Um cavalo paraguaio chamado Jararaca

A Folha de São Paulo amanheceu avermelhada nas bancas e a ala esquerda do UOL estourou champagne com a notícia de que o palestrante preferido do Brasil, melhor amigo das empreiteiras, ampliava sua liderança nas mais recente pesquisa para as próximas eleições presidenciais, em 2018.

Estamos, portanto, a 18 meses do pleito, e uma análise histórica das eleições para um primeiro mandato presidencial desde a redemocratização, mostra que nesse período, todos os líderes nas pesquisas não prosperaram. Recordar é viver:

Em 1988, Leonel Brizola era o candidato a ser batido. Nem chegou ao segundo turno.

Em 1993, Lula liderava com larga margem. FHC ganharia no primeiro turno, com folga, no ano seguinte.

Em 2001, a líder nessa época era Roseana Sarney, com quase 30% das intenções de voto. Nem candidata ela foi.

Em 2009, José Serra liderava. Chegou ao segundo turno, mas tomou uma surra do poste ambulante, que a 18 meses da eleição nem era candidata.

Para ficar em exemplos recentes, onde estava Donald Trump a 18 meses da eleição americana? E quem era João Dória a três meses do pleito paulistano? E Emmnuel Macron, provável futuro presidente francês?

Os argumentos acima não desmerecem os números da recente pesquisa Datafolha, apenas a colocam em seu devido lugar em termos de relevância. São de pouquíssima serventia, fornecem apenas alguns ‘insights’.

Não há dúvidas de que o Jararaca tem grande apelo popular, afinal, todos o conhecem. Nos rincões miseráveis do Nordeste, as pessoas, desconectadas dos grandes escândalos mundanos, ainda enxergam na ‘alma mais honesta’ lembranças de um tempo em que podiam comprar uma TV nova, uma geladeira e coisas afins. Seria a tradução contemporânea do ‘rouba, mas faz’. Aliás, o morubixaba do ABC corre o risco de ter o desempenho de Maluf em quase todas as eleições majoritárias: largava na frente nas pesquisas, tinha um eleitorado cativo e perdia sempre. Quem não se lembra disso? O Jararaca é um fortíssimo candidato a cavalo paraguaio.

Também não podemos desprezar a importância de dois fenômenos distintos: o primeiro é a ascensão de Jair Bolsonaro, versão militaresca e tupiniquim do Donald Trump, que atingiu 15% das intenções de voto. Trata-se de um candidato absolutamente vazio de conteúdo, quando se exclui os velhos chavões conservadores que ele repete como papagaio por aí. Mas quem disse que o candidato vitorioso precisa de conteúdo, não é mesmo? Em um país que elegeu e reelegeu uma senhora que mal sabia se expressar e tinha dificuldades de concatenar duas frases com alguma lógica, esse não é um pré-requisito. Até onde vai o combustível do Jair? Uma análise racional diria que ele não teria condições de alçar voos mais altos, mas a racionalidade se mostrou débil mundo afora. Então, ele é alguém a ser observado.

Marina Silva, que aparece em público com a frequência de um eclipse solar, segue com indicadores consistentes para o primeiro turno, e bateria o próprio Jararaca no segundo. Com seu discurso genérico, às vezes confuso e geralmente de pouca profundidade, Marina tem a vantagem de arregimentar eleitores à direita e à esquerda, além de ser uma rara personagem conhecida não enlameada pela bandalheira. Seu desafio maior é superar a completa desorganização partidária. Agora em voo solo, com a Rede, não terá tempo de TV no primeiro turno e não fazer alianças pode ser fatal. Mas se chegar ao segundo turno, será uma candidata competitiva.

Os caciques tucanos derreteram. Aparentemente, Aécio Neves já se deu conta disso. Não parece ser o caso de Geraldo Alckmin, que nutre esse desejo obsessivo pela presidência. Já seria uma missão complicada sem a Lavajato, pois o governador paulista não tem muita visibilidade fora do seu estado natal e falta-lhe carisma para maiores ambições. Lembremos que em 2006, ele conseguiu a proeza de diminuir do primeiro para o segundo turno. Já no mundo pós Lavajato, o Palácio do Planalto é para ele uma missão impossível. Resta saber quando cairá a ficha.

O fato é que a única esperança do PSDB é o novato João Dória, melhor marqueteiro que já surgiu com bico de tucano, com amplo traquejo nas redes sociais e nos meios de comunicação, e que faz até o momento uma gestão bem avaliada na capital paulista. Seu nome já é ventilado como alternativa pelos quatro cantos do Brasil e ele aparece com maior intenção de voto que seu padrinho governador, aliado a uma rejeição baixíssima. Em tese, teria alto potencial de crescimento. Obviamente que em condições normais seria pouco recomendável que um novo prefeito abandonasse seu cargo no meio do mandato para disputar a presidência. Teria que se provar e eventualmente passar por um governo de estado antes de postular o Planalto. Mas estamos no Brasil, deserto de líderes confiáveis, e as circunstâncias podem conduzí-lo a uma candidatura. Seu maior e primeiro desafio seria romper as resistências internas dentro do próprio partido, reconhecidamente fraticida de longa data.

Fora isso, ainda temos Ciro Gomes, torcendo pela inviabilidade da candidatura do Jararaca, para que ele seja o expoente da esquerda. Enquanto houver um microfone aberto para que a nossa mistura de coronel com cangaceiro possa falar, ele se auto destruirá. Está longe de ser competitivo.

A pesquisa traz também nomes completamente fora do espectro político, como o juiz Sergio Moro e o apresentador Luciano Huck. Nenhum deles será candidato e sua inserção nesse painel somente se justifica para ‘vender notícia’. Convém lembrar que outros postulantes podem surgir, pois em política, 18 meses são uma eternidade.

Retomemos a conversa sobre o grande líder. Em um ano e meio, ele provavelmente terá acumulado mais de uma condenação na justiça. É provável que caia nas pesquisas. Afinal, a despeito do moralidade seletiva do brasileiro, uma condenação não é uma suposição, mas um fato. Mesmo assim, mantendo a candidatura, seguiria firme para o segundo turno. Não vamos nos esquecer que ele tem seguidores fiéis, praticamente religiosos, que seguramente lhe concederiam o direito de ir ao ‘mata-mata’, em uma eleição altamente fragmentada. Seria um cenário ruim para o Brasil, pois o pai do ‘nós x eles’ amplificaria ao máximo a polarização, a níveis muito mais ásperos do que ocorreu Em 2014. Diferentemente do passado, ele teria contra si um telhado de vidro quilométrico e já não contaria com o apoio explícito do poder econômico. Em termos práticos, precisa obter 70% dos votos no Norte-Nordeste e 40% no Centro-Sul-Sudeste para se eleger. Com altíssima rejeição, é um desafio dos mais difíceis.

Ainda existe a possibilidade de impugnação de sua candidatura. Seria o correto, caso fosse condenado em primeira instância. Afinal, o STF decidiu há pouco que um réu não pode estar na linha sucessória do presidente. Ora, estar condenado em primeira instância é mais grave do que ser réu, que nem julgado foi. Então, se prevalecer o bom senso e a lógica, um condenado Jararaca não poderia ser candidato, certo? Alto lá, estamos falando do STF, de onde pode sair alguma interpretação fantástica de um parágrafo qualquer perdido em uma página obscura de nossa Constituição, e dali brotar as condições para que um condenado seja eleito presidente.

Pensando bem, apesar de incorreto, o melhor para o Brasil seria que o nobilíssimo Jararaca fosse candidato. Assim, findaria o mito e nasceria o presidiário. Derrotado, poderia ser julgado em segunda instância sem o peso de sua preferência popular. Mantida a sentença, desfrutaria do cárcere curitibano ao lado de antigos e leais aliados. Não lhe faltaria companhia aprazível para um carteado. A hipótese nesse caso é que a morosidade da Justiça contribua para deixar em aberto o seu julgamento em segunda instância até as eleições.

E se ele não for condenado?
Bem, nesse caso, obviamente se fortaleceria, o que não quer dizer que se elegeria. Lembremo-nos que a economia é uma alavanca ou âncora em vésperas de eleição. Hoje, estamos na ‘draga’ ainda vivenciando os resquícios da apocalíptica gestão de Dona Pinóquia, mas daqui a um ano, muito provavelmente a situação estará melhor e o nível de desemprego caindo. A quem isso não interessa? Ao penta réu. Para ele, quanto pior, melhor.

A hipótese dele não ser condenado parece remota, dadas as evidências, delações e quantidades de inquéritos. De qualquer maneira, a justiça terá papel importante nas próximas eleições, ao aumentar ou reduzir drasticamente as chances do nosso Alibabá de São Bernardo.

Conforme descrito acima, é cedo, muito cedo para conjecturas. A corrida eleitoral só começará para valer ano que vem. Aos que sofrem de lulofobia, recomendo calma. Aos lulófilos, também. Em 2018 o Brasil escolherá entre passado e futuro. O cenário não favorece figurinhas carimbadas. Quem viver, verá.

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1 comentário

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    under armour

    15 de maio de 2017 em 10:25

    It’s exhausting to search out knowledgeable folks on this subject, however you sound like you understand what you’re speaking about! Thanks

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