Brasil: A arte de não desapegar

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O noticiário deprimente de Propinolândia é um convite ao egoísmo. As evidências de roubalheria são descaradas, a inércia da Suprema corte é irritante, a malandragem do Congresso é revoltante e a incompetência do poder executivo, alarmante. A sensação de impotência diante dos descalabros tupiniquins fomentam um sentimento individualista: cuide do seu por que o que é de todos está perdido. A tentação é grande.

E se sucumbirmos, estaremos reforçando o estereótipo que acompanha o Brasil desde há muito tempo: um país de gente festeira, bacana e cordial, mas que fracassou coletivamente. Nós somos isso, mas precisamos manter acesa a chama de ambições maiores. Não podemos e nem queremos ser mais o país da impunidade, do jeitinho, da malandragem, da violência, da bala perdida, do pixuleco, do preconceito velado, da ineficiência.

A solução mais prática seria o ‘Braxit’: puxar o carro, fugir dessas bandas, deixar essas histórias grotescas que assombram o nosso cotidiano para trás e partir para outra. Nem sempre isso é possível, na maioria das vezes não é. E mesmo que fosse, será que fugir seria o mais correto? Afinal, estamos aqui por algum motivo, e por mais que o excesso de bandalheira nos estimule a desistir e que a minha geração (a dos anos 70) já não tenha esperanças de ver o país civilizar-se ainda nessa vida, podemos ajudar a fomentar o ponto de inflexão, para quem sabe a geracão dos anos 10 e 20 viver em um lugar melhor. É quase como o compromisso de construir uma catedral, que no caso brasileiro está praticamente no chão. Quem coloca os pilares não verá a cúpula.

Felizmente, o mundo conectado permite que a mobilização exerça uma enorme pressão sobre legisladores, administradores públicos, juízes. Algumas más decisões deixaram de ser tomadas e outras até foram revertidas por medo da dita opinião pública, essa entidade que se manifesta de diversas formas: pela imprensa, nas redes socias e principalmente nas ruas. É a única chance da maioria outrora silenciosa impor sua vontade. Parece pouco, mas não é.

As instituições, ainda que tropegamente, progrediram. Gente poderosa antes inimputável hoje mofa nas cadeias, quem diria. A faxina não chegou aos políticos, protegidos pela aberracão do foro privilegiado mantido por um STF célere como uma tartaruga, mas é difícil imaginar que a onda não lhes leve em futuro não muito distante. Isso não significará que nos movemos do purgatório ao paraíso, mas certamente refletirá um avanço.

A segurança jurídica ainda é vulnerável. Leis são criadas continuamente, adicionando caos no arcabouço de mais de 180 mil delas, confundindo até especialistas. Acredita-se ingenuamente que elas sejam necessárias para resolver os problemas. Uma ilusão cultivada em cinco séculos de história que transformou o Brasil em uma imensa confusão, permitindo aos defendores do ‘status quo’ o ardiloso contra ataque para deixar tudo como está. As transformações não virão sem o exercício de muita resiliência.

Apesar dos tapas na cara a que somos submetidos diariamente, tentando-nos a jogar a tolha, é tempo de persistir. O inconformismo consome energia, é verdade, mas daqui a 100 anos os livros de história poderão dizer que vivenciamos em nossa época um ponto de inflexão que ajudou a colocar o país nos trilhos. Temos a opção de sermos meros observadores ou agentes de mudança. No Brasil, precisamos exercer a arte de não desapegar. A luta continua e será longa…

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    sonia maria Pedrosa silva Cury

    7 de julho de 2017 em 11:45

    É desesperador! Dá vontade de largar tudo e pra outro lugar um pouco mais civilizado!

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