A guerra silenciosa de Josés e Marias

 

José teve seu carro roubado. Foi rendido por dois marginais enquanto saía para um restaurante. Perdeu o jantar e e passou muitas horas na delegacia. Nem tanto pela esperança de recuperar o automóvel, e sim para cumprir o procedimento burocrático junto à seguradora. A mensagem mais animadora que recebeu do policial foi algo do gênero: ‘Sorte sua que eles não atiraram, hoje em dia esse pessoal já faz o serviço drogado, em um piscar de olhos eles apagam alguém’. Voltou para a casa com a sensação estranha. Sem carro, mas feliz por estar vivo.

Maria era vendedora de uma loja de roupas, que nesse ano já havia sido assaltada três vezes. Em todas elas, ninguém foi ferido. Na quarta ocasião, semana passada, a polícia apareceu no momento em que os bandidos fugiam. Coincidência da ronda ser naquela hora. Houve tiroteio. Uma bala resvalou em seu ombro. Um dos três delinquentes recebeu um tiro na perna e foi preso. Os outros fugiram. Maria passou a noite no hospital. Oito pontos. Pronta para o próximo.

Um outro José estava parado no sinal quando foi saudado por um cano de revólver batendo com força no vidro. Seu carro não era blindado. Abriu a janela. O bandido desferiu um golpe em sua cabeça, e ele caiu desacordado sobre o banco do passageiro. A seguir, tal qual um polvo no fundo do mar, o marginal se inclinou, flexível, dentro do carro e alcançou tudo que lhe era possível. Parecia ter dez mãos. Celular, carteira, pasta de trabalho e a mochila de academia. Outros dois delinquentes, que davam cobertura nas cercanias, receberam a encomenda e correram. Em breve estariam em outra avenida, repetindo a prática. Eram ‘experts’. Em um dia normal, não gastavam munição. Vez por outra acontece. José  acordou em uma ambulância, algumas dezenas de minutos depois. Não conseguiu dormir naquela noite e nas outras cinco que se seguiram. Temeu estar com síndrome do pânico, mas aos poucos retomou a normalidade. Pensou em blindar o seu carro, mas era muito caro. Não cabia no seu bolso. Foi criativo. Separou relógio, carteira e celulares para o ladrão. Estariam sempre à disposição e bem à vista.

Uma outra Maria estava com três amigas em um badalado barzinho no final da tarde. Era um ‘Happy-hour’ esperado há meses. A vida profissional não lhes permitia o mesmo convívio dos tempos de faculdade. O papo corria alto e solto quando toda clientela foi surpreendida por gritos de ‘É um assalto, coloca tudo em cima da mesa’. Enquanto dois intimidavam a casa, armados, outros três faziam o arrastão. Tudo muito rápido. Celulares, bolsas, carteiras, óculos. Maria perdeu a bolsa, com carteira e todos os cartões. Suas amigas tiveram sorte distinta. Ficaram com a carteira, mas os ‘smartphones’ foram para o brejo. Fim precoce do ‘happy-hour’. O garçom depois lhes confidenciou que esse havia sido o mais coordenado dos quatro arrastões do ano. ‘O pessoal está ficando mais profissional’. Combinaram que o próximo encontro seria na casa de uma delas.

Um outro José recebeu um telefonema no meio da tarde. Era a polícia. Sua irmã havia sido baleada em um assalto e estava em estado gravíssimo no hospital. Seu telefone era o último encontrado em seu celular. Entrou em pânico. Desligou o telefone, trêmulo, e rapidamente ligou para o seu ex-cunhado. Inacreditável. Seus dois sobrinhos estavam na escola. Ficou sabendo que ela não estava envolvida no assalto. Foi uma bala perdida no meio da confusão. Estava dentro do carro. José perdeu o chão. E a irmã.

Uma outra Maria ainda era jovem, nem cinquenta anos tinha. Mas carregava consigo um tremendo vazio na alma. Há exatamente um ano, três filhos seus estavam comprando açúcar em uma lanchonete, na periferia da cidade onde viviam. Por um azar do destino, no lugar errado, na hora errada. Por conta da guerra do tráfico, que de forma velada já durava meses naquela comunidade, uma facção resolveu partir para a ofensiva e executou dez pessoas naquele final de tarde. Cinco deles não tinham nada a ver com a história. Três eram filhos de Maria.

Um casal, José e Maria, voltava da casa de amigos quando foram abordados por três jovens de aparência desregrada, antes de entrarem no carro. Era um sequestro relâmpago. No banco de trás, Maria era aterrorizada por um deles, que fazia pirraça com a situação, perguntando diversas vezes se ela estava preparada para se tornar viúva. Seu marido dirigia o carro, com um revólver apontado para si. Por uma hora, até encontrarem um caixa automático sem movimento. Feito o saque, foram abandonados em um bairro afastado, em um local escuro. Chegaram em casa duas horas depois. Choraram compulsivamente. O carro foi encontrado no dia seguinte e vendido uma semana depois. Impossível conviver com as recordações que ele traria dali em diante.

A polícia interceptou uma ligação telefônica entre dois bandidos, aparentemente realizadas dentro de presídios distintos em Santa Catarina. Eles combinaram que já estava de bom tamanho,  era hora de cessarem os ataques e a balbúrdia do lado de fora. Agiam como dois chefes de governo. ‘Como assim? Os bandidos ordenam ataques de dentro da cadeia? É possível isso?’ Perguntou um ingênuo turista estrangeiro a um constrangido José. Com vergonha de dizer que sim….acabou dizendo que sim. E tentou mudar de assunto.

Abalado pelas crescentes críticas ao recrudescimento da violência em São Paulo, o governador vem a público dizer que está tudo dentro da normalidade, apela para a resposta rasa de que alguns segmentos da sociedade e/ou da mídia buscam explorar politicamente o assunto (desculpa parecida em conteúdo à culpa atribuída pelo PT às elites conservadoras e reacionárias que ‘criaram’ o mensalão) e se exime do mínimo que se podia esperar em tal situação: senso de urgência. Os Josés e Marias que ouviram a infeliz entrevista do governador se revoltaram. Mais tarde, a raiva passou e um sentimento de desânimo aflorou.

Estatísticas mostram que São Paulo ainda tem índices de homícidio muito inferiores à média nacional, apesar de quase terem dobrado em 2012. Então a população do estado deveria ficar feliz por São Paulo estar em posição melhor que Alagoas, Paraná, Sergipe ou Rio de Janeiro? Seria uma reação ‘bovina’ a um problema alarmante. Para começar, os números divulgados baseiam-se nos indicadores de homicídio, que é o extremo da violência. É nítida a deterioração da criminalidade no estado quando se observa a escalada de assaltos, arrastões e furtos; formas mais brandas de violência. Para perceber isso, basta viver nas cidades. Esses casos tem aumentado e chegado cada vez próximo de nossa convivência diária.

A situação de São Paulo, até ano passado um dos estados mais ‘seguros’ do Brasil, e de Santa Catarina, cujos índices de criminalidade são os mais baixos do país e onde a bandidagem provou a sua força dentro dos presídios, é uma demonstração da precariedade da nossa segurança pública. Vivemos em uma guerra civil silenciosa, onde milhões de Josés e Marias desamparados, lutam para sobreviver, ou melhor, contam com a sorte de que algo não lhes aconteça.

Os eventos descritos acima, com Josés e Marias, apesar de fictícios, são comuns em nosso cotidiano. Até prováveis. Já não causam espanto. A violência está banalizada no Brasil. Estamos conformados. E quando uma sociedade perde a energia para se indignar, é por que já desistiu.

O gráfico no topo desse artigo classifica os países conforme seus índices de homicídio. Quanto mais escuro, mais violento. Não é necessário dizer mais nada. Já escrevi isso uma vez, mas não custa repetir. No Brasil, segurança pública é uma questáo religiosa. O estado não nos protege. Só nos resta Deus.

 

Ps* Em outra ocasião, pretendo abordar, do ponto de vista de um José, as razões pelas quais a segurança vai mal. É assunto para muitos posts.

6 Comments
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6 Comentários

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    Carla Freitas

    24 de novembro de 2012 em 16:09

    Que triste realidade! Fiquei ate com medo de voltar para o Brasil…

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      Victor

      24 de novembro de 2012 em 17:07

      Carla, o problema é que isso não é nenhuma novidade….

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    Bruno Mendes

    25 de novembro de 2012 em 16:39

    Falou tudo…. Estamos conformados… Parabéns pelo blog!

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    sonia pedrosa

    26 de novembro de 2012 em 11:46

    Não temos para quem apelar.. somos órfãos! Políticos, autoridades, polícia e bandidos se misturam. Não sabemos quem é quem. Muito triste.
    Abração!
    sonia pedrosa.

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    Isabel Lopes

    3 de dezembro de 2012 em 08:42

    Infelizmente vivemos uma guerra civil não declarada.
    Muito bom seu blog!

    Abs,

    Isabel

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    Claudia

    5 de janeiro de 2014 em 03:57

    Esse é o retrato do país … infelizmente!!!!

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