Crônica de uma estreia

cronica1 Relutei muito em adquirir dois ingressos de segunda mão para abertura da Copa. Pagar cinco vezes o valor de face para um jogo de futebol não fazia sentido. A menos pelo fato de ser um evento que não se repetirá tão cedo, certamente não nessa vida, para mim. Não se tratava apenas de um jogo de futebol, mas a abertura da maior competição esportiva do planeta, no meu país, com o Brasil em campo, algo que estaria marcado para sempre em nossas memórias. No caso, a minha, a do meu irmão e a do meu filho, que daqui a 50 anos poderá contar aos seus netos que esteve lá, com o bisavô deles. Sob essa perspectiva, encarei o custo absurdo e fui em frente, sem remorsos.

A chegada ao estádio foi tranquila. A sinalização nas linhas de metrô e da CPTM estava impecável, e os voluntários, muito solícitos e simpáticos. Os trens contavam com áudio em português e inglês, algo que deveria permanecer após a Copa; afinal, vivemos em uma aldeia global e não custa nada facilitar a vida dos visitantes estrangeiros em São Paulo, além de ser um importante sinal à população da importância de se falar outro idioma. Ao chegarmos à estação Corinthians, com mais de 3 horas de antecedência em relação ao início da partida, uma multidão já se aglomerava na saída e caminhava-se lentamente, mas sem atropelos ou balbúrdia. Dali a uns 500 metros estaríamos nos portões da arena, em um clima festivo, onde uma multidão de torcedores brasileiros e alguns estrangeiros se misturavam pacificamente com os croatas e suas camisetas de toalha de cantina italiana. A entrada ocorreu sem maiores sobressaltos e o fato dos nossos ingressos estarem em nome da família ´Vicejovic´ nem foi notado.

cronica2A sinalização dentro do estádio também estava adequada, os ´stands´ dos patrocinadores da FIFA proviam algum entretenimento aos torcedores, mas já se formavam algumas filas razoáveis para comer e beber. E lá fomos nós em busca dos nossos assentos, atrás do gol, no setor Leste. O sol a pino nos dava sede e para nosso desalento estava mais fácil achar água mineral no deserto do Saara do que no Itaquerão. Ponto negativo para a FIFA, responsável pela gestão dos ´comes e bebes´. Imperdoável faltar água. Soube que depois também faltou comida, o que deve ter incrementado a venda de Coca-Cola e cerveja, itens amplamente disponíveis. Eu sou contra a liberação de bebidas alcoólicas dentro dos estádios. A presença de ´bebuns´ era perceptível. Certamente poucos precisaram de injeção de glicose, mas muitos estavam naquele estado limítrofe para causar uma boa confusão. Eu mesmo testemunhei uma muito próxima a mim, no começo do segundo tempo. Dois sujeitos levemente embriagados começaram a discutir sobre uma cadeira supostamente vaga. O tom de voz subiu e quase foram às vias de fato, com a filha adolescente de um deles gritando e chorando pelo constrangimento que o pai lhe fazia passar. A turma do ´deixa disso´ interviu e um dos ´bebuns´ tomou outro rumo, mas por uns 5 minutos tive que ouvir a ralada da filha no pai, um senhor absolutamente ´sem noção’. Casos como esse poderiam ser evitados com a proibição de venda de bebida, mas seria impensável convencer a FIFA de que um de seus maiores patrocinadores não teria o direito de comercializar seus produtos, por mais que a lei do país-sede assim determinasse…

Abro parênteses para falar do Itaquerão, vulgo arena Corinthians, ou arena Figueirão para os mais chegados. Belo estádio. Constatei com meus próprios olhos o que já havia lido na imprensa: a escolha dos mármores gregos foi muito bem feita, deu gosto ver que o dinheiro dos meus impostos não foi aplicado em material de baixa qualidade. Sim, pois enquanto o Corinthians não pagar a dívida com o BNDES ( e será uma missão muito difícil fazê-lo), subsidiado pelo Tesouro Nacional, é o dinheiro dos pagadores de impostos que estará lá. Para checar a qualidade de um estádio, a prova de fogo é uma visita aos seus banheiros, antes e depois do jogo. A arena passou no teste, suas instalações são à prova de dor de barriga. As estruturas das arquibancadas provisórias mal tinham sido finalizadas, andaimes externos ainda eram visíveis, mas apesar disso, estavam funcionais. Antes de conhecer o estádio, eu me perguntava por que os ´tobogãs´ provisórios seriam retirados após a Copa e tive pelo menos uma resposta: à medida que anoitecia, setores mais altos dessas arquibancadas ficavam cada vez mais no escuro, praticamente no breu. A iluminação do estádio não foi feita para alcançá-los. Eu não vi o jogo lá de cima, mas imagino que durante a noite, não é uma posição muito confortável. E por falar em noite, logo no início da partida, cerca de 25% da iluminação caiu, por alguns minutos. Voltou. E depois caiu novamente. Imaginei o desespero do pessoal da Manutenção naquele breve período, uma eternidade para eles. Felizmente, naquele momento a iluminação era supérflua. A partir da metade do primeiro tempo, a situação estabilizou-se e assim foi até o final. Depois de conturbados meses de construção, imprevistos e preparação, a arena foi aprovada na prova de fogo.

O estádio enchia-se como um oceano amarelo e o tempo passou rápido. Tão rápido que mal percebi a cerimônia de abertura, que foi muito criticada por sua exagerada simplicidade. Ok, deve ter sido ruim, mas qual não é? Os boleiros sabem que cerimônias de abertura são protagonistas em Olimpíadas e humildes figurantes em Copas do Mundo. ´Foram gastos R$ 18 milhões naquilo!´, exclamava-se nas redes sociais. Nada perto dos bilhões perdidos por aí. Lamentei que o experimento do exoesqueleto, liderado por um cientista brasileiro, foi praticamente ignorado pela organização, eu nem cheguei a percebê-lo, talvez por não ter prestado muito atenção à cerimônia, ansioso que estava pelo início do jogo. E como sempre acontece, depois que a bola rola, a cerimônia torna-se nota de rodapé.

cronica3 Enfim, o tão esperado momento. O Hino. Queria cantá-lo à capela e fazer parte do show tantas vezes visto pela TV, durante a Copa das Confederações. Foi bonito, de arrepiar. De dentro do turbilhão, você nem percebe o poder uníssono da multidão, que só fica evidente nas imagens após o jogo. Fantástico. Após o hino, ganhou corpo o primeiro xingamento à Dilma, linchada verbalmente quatro vezes durante a partida. Ao coro de ´Ei, Dilma, vai tomar…´, boa parte do público vingava-se da política nacional, dos desmandos do governo, das promessas quebradas, da roubalheira contínua e por aí vai. Tudo ali personificado na figura da presidente, que talvez nem seja a maior culpada por toda a insatisfação latente. Foi sim, uma tremenda falta de educação. Mas, desde quando estádios brasileiros foram palco de cavalheirismo, elegância e educação? Lamentavelmente, desde que comecei a frequentá-los, há longínquos 36 anos, presencio o mesmo tratamento respeitoso dirigido à Dilma para os mais variados personagens: árbitros, que só vão fazer o seu trabalho, e são costumeiramente destratados, tem mães difamadas, e sua integridade ameaçada, jogadores do time adversário, dirigentes, políticos, e mais recentemente o locutor Galvão Bueno são alvo frequente da fúria das arquibancadas. O xingamento à Dilma é um reflexo do que presenciamos todos os dias nos campos de futebol e sua manifestação escancara o deselegante comportamento brasileiro típico em um estádio. Eu preferia que tivéssemos ali uma longa e ruidosa vaia, mas a presidente fugiu do embate e indiretamente criou o ambiente para que ela própria fosse mais uma no rol dos ´homenageados´. Uma pena, mas como ela mesma disse a uma jornalista: ´Coisas da vida´. E dos estádios de futebol.

Mais tarde, leio uma quantidade enorme de baboseiras a respeito do assunto: o público presente à estreia não representava o povo brasileiro, eram parte de uma elite branca e endinherada paulistana, e por conta disso, os xingamentos seriam ainda mais inadmissíveis. Eu, que dedico cinco meses da minha vida para bancar o governo, que levo uma vida honesta, suo para pagar minhas contas e prover educação, segurança e saúde aos meus filhos, não posso ser considerado parte do povo brasileiro, e deveria inclusive, sentir culpa por estar ali, na abertura da Copa, um evento destinado aos ricos do país e não ao povo. Nessa hora, vem à cabeça uma vontade enorme de entoar o coro da torcida para os pseudointelectuais, que do alto de sua soberba sem espelho, disseminam tensão social em quase tudo que falam e escrevem. Sim, o xingamento à presidente foi extremamente deselegante, tanto quanto o que se faz ao Galvão, para quem a elite endinheirada intelectual não dá a menor bola. No estádio havia milhares de pessoas de todos os cantos do país. Não eram provenientes das classes D, E, que tampouco frequentam estádios de futebol em outras épocas. Pertenciam em sua vasta maioria às classes A, B e também C, uma vez que o sorteio da FIFA não privilegiava os mais abastados, mas estava condicionado à sorte dos interessados, sendo que os preços originais eram até acessíveis à emergente classe média.

torcida2 Bola rolando, jogo morno. Gol contra. Ducha de água fria. Neymar em jogada individual empata o jogo. Explosão de alegria. Abraços. A visão do jogo ao vivo é muito prejudicada em relação à TV, principalmente atrás do gol, mas a emoção é inigualável. Segundo tempo e o jogo persiste modorrento, tanto que a torcida começou a fazer a ´ola´ para se entreter. O Brasil precisa jogar muito mais para ter sucesso nessa Copa. Pênalti. De longe, não dá para saber se foi legítimo ou não. Penso, comigo mesmo: ´Tomara que tenha sido, de fato, pênalti´. Após o fim do jogo, recebo uma mensagem: ´Não foi pênalti. O árbitro errou´. Merda. Incrível que em plena era digital, boa parte da torcida tenha ficado na ignorância sobre o veredicto do lance. Onde estão os radinhos de pilha? Foram substituídos pelos ´smartphones´, mas a conexão 3G variava entre ruim e intermitente. Perdemos os comentários em tempo real. Ponto para televisão. Neymar desempata. Nova explosão, mais abraços. O jogo segue no máximo mediano e em seu ocaso, Oscar, após grande arrancada, marca o terceiro de bico. A derradeira explosão de alegria. Para espantar o fantasma de um pênalti arrumado. O Oscar foi o nome do jogo. Foi? Só descobri isso em casa. Da nossa posição do campo, não dava para conhecer esse nível de detalhe. O Brasil vai precisar jogar mais bola….

E vamos para a casa. A multidão, em passo lento, mas sem acotevelar-se, segue rumo às estações de trem e metrô. Tudo parecia tranquilo e estava. No meio do caminho, a triste constatação: meu irmão e meu filho haviam sido furtados. Batedores de carteira abriram sorrateiramente a pequena bolsa onde estava a câmera fotográfica, tentaram retirá-la, não conseguiram, mas como ´troco´ levaram os óculos escuros. Imediatamente revisei a minha bolsa. Estava aberta, revirada, mas a câmera estava lá. Devo ter sido salvo por algum detalhe. Mais tarde soube que um amigo e sua mãe tiveram seus celulares roubados, também na saída. Um episódio infeliz para uma tarde feliz, memorável. Uma tarde repleta de Brasil, com suas virtudes e defeitos.

Teremos uma grande Copa. Dentro e fora de campo. Nossas mazelas do mundo da razão serão facilmente encobertas por nossas virtudes do mundo da emoção, os visitantes encontrarão o verdadeiro Brasil nesse período de trinta dias, insuficiente para causar irritação e mais do que suficiente para gerar admiração. Após 13 de Julho, independentemente do resultado da Copa, estaremos a sós novamente. Como será o reencontro do Brasil consigo mesmo? O tempo dirá se o espelho pós-Copa nos tornará melhores, piores ou simplesmente iguais a antes… cronica4

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    Andrea

    17 de junho de 2014 em 10:54

    Excelente texto Victor! Uma análise consciente e lúcida, sem a paixão cega de torcedor, mas com dose correta de patriotismo e civismo! Também penso em qual Brasil surgirá no pós evento. Confesso que sonho…

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