A semana das múltiplas sensações

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Dia 29/11 começou como todos os outros. Acordei muito cedo para levar meu primogênito à escola e depois mergulhar na piscina para a minha rotina diária de 3Km. Entretando, não se tratava de um dia qualquer: o caçula fazia aniversário e como todos os que experimentam a paternidade devem saber, as datas comemorativas dos filhos são os eventos mais importantes da vida dos pais. Cinco anos que passaram voando e que suscitavam várias reflexões silenciosas sobre o valor do tempo, ainda no carro.

Foi nesse momento em que ouvi no rádio uma conversa sobre a tragédia com o avião da Chapecoense: fatos imprecisos, notícias superficiais, como é comum em desastres desse tipo. Falava-se em seis sobreviventes e pelo menos vinte e cinco mortos. Apesar de esperar pelo pior, uma vez que a escalada das fatalidades cresce à medida que as informações se tornam mais completas, havia ainda no ar a esperança de que mais gente pudesse ter sobrevivido ao acidente.

Esperança que se esvaiu tão logo eu disse o meu bom dia ao roupeiro do clube, que me confirmou de que eram somente cinco os sobreviventes, de um total de 81 pessoas (depois viemos a saber que eram 76). Enquanto observava os azulejos durante as braçadas, não conseguia deixar de pensar na triste fatalidade e na fragilidade da vida, fato conhecido por todos nós, mas apenas encarado de frente quando somos expostos a acontecimentos como esse.

Em um piscar de olhos, você pode já não estar mais aqui. E de que adiantará nesse caso o seu tempo perdido com temas menores, mesquinharias do dia a dia que não levam a nada. E que falta fará o seu tempo não aproveitado com que ou quem realmente importa. Amanhã, pode ser um ente querido para quem você não deixou um abraço ou uma palavra amiga. Essas tragédias, que de tempos em tempos entristecem o planeta, servem para nos alertar que a vida é um presente diário.

E assim foi o dia, com aquela sensação de tristeza acompanhando os pensamentos, como se algo não estivesse bem. O bombardeio de informações em todas as possíveis frentes amplificava o sentimento de consternação. Por causa de compromissos profissionais, cheguei mais tarde em casa. Exausto, dormi mais cedo que o habitual.

Na manhã seguinte, ainda uma derivada do dia 29, leio logo cedo as notícias relativas à mutilação do pacote anti-corrupção proposto pelo deputado Onyx Lorenzoni, responsável por melhorar bastante a proposta original do MPF. A Câmara dos Deputados, sorrateiramente em uma madrugada onde o país inteiro estava consternado com a tragédia de Medelín, desfigurou a boa proposição submetida à votação e enxertou no projeto final medidas que tratavam do abuso de autoridade para juízes e membros do Ministério Público, atitude claramente revanchista que visava intimidar as partes investigativas da atualidade. O assunto, embora relevante, sequer havia sido debatido anteriormente. As ratazanas agiam na sombra para salvar a própria pele. Causaram-me uma sensação de repulsa. Veio-me um palavrão à mente, do tipo ‘pqp, eles tiveram essa cara de pau, não é possível’.

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Começo então a destrinchar compulsivamente as notícias da desavergonhada punhalada que a população recebeu de seus congressistas enquanto dormia e me deparo com a notícia de que o deputado Onyx Lorenzoni havia sido ridicularizado pelos seus colegas na Câmara, chamado entre outras gentilezas, de palhaço. Considerando que na data os brasileiros podiam ser divididos entre ratazanas e palhaços, foi uma honra para o Lorenzoni ser alocado conosco no grupo dos cidadãos comuns sem foro privilegiado. Nós, os palhaços, o recebemos de bom grado. A corja, não se pode negar, é corajosa. Confrontou a população de maneira explícita. A quantidade de rabos presos com a vindoura delação premiada da Odebrecht deve ser incontável. Os ventos frios da curitibana operação Lavajato causam arrepios nos ratões, que de tão assustados e desconfortáveis, não se preocuparam em ser terrivelmente impopulares.

Inconformado, desabafo nas redes sociais minha indignação com a safadeza sem precedentes na história do parlamento. Os posts ganham empatia do público e começam a ser compartilhados em velocidade atípica para um amador como eu. Não estou sozinho na minha revolta, a gentalha cutucou a onça com vara curta, o asfalto esquentará em breve.

Como não bastasse o que havia feito na madrugada, a Câmara homenageou com a medalha do mérito legislativo o sr. Guilherme Boulos, líder do MTST, notório instigador de badernas, invasões e beneficiário de vantagens no governo deposto de dona Pinóquia. Desconheço o que ele fez para merecer tal ‘honraria’, mas tenho que concordar que ele está à altura de quem o premiou. Será que o medalhista estava envolvido nos atos de depredação promovidos por alguns bandidos naquela tarde em Brasília? Sim, isso também aconteceu nesse dia, evento que está se tornando cada vez mais comum na terra dos governantes frouxos.

O meu nível de irritação já ultrapassava os limites de segurança quando leio ao final da tarde que o coronel alagoano, aquele que tem 12 pedidos de indiciamentos enfileirados no STF, pretendia dar caráter de urgência à votação do frankstein aprovado pela Câmara na noite anterior. ‘Não é possível!’. Sem palavras, mas espumando por dentro, testava a minha saúde com aquela sucessão de ‘tapas na cara’. Quisera ser indiferente à vida política nacional, mas simplesmente não consigo deixar de acompanhá-la e emitir minha opinião. As últimas 18 horas colocavam à prova os resquícios finais de esperança de que o Brasil poderia se transformar em um país melhor para a geração dos meus filhos.

Conectado em tempo real, experimento a primeira sensação de alívio daqueles dois dias: Renan foi derrotado por 44×14 no plenário. Alguns senadores se manifestaram veementemente contra o procedimento sórdido e oportunista: Magno Malta, Cristóvam Buarque, Ronaldo Caiado, Álvaro Dias, dentre outros. Na lista dos que seguiram o coronel estavam Roberto Requião, Humberto Costa, Lindberg Farias e mais onze topeiras. Não me surpreendo. A esperança ainda não morreu. Vai que o Senado cria vergonha na cara e joga na lata do lixo a excrescência produzida pela Câmara?

Corte para TV. À noite, na hora em que teríamos a primeira partida da final entre Atlético Nacional x Chapecoense, em Medelín, os colombianos lotam o estádio e realizam uma cerimônia de homenagem às vítimas que primou pela emoção, solidariedade, respeito e civismo. Sob o canto uníssono do ‘Vamos, vamos, Chape’ e de um hino feito especialmente para a ocasião: ‘ Que se escute em todo continente, sempre lembraremos a campeã Chapecoense’, foi impossível chorar pouco. Persiste a fé na humanidade, nem tudo está perdido.

Foram dias onde alegria, tristeza, irritação, vergonha e emoção se alternaram freneticamente, sem dar folga. Alegria pelo aniversário do meu filho, tristeza pelo acidente da Chapecoense, vergonha pela nossa classe política, irritação com as ratazanas que teimam em nos apunhalar pelas costas e emoção pela sublime homenagem dos colombianos. Hoje, sábado, teremos mais tristeza pela frente, com o velório das vítimas do acidente. Domingo, será dia de ir às ruas mais uma vez. Dizem que vai chover, mas não importa. Será o dia de cuidar da esperança…

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    Marcia

    7 de dezembro de 2016 em 15:05

    Gostei dos parágrafos iniciais…..não li o texto todo…..pulei a parte política…..fui para o parágrafos finais! Já percebeu que só pensamos como você escreveu no início quando acontece alguma “tragédia”? Imediatamente depois, ligados no automático seguimos a vida!

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