O espelho, as circunstâncias e a consciência

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Aquele seria um grande dia. Arregimentara o apoio de um grande adversário, desafeto até há poucos meses, e selariam a união diante de inúmeros holofotes. Seus correligionários estavam confiantes de que a nova aliança consolidaria a sua vitória. Ele também. Afeitou-se com extremo cuidado, pois não queria aparecer com o rosto cortado em evento tão importante. A gravata foi sugerida pela ‘ personal stylist’ contratada pelo partido à sua revelia. Naquele calor, preferia algo mais informal. Foi voto vencido. Com traje de festa, estaria dali a minutos cumprimentando efusivamente seu ex-rival, com quem trocara insultos e processos na justiça por calúnia. Como se fossem dois irmãos, chapas de uma vida toda…

Após certificar-se de que o nó da gravata estava impecável e o colarinho simétrico, sorriu para si mesmo diante do espelho. Ao sair, um som cochichado reverberou em seu ouvido: ‘ Mentiroso!’. Não havia ninguém em seu quarto, tampouco no banheiro. Nenhum aparelho eletrônico estava ligado.  ‘Devo estar sonhando’, pensou. E caminhou rumo à porta. ‘ Hipócrita!’. Não se conteve, e gritou: ‘ Quem está aí? Quem está falando’. Obteve o silêncio como resposta. Estava só e o motorista o esperava na rua para levá-lo até o Comitê Central. Apressou o passo e desceu, levemente assustado.

Uma multidão de fotógrafos e jornalistas aguardava o caloroso abraço dos antigos contendores. ‘A união pelo país’, tal qual era explorada pelos marqueteiros, suscitava opiniões apaixonadas na imprensa, nas ruas e nas redes sociais. ‘ Se o passado lhe condena, o futuro lhe absolve’, chegou a dizer  um dos seus assessores sobre o novo aliado. A frase tornou-se manchete dos principais jornais como símbolo de frouxidão moral, e foi necessária uma força-tarefa para abrandar a repercussão. Alguns factóides aqui e ali e o adiamento por algumas semanas da formalização da aliança acalmaram os ânimos da mídia, entretida por outros escândalos. O assessor saiu de cena e foi proibido de falar com a imprensa. Era conhecido pela língua ferina, inadequada em momentos contraditórios como aquele. Apesar de tudo, o evento foi um sucesso em termos de repercussão, não se falou em outra coisa por uma semana.

Nos bastidores, trocou algumas palavras com seu novo aliado, ambos cercados por suas equipes. Brindaram com champagne. Percebeu que no grupo havia três acusados de corrupção, cujos processos estavam em andamento na justiça. ‘ Faz parte do jogo. E todos são inocentes até que se prove o contrário’, amenizava um correligionário seu, colocando panos quentes em uma situação que já não lhe incomodava tanto. ‘ O objetivo final é sano, pense nisso. Você não está fazendo nada de errado, apenas lutando por seus ideais’. No começo, titubeou muito quando lhe foi colocada a opção de juntar Vasco e Flamengo. ‘ Isso é política, e não futebol. Somos frutos das circunstâncias e órfãos de convicção’, foi o conselho que ouviu de um velho cacique. ‘ Esqueça o passado e junte-se a ele, você só tem a ganhar’. Antes mesmo de replicar, recebeu um assertivo complemento: ‘ Seus eleitores entenderão, eles não se preocupam com a coerência. Imagens e frases de efeito contam mais. E aqueles que não gostarem, acabam se resignando. O saldo em votos, tempo de TV e apoio parlamentar será positivo’. Calou-se e tratou de ser pragmático. Alguns meses depois, estava diante de seu maior desafeto político, de reputação duvidosa, mas com uma persistente base eleitoral. ‘ Tim-tim’. Calculara quantos cargos valia aquele brinde. ‘ Pelos meus ideais’, pensou.

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Ao final do dia, no caminho para casa, confidenciou ao seu assessor – o língua ferina, o inusitado da manhã. ‘ Será que é stress?’, perguntou. ‘ Para ser sincero, acho que não é isso não’, considerou com ar sério. ‘ Aquilo foi a voz da sua consciência! Dizem que quando ela acorda depois de um desvio de conduta, não dorme nunca mais!’, e entoou uma longa e sonora gargalhada, recebida com um sorriso sem graça.

Acendeu a luz do banheiro. O que mais desejava era o silêncio. Olhou-se no espelho. ‘ Safado! Traidor! Filho da p…!. No escuro, meteu-se no chuveiro e colocou as mãos nos ouvidos. Foram alguns minutos de agonia, receoso de que os gritos e sussurros voltassem a lhe  assombrar. Nada. ‘ Deve ser o stress. Foi um dia duro’, pensou. Evitava o espelho. Mas teve que enfrentar sua imagem, quase simplória, de pijamas, antes de sair. ‘ Patife, você nunca mais me olhará nos olhos’. E nunca mais dormiu o sono dos justos…

 

 

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    Márcia

    7 de setembro de 2014 em 00:48

    Acertada escolha da primeira foto….”Obsessão infinita” talvez seja uma ótima maneira de nomear alguma coisa de alguns políticos que, assim como deve acontecer com a mente esquizofrênica de Yayoi Kusama, não deve dormir nunca….e no primeiro caso, “depois de um desvio de conduta”!

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