Nós e o mar de lama que nos cerca…

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A memória de Pero Borges é muito bem cultivada no Brasil. Quem foi ele? O primeiro funcionário público reconhecidamente corrupto a desembarcar no país, na comitiva de Tomé de Souza, governador geral da colônia, em 1549. Pero havia sido condenado pela corte portuguesa por sua participação em obras super faturadas. Teve que devolver o dinheiro ao erário, o que fez através da venda de uma fazenda, e foi banido do serviço público por três anos.  Cumprida a ‘pena’, foi brindado com o cargo de Ouvidor-mor da colônia ultra marina, uma espécie de Ministro da Justiça. No governo seguinte, foi conduzido ao cargo de provedor-mor da Fazenda. Imagine o quanto esse curioso personagem não faturou em suas andanças pelas longínquas terras tupiniquins. Fez história e foi o primeiro exemplo de uma interminável ficha corrida impregnada no tecido cultural brasileiro, misturando patrimonialismo e corrupção.

Para quem achou que o Mensalão era o ápice do sistema altamente eficaz de corrupção montando pela máquina do governo, o Petrolão surge no horizonte constrangendo o cidadão comum, um tapa na cara de quem ainda tem a ousadia de viver honestamente por essas bandas. Basta um apertão da Polícia e da Justiça Federal, com atuação irretocável até o momento, que trambiqueiros de porte médio tem suas ‘convicções’ abaladas e imediatamente topam devolver dezenas de milhões de reais aos cofres públicos. A ‘reparação’ já soma centenas de milhões e certamente ultrapassará a marca bilionária à medida que as investigações se aprofundem e os tubarões sejam fisgados. E pensar que o Collor foi deposto por causa de um fiat Elba…

É interessante ver o petismo sair do armário com a mesma argumentação de quem não tem nada a acrescentar: ‘ sempre houve corrupção’, buscando relativizar a exorbitância de um escândalo sem proporções. As tentativas de associar o início do esquema ao governo FHC, por quem o PT nutre uma paixão enrustida incontrolável, soam até engraçadas. Se de fato começaram lá, os 12 anos de petismo proporcionaram alguns zeros à direita na conta bancária dos gatunos.  Se antes se roubava na casa dos milhões, hoje o assalto está na casa dos bilhões. É o avanço da tecnologia e da safadeza trazendo ganhos de produtividade incríveis à bandalheira, sem dúvida um ‘ case’ de sucesso que poderia ser explorado pelas melhores escolas de negócio do mundo.  Marcos Valério, operador do Mensalão, deve estar acompanhando com uma certa dose de inveja os trâmites desse novo escândalo; afinal, se por acaso um dia ele se julgou esperto ou profissional em seu ofício de ‘ ladrão’, foi rebaixado a trombadinha na era pós-petrolão. Aliás, Valério é a fonte de inspiração dos dedo-duros, já que recebeu a maior pena entre os mensaleiros condenados e irá passar uma longa temporada no xilindró, enquanto os políticos beneficiados pelo seu esquema em breve estarão todos em casa, fumando seus charutos cubanos e provando dos melhores vinhos, ‘mártires’ da classe trabalhadora…

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Enquanto isso, dezenas de milhões de brasileiros honestos assistem a esse show de horrores já sem esperança que a vergonha na cara prevaleça. Outros tantos, não menos numerosos, se omitem, dão de ombros, calam diante das barbaridades, pelo simples fato de não conseguirem criticar os companheiros do partido com qual simpatizam. É a ideologia pairando acima dos princípios. Esse assalto bilionário aos cofres públicos, que ocorreu sob os olhos pouco vigilantes ( ou até coniventes) de um governo incompetente, certamente superam por larga escala a somatória de todos os roubos ocorridos no país em um ano. Os milhares de delinquentes soltos em nossas ruas não são páreo para essa gente, que comete o mesmo tipo de violência, mas com um alcance incomparavelmente maior, pois sua roubalheira afeta muito mais os pobres que os ricos, já que os primeiros são os maiores beneficiários das obras e políticas públicas originadas por ‘mais caixa’ no Tesouro.

Que fique muito claro, os mesmos beneficiados pelos programas sociais são roubados em escala muito maior pelo volume de dinheiro que escoa pelo ralo da corrupção. O estado brasileiro, obeso e ineficiente, que supostamente promove a ascensão social dos mais desfavorecidos, ao mesmo tempo os apunhala pelas costas, ao permitir que a ambição desmedida de poucos pelo poder e enriquecimento ilícito se converta em roubalheira bilionária. Quanto não poderia ser investido em saneamento básico, hospitais, creches e escolas com essa dinherama que encheu os bolsos de corruptos e corruptores?

Eu me pergunto, com a ingenuidade dos honestos pagadores de impostos, se esse pessoal consegue se encarar no espelho ou dormir tranquilo à noite.  Também não consigo entender a omissão ideológica de outros tantos e sua busca por uma justificativa para tamanha aberração. Não adianta culpar o passado, vasculhar a idoneidade dos homens públicos de D.Pedro aos dias atuais. Infelizmente, a corrupção esteve sempre presente na vida nacional, mas o que nos importa é o presente. Para azar do PT e da base aliada e não por seu mérito, o amadurecimento das instituições republicanas permite que hoje funcionários públicos honrados investiguem com independência os malfeitos de um governo. Quem sabe tenha chegado o momento da redenção.

Haverá um dia em que a maioria silenciosa e indignada, representada por gente decente, prevalecerá sobre a minoria canalha, corrupta, malandra, que se ainda mantiver o privilégio da liberdade, o fará sob forte pressão moral, a tal ponto que um simples passeio na rua lhes custará muito caro. Não aguentamos mais navegar sobre esse lamaçal. Que esse dia chegue logo…

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    Marco

    15 de fevereiro de 2015 em 12:22

    Vitor seu texto é uma dose cavalar de tudo que qualquer cidadão independente de ideologia possa precisar para refletir e decidir como se posicionar ( lutar, negociar, ou se omitir e até fugir).

    Meu medo são as brechas no sistema como a que safado do ministro advogado do PT está costurando.inserir a oposicao no contexto para buscar um acordo de cavalheiros. Como muito já feito no passado.

    Será que dessa vez o,psdb tem janela para isso sem ser eliminado do cenário político?.

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