Bovinamente acostumados

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Estamos acostumados com a falta de educação. São cinco séculos de ignorância. Nossas autoridades celebram avanços irrelevantes, nossas metas são incompatíveis com um país que deseja entrar para o grupo dos desenvolvidos. Tudo bem, sempre foi assim.

Estamos acostumados  com a violência. A escalada de roubos e furtos, as dezenas de milhares de assassinatos sem solução, a legislação permissiva e tolerante demais com a criminalidade, um sistema carcerário falido. Já fomos uma sociedade bem menos violenta. Em 30 anos, o índice de homicídios no Brasil aumentou 256% ( de 11 para 27 assassinatos para cada 100.000 habitantes). O crime está ao nosso redor, e não podemos fazer nada a respeito, somente rezar. Os ateus nem isso podem. Tudo bem, já nos acostumamos.

Estamos acostumados com  uma das mais altas cargas tributárias do mundo. Logo, o ar que respiramos será taxado, com o nobre objetivo de combater a poluição. Se acontecer, vamos nos acostumar.

Estamos acostumados com serviços públicos deficientes. Hospitais sem leitos, sem remédios, poucos médicos, enfermeiros, todos mal remunerados. Os cubanos vieram nos salvar. Que alívio, já estávamos acostumados. E os esgotos a céu aberto, não são um problema de saúde pública? Quase metade dos domicílios brasileiros não tem acesso a saneamento básico, um problema do século XIX em pleno terceiro milênio. Tudo bem, estamos acostumados.

Estamos acostumados a pagar muito caro por tudo, seja um produto de alta tecnologia ou a commodity mais básica. Um omelete de camarão a R$ 100? Quem paga por isso ou é otário, ou está muito acostumado. Nem sempre foi assim. Há 10 anos, São Paulo era a #122 cidade mais cara do mundo, hoje é a #10, primeira do ranking das Américas, acima de Nova York. Que orgulho figurar no topo desse ranking. Estamos acostumados.

Estamos acostumados aos buracos nas ruas, às calçadas quebradas e mal cuidadas, aos bueiros entupidos. Como é bem aplicado nosso IPTU e IPVA! Onde foi parar o dinheiro das multas que pagamos? E como pagamos! No quesito ‘ coletar’, nosso governo é de primeiro mundo. Estamos acostumados.

Estamos acostumados com a péssima mobilidade urbana. Transporte público ruim, aeroportos inadequados, linhas de trens e metrôs incompatíveis com o tamanho da maioria das cidades. Resultado: um trânsito infernal. Sempre foi assim, nos acostumamos.

Estamos acostumados a pagar a conta de telefonia celular mais cara do mundo e ter nossa conversa interrompida a cada cinco minutos, quando muito. Nos acostumamos a tomar dinheiro emprestado pagando 10% ao mês no cartão de crédito ou no cheque especial. Apesar de termos acesso à geração de energia barata, pagamos muito caro por ela. Faltam linhas de transmissão. Agora, basta uma chuvinha banal para cair a luz na cidade mais rica do Brasil. Não era assim, mas já estamos nos acostumando.

imageCarregamos uma cultura patrimonialista desde os tempos de colônia, homens públicos misturam interesses de Estado com particulares, há sempre lugar para uma ‘boquinha’ extra, sobrecarregando a obesa e ineficiente máquina estatal. Estamos bem acostumados com isso. Sempre foi assim, não é mesmo?

Estamos acostumados com o excesso de burocracia, essa erva-daninha que atravanca a nossa vida. Eliminá-la? Jamais!! Afinal, ela gera milhares de empregos, o que os sindicatos iriam dizer? Ao longo da vida, teremos que provar que somos nós mesmos uma centena de vezes…é o Estado desconfiando dos cidadãos. Teria motivos para isso? Sem problema, já nos acostumamos.

Estamos acostumados com nossa infinidade de leis. Para cada problema, uma lei nova. Nosso arcabouço legal é um complexo emaranhado de contradições, que fazem a alegria dos juristas. Não é à toa que somos o segundo maior ‘ produtor’ de advogados do mundo, é difícil viver sem eles no Brasil, onde o litígio é quase um ‘ hobby’. Isso sem falar em nossa legislação tributária, tão difícil de entender quanto física nuclear em chinês. Estamos acostumados. O custo Brasil já incorpora uma área exclusivamente dedicada a assuntos tributários em qualquer empresa.  Gera muitos empregos. E também ineficiência. Estamos acostumados.

Por alguns momentos durante o ano que passou, tivemos a impressão de que estávamos prestes a nos ‘desacostumar’.  Mas esse genuíno sentimento de inconformidade, sufocado pelo comodismo impregnado em nosso DNA, foi tomado de assalto por um grupo de jovens bandidos mascarados, vândalos que se rebelam contra o ‘status quo’, o capitalismo, o governo, as ‘ elites’, uma entidade que ninguém sabe ao certo explicar o quê é, e partem para a agressão física e depredação pública. Investem sua fúria contra conceitos abstratos, que nem eles sabem explicar. Depredam por prazer. Contavam com o apoio de alguns intelectuais ou celebridades, que nostálgicos de um tempo em que se lutava contra opressão, sepultado no século passado, aplaudiam a atitude desses rebeldes de causa nebulosa, supostamente oprimidos por um sistema’mau’, mas que também enriquece quem o fustiga. Até que semana passada, os vândalos finalmente se converteram em assassinos. Era uma questão de tempo…Onde estão vocês, defensores dos blackbocs?

E onde estamos nós, maioria silenciosa e acostumada?

Não dá para sair às ruas? Convença o seu vizinho. O amigo do seu vizinho. O seu primo, seu funcionário,  seu parente distante. Fale de política. Leia. Escute. Seja um inconformado, cético. Monitore, cobre, espalhe sua opinião. Não guarde para si.  Não podemos ser bovinamente acostumados para sempre. Se todos  disseminarem um pouco desse inconformismo, talvez ainda haja esperança. Temos eleições em Outubro. Seria um ótimo exemplo se renovássemos 100% do Congresso Nacional. Seria a refundação do Brasil. Uma utopia…

 

 

2 Comments
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2 Comentários

  1. Avatar

    Adriano

    12 de fevereiro de 2014 em 13:51

    Vitao, como sempre mais um texto seu com uma excelente reflexao. Well done!

  2. Avatar

    edu

    21 de abril de 2014 em 10:02

    Muito bom!! Infelizmente, o projeto deste Governo é nos manter
    acostumados a sermos passivos. O famoso projeto do PT.
    Não tenho esperança enquanto tivermos uma liderança
    fraca.

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