O seu ´happy-hour´ com os presidenciáveis

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Os presidenciáveis vendem-se aos olhos do eleitor como super-heróis. Prometem o paraíso na terra durante a campanha, como se fossem imperadores detentores do poder supremo. Mentem, seduzem, disfarçam, desconversam. Para ganhar o seu voto, vale quase tudo. Mas você já parou para pensar que estamos falando de seres tão imperfeitos quanto qualquer um de nós? Blindados por assessores, marqueteiros e pela imprensa que os coloca em pedestais, normalmente nos olvidamos do seu simplório caráter humano.

A oposição personifica sua ojeriza ao PT na figura de Dilma. Opinião certamente não compartilhada pelo seu neto de quatro anos, para quem a avó deve ser muito legal, bem longe da personagem mau-humorada que vemos na TV. Aécio é costumeiramente massacrado pelas hostes petistas. Não faz muito tempo, tornou-se pai de gêmeos, que nasceram precoces. Com mais de 50 anos, é quase um pai-avô. Roteiro de vida contraditório para quem é ironizado como ´baladeiro´. Marina, submetida a um bombardeio sem precedentes nos últimos 30 dias, é casada duas vezes e tem quatro filhos. Mesmo com sua aparente fragilidade física, ela teve que se preocupar em criar uma numerosa prole, paralelamente às suas atividades políticas. Fácil não deve ter sido. Restrinjo-me aos três principais candidatos, mas a ´humanidade´ é um fator comum a todos eles. Sua face pública é apenas a ponta do iceberg de um conjunto de virtudes e defeitos, como acontece a todos nós.

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E que tal se hipoteticamente você fosse convidado para um ´happy hour´ informal com os presidenciáveis? O que esperar desse encontro tão brasileiro? Sim, pois os falsos super-heróis, quando desprovidos da carcaça de candidato, são pessoas de carne e osso e poderiam (por que não), frequentar botecos com os amigos, para bebericar, petiscar e jogar conversa fora. Abaixo a imaginação extrapola as possíveis experiências com cada um deles, de maneira bem-humorada…

Dilma, sentada na ponta da mesa, chama o garçom em tom imperativo. ´ Traga o de sempre em várias porções, para esse povo todo, e não esquece a minha caipiroska de maracujá, para eu acalmar os nervos´. O garçom obedece receoso e nem olha para os demais, que atônitos, esperavam em vão para fazer o pedido. ´Eu estou pedindo para vocês umas porções e um chopinho para cada um´. Um deles sente-se desconfortável por que não gostava de chopp e intervém: ´Mas eu queria água ao invés de chopp´. ´Veio a um bar beber água? Está maluco? Aqui quem manda sou eu. Vai de chopp e está decidido. Se não gostar, cai fora!´. Um certo constrangimento pairou no ar, o interlocutor atravessado (que por sorte não foi você), pediu licença dizendo que ia ao banheiro e nunca mais foi visto…

imageAécio, antes de sentar, fez uma raio-x do local e pediu ao garçom que arranjasse uma mesa próxima a um grupo de mulheres desacompanhadas. Abriu o menu e foi logo pedindo a mais cara garrafa de um ´Pinot Noir´ francês. Uma não, foram quatro de uma vez. Disfarçadamente, você pede a carta de vinhos para olhar os preços e quase cai da cadeira quando vê quanto custou aquele que em breve seria servido. Quando chegaram as garrafas, Aécio envia uma de presente às moças, seguidas de um convite para juntarem as mesas. Nem meia hora havia se passado e ele pede mais quatro. Você até gostou do vinho, mas não conseguia percebê-lo bem por pensar na conta salgada que seria compartilhada dali a pouco, provavelmente incorporando o consumo das mulheres que se achegaram. Enquanto isso, o mineirinho jogava conversa fora despretensiosamente, como se estivessem tomando água mineral. Você não aproveitou o momento e sangrou uma nota preta ao final da noite. O fino paladar do ´Pinot Noir´foi imediatamente esquecido após a chegada da conta.

Marina, muito séria, solicitou ao garçom que trouxesse apenas petiscos orgânicos. Também pediu água mineral para todos. Interpelada sobre a possibilidade de consumir cerveja ou vinho, ela respondeu dizendo que cada um tinha o livre arbítrio para decidir, mas o seu pedido representava uma ruptura com o velho padrão dos happy hours, onde as pessoas pareciam depender do consumo de álcool para serem felizes. Ela queriar mostrar para todos que era possível conciliar sustentabilidade com aquele tipo de evento festivo e por isso contava com a adesão de todos. Visivelmente decepcionado, um dos participantes então pergunta se a água podia ser ao menos com gás e limão espremido. Marina reflete e acaba cedendo. ´Mas as porções virão sem sal, para contribuir com os seus exames de saúde´. Você, que estava ansioso para provar algumas das melhores comidinhas de bar do local, naquela noite passou fome, regado à água com gás, gelo e limão. Muito limão.

Eduardo Jorge mal chegou e foi logo abraçar todos os garçons, seus conhecidos de longa data. Perguntou sobre a saúde da filha de um deles, a quem havia atendido há tempos e mandou logo servir a primeira rodada de Brahma, devidamente acompanhada de um torresminho e uma porção de calabresa. Após o quinto copo, resolveu passar na cozinha para cumprimentar os cozinheiros pelo seu bom trabalho naquela noite. Na volta, conversou com o dono do bar e mais algumas pessoas, tal qual tronco trombando na margem do rio. Depois de retornar à mesa, seguiram-se mais Brahmas, intercaladas por um bom papo. Após um par de horas, estava para lá de Marrakesh e já sem condições de lembrar a senha do cartão ou assinar um cheque. Você pagou a conta dele, que voltou para a casa de táxi.

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Fidelyx e Everaldo, ideologicamente próximos, resolveram recepcionar os amigos juntos. Julgavam-se defensores dos valores da família brasileira e a conversa fluía em temas chatos. Quando descobriram que alguns convidados vieram de carro, imediatamente suspenderam os pedidos de bebida alcoólica para eles, oferecendo-lhes a opção de água ou suco. Foi quando um rapaz da mesa ao lado sem querer encostou em Fidelyx, que lhe repreendeu grosseiramente, chamando-o de bichinha sem–vergonha. Acuado, mas apoiado pelos amigos que estavam à mesa, o rapaz tirou satisfações com Fidelyx, que subiu o tom de voz e começou um discurso grotesco de ataque a homossexuais, para o qual Everaldo consentia, mesmo que envergonhado. Foi vaiado veementemente. As vaias transformaram-se em coro: ´Fora, fora, fora!!!´, e um Fidelyx cada vez mais descontrolado retrucava, aos berros: ´Eu sou a maioria, eu sou a família brasileira!´. A partir dali, o bar inteiro entoou o cântico: ´Ei, Fydelyx, vai tomar no c…!´. A balbúrdia era tamanha que o dono do bar educadamente foi à sua mesa pedir para que Levi e Everaldo se retirassem. O que foi consumido ficaria por conta da casa. Everaldo saiu de fininho, mas Fidelyx, sem dar o braço a torcer, vociferava contra a pequena multidão que se aglomerava agora também na porta do bar. Você não sabia onde colocar a sua cara, uma vez que estava lá, na mesma mesa que eles, e seu filme estava incinerando…discretamente, foi até o balcão e pediu um cerveja. Quieto, não olhou para niguém. Sua noite acabara ali.

Luciana Genro falava pelos cotovelos. Por alguma razão, aquele ´tu´ lhe incomadava. Era ´tu´para lá, ´tu´para cá. A conversa não havia chegado em política e economia, por isso fluía sem contratempos. Até que ela perguntou ao garçom quanto ele ganhava e começou a insuflar no sujeito a sensação de que ele era explorado pelo capital. Pediu que todos os funcionários do bar se juntassem e fez um breve discurso condenando o capital financeiro internacional e atiçando seus ânimos contra o dono do boteco, condenado por antecipação por ser a personificação da exploração do proletariado. Ela sugeriu que eles começassem uma greve naquele momento, garçons e cozinheiros. Eles, meio sem saber exatamente o motivo, acataram e cruzaram os braços no meio do bar. O serviço parou, clientes começaram a reclamar e o dono veio saber do que se tratava. Foi recebido aos gritos por Luciana, que se dizia representante da classe trabalhadora ali explorada por ele. Seguiu-se um bate-boca fenomenal e o dono do boteco, irritado, trouxe a conta para que pagássemos e convidou Luciana a se retirar. Ela disse que ninguém ali pagaria aquela conta, pois ela não estava disposta a sustentar o agronegócio e as grandes cervejarias que bancavam aquela empresa e colaboravam com a exploração das classe menos favorecida. A essa altura, alguns funcionários, receosos do radicalismo pregado pela gaúcha, retornavam em silêncio ao trabalho. A confusão era generalizada e a polícia chegou. Você, seus amigos e Luciana Genro terminaram a noite na delegacia, dando explicações sobre a teoria marxista e sua aplicação nos bares da cidade.

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    Márcia

    6 de outubro de 2014 em 22:28

    Eu não terminei a noite na delegacia com a Luciana Genro porque só bebo água mineral nos bares da vida e já tinha saído constrangida depois da bronca da Dilma.
    Sempre contestei, culpa da minha sobriedade, os papos de boteco…..muito se fala e pouco se faz!!!

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