continente a partir do Mar Mefiterrâneo em aventuras quase suicidas. Quando conseguem, são tratados como pacotes indesejados pelas sociedades que os recebem.

Logo, por mais que pareça uma solução teoricamente simples, a imigração encontra barreiras culturais e econômicas quase intransponíveis para florescer na Europa. Hoje ela é uma realidade mal resolvida e problemática, mas para ajudar a superar o desafio do envelhecimento, deveria ser estimulada em proporções muito maiores, fato que contaria com a desaprovação da maioria da população. É um imbróglio.

Está claro que geralmente as medidas para conter o agravamento da situação são todas impopulares e de longo prazo. Por isso é tão difícil sair desse labirinto. Ninguém topa encarar o sacrifício: nem os governantes, pelo medo da próxima eleição, nem os eleitores, insensíveis aos percalços da próxima geração. Se um desafio dessa magnitude é de dificílima solução em sociedades de altos padrões educacionais, imagine se fossem transpostos ao ambiente tupiniquim.

No Brasil, ainda experimentamos os últimos anos do bônus demográfico, período frutífero ao enriquecimento. Provavelmente o país envelhecerá antes de ficar rico, em mais uma dessas oportunidades históricas desperdiçadas. Espera- se que em 2050 tenhamos 33% da população acima de 65 anos, o que significa que além de companhia para nós, velhinhos (se estiver vivo, terei 77-78 anos), haverá vários milhões de novas pensões a pagar. O problema demográfico europeu tende a se replicar pelas bandas de cá com poucas décadas de atraso, e quando chegar será um transtorno de igual intensidade.

Tem jeito? Na teoria, sim. Na prática, a maior dificuldade é a exigência de sacrifícios para a resolução de problemas cujos efeitos serão sentidos principalmente pela geração seguinte. O individualismo tem falado mais alto, mesmo na Europa. Assistiremos de camarote o desmembramento do nó demográfico europeu e seremos protagonistas de sua versão tropical  no futuro, que está logo ali, a poucas décadas de distância…ou anos.

 

 

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    Ione Laruccia

    16 de maio de 2015 em 16:53

    Victor
    Excelente contribuição, pela análise abrangente de um assunto tão importante para nossas gerações.

    A capacidade de planejamento a médio e principalmente a longo prazo, decide o que será o futuro de um povo.
    Costumo dizer que o nosso Brasil teria tudo para ser um país muito rico, mas infelizmente não possui essa capacidade de planejamento e falha seriamente na preservação de suas riquezas.

    Grata pela oportunidade

    Ione Laruccia

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