Um desafio: falar bem do Brasil!

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Para amenizar minha natureza inconformada, fui desafiado outro dia a falar bem do Brasil. À primeira vista, uma missão difícil. Meus elogios não seriam direcionados a nenhum dos três poderes da República e seus principais protagonistas, a eles eu deixo minha indignação. Teria então que me remeter ao período em que vivi no exterior (de 2003 a 2009), refrescando minha memória em relação à temas que deixavam saudade, ou extrair de amigos estrangeiros algumas impressões positivas sobre a nossa terra. Afinal, se o Brasil está bem longe de ser um paraíso apregoado por ‘falsos profetas’, também não é o inferno, mesmo com todos os seus defeitos.

O Brasil, seus políticos e seu modelo de estado ineficiente consomem minha paciência. É difícil observar os desmandos em todas as esferas da administração pública, nossa vergonhosa colocação em qualquer ranking que se faça sobre saúde, educação, segurança, produtividade e infra-estrutura e conformar-se com alguns poucos avanços; concretos, mas tímidos diante do potencial e da necessidade do país. Pior ainda é constatar que o debate sobre esses temas é superficial e cada vez mais vinculado à dogmas ideológicos que fizeram sucesso no século passado, hoje superados nos locais que vivenciam o terceiro milênio. E nesse decepcionante cenário, a diferença entre a crítica mordaz e a rabugice é bastante tênue. Eu transito entre os dois estágios quando me refiro ao meu país. Mas esse texto é para falar bem…

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Começo elogiando a comida. Trata-se de um viés cultural, pois acredito que as pessoas acostumam seu paladar ao lugar em que vivem. Então, não necessariamente um pastel, requeijão, feijoada, moqueca, carne seca com abóbora, coxinha, bobó de camarão, strogonoff (prato naturalizado brasileiro), pão com calabreza, farofa e vinagrete, arroz com feijão, bife acebolado, ovo e batata frita, brigadeiro, cocada, entre outros tantos, serão atraentes para gente cujos hábitos alimentares são diferentes dos nossos, apesar de geralmente receberem elogios. Além disso, a tropicalização da gastronomia estrangeira também produziu uma culinária italiana, japonesa, árabe, chinesa com um toque tipicamente brasileiro e que agrada a visitantes de qualquer canto do planeta. Em suma, come-se muito bem por aqui, e mesmo o mais simples arroz com feijão pode ser espetacular!

Ao citar a comida, não mencionei o churrasco. Não foi um esquecimento, pois ele é muito mais que isso. O hábito de assar os mais diversos cortes de carne (picanha e fraldinha encabeçando a lista das preferências nacionais) sobre o carvão é um evento social. As muitas horas que os amigos passam ao redor da churrasqueira, consumindo carne, cerveja, caipirinha e jogando conversa fora são um pretexto para socializar, algo extremamente importante em nossa cultura.

E o ato de socializar está relacionado às festas. Ninguém as organiza como nós, brasileiros. Nisso, somos imbatíveis. Tanto na preparação do evento, quanto na animação. Exemplo disso não somente são as grandes festas populares, como carnaval, festa junina, Natal e Ano Novo. Quem já esteve em festa de criança, formatura ou casamento fora do Brasil irá concordar. Para fazer festa, o brasileiro consegue até ser organizado, contrariando seu tradicional DNA de improvisação.

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falarbem5Nossa biodiversidade é uma bênção. As praias de areia branca, com a mata Atlântica ao fundo, e o mar de águas mornas à frente, muitas vezes acompanhado de vilarejos rústicos com infra-estrutura limitada, não fazem feio à nenhuma congênere caribenha ou do pacífico. A Mata Atlântica merece uma menção especial. É difícil descrever ‘cheiro’, mas a nossa vegetação  litorânea muitas vezes me despertou ‘saudades olfativas’ dos momentos pós-chuva, que exalam um aroma cítrico misturado com algum tipo de madeira.

Outro dia, um amigo americano exaltou o que ele definiu como ‘humanidade’ brasileira, algo que ele não encontrava no Tio Sam. Explorei o tema com mais profundidade, pois a definição, a princípio, me pareceu vaga. Chegamos à conclusão que ele se referia ao conjunto composto por tolerância e calor humano. Duas características genuinamente brasileiras, encontradas em qualquer esquina.

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Para uma sociedade excessivamente rígida e intolerante, como é o caso da americana, um pouco de tolerância é um bálsamo. No caso do Brasil, temos uma sociedade normalmente cordial, onde as relações pessoais são amenas. O efeito colateral dessa característica já foi descrito no artigo ‘Quando a tolerância se transforma em omissão’ (Fevereiro de 2012), mas me concentrando somente no seu aspecto positivo e incorporando o nosso calor humano, que entre muitos outros exemplos, pode ser traduzido em um abraço, tão simples quanto inusitado na maioria das outras culturas, é possível identificar o porquê do meu amigo ser tão elogioso à tal humanidade. Esse aspecto de nossa brasilidade era um dos que mais me fazia falta quando morava no exterior, e isso se refletia bastante nos ambientes de trabalho, normalmente muito mais frívolos e impessoais. Nos países com influência anglo-saxônica, um almoço rápido sobre a sua mesa de trabalho é comum. Chamar o chefe para almoçar é quase um evento, requer uma mensagem de antecedência. O silêncio dos corredores incomoda. No Brasil, vida pessoal e profissional se entrelaçam. Isso atrapalha a produtividade no trabalho? Sem dúvida. As reuniões levam mais tempo e para você avançar mais rápido em qualquer negócio, é importante conectar-se com o seu interlocutor, extrapolando os elementos meramente profissionais. No Brasil, mesmo nas horas mais tensas, é possível encontrar bom-humor, rir da própria desgraça. Isso contribui para tornar a rotina mais leve.

Esse conjunto, ao qual o meu amigo americano chamou humanidade, e para o qual não é fácil encontrar um definição, é um dos principais motivos de saudade quando você está fora e talvez seja pouco valorizado quando você vive aqui. Faz parte daqueles itens aos quais o sujeito só valoriza quando perde, tal qual a saúde. Quem já viveu no exterior sabe que ele é essencial.

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Imprensa livre. Isso é uma conquista democrática. Goste-se ou não dos principais veículos de comunicação, eles tem liberdade de publicar o que bem entenderem, e exercem com louvor o papel de delatores das barbaridades da nossa política e administração pública. Em um lugar onde a maracutaia e o patrimonialismo são vícios históricos, é extremamente  importante a presença de uma imprensa vigilante. Isso nós temos.

E finalmente, não poderia deixar de destacar nossa higiene pessoal. Podemos ser pobres, mas somos limpinhos. O hábito de tomar banho diariamente (ao menos uma vez) e escovar os dentes após todas as refeições é praticamente tido como alienígena na maioria das outras culturas. Muitas vezes percebia olhares de espanto enquanto escovava meus dentes após o almoço nos EUA, na Grécia e na Inglaterra. Para que tomar banho todo dia, no frio do inverno, se temos um perfuminho para enganar? Pensamento do europeu médio. Aqui, todo dia é dia de banho, graças a Deus!

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7 Comments
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7 Comentários

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    MauroAugustus

    3 de fevereiro de 2014 em 10:20

    Belíssimo artigo, sua indignação é minha também, mas o Brasil é um pais das contradições, talvez a omissão e o desinteresse pela participação politica faz do brasileiro um despreocupado com o rumo da nação.

    1. Avatar

      Victor

      3 de fevereiro de 2014 em 10:37

      Mauro, concordo com vc. O desinteresse da população é uma das raízes dos nossos principais problemas…!

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      Rozallah Santoro

      25 de junho de 2014 em 12:18

      Concordo plenamente com seu comentário, apenas ressalvando que de fevereiro para cá, algo tem mudado com relação à liberdade de imprensa.

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    maria emilia

    25 de junho de 2014 em 17:35

    Otimo artigo. Vivi uns anos no NE do Brasil e ainda hoje sinto saudades do calor humano, da alegria e do conforto que um abraço brasileiro pode dar. Um grande País e um Povo bom.

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    Maira Brito

    7 de novembro de 2014 em 04:47

    Gostei Muito Victor.. Me identifiquei bastante pq ultimamente esta BEM dificil achar o que falar bem do Brasil, mas na medida que fui lendo, fui pensando: “é verdade..!” Para cada item que vc pontuou. Morando fora do país dá bastante saudades desses pontos positivos.. =)

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    Cristiano Lima

    8 de março de 2018 em 20:18

    Excelente, captou os principais motivos de saudade e melancolia de quem esta morando fora, no meu caso ha dois anos.

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      Victor

      9 de março de 2018 em 02:17

      Como está a vida por aí? Abs

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