Alta gastronomia x pastel de feira

Há duas semanas fui almoçar no quarto melhor restaurante do mundo, segundo uma revista britânica especializada em alta gastronomia, que só enxerga um dinamarquês e dois espanhóis à frente  dele, legítimo paulistano dos Jardins. Não que eu seja um frequentador assíduo desses locais finos; no caso, havia ganho uma aposta de um amigo meu que contemplava como prêmio ao vencedor um menu degustação no D.O.M. O custo alto da ‘expedição’ apenas ampliava a importância da performance dos reais protagonistas da aposta: o C.R Vasco da Gama e o São Paulo F.C. Em jogo, a melhor campanha no campeonato brasileiro de 2011. Para a minha alegria, deu Vascão, como era de se esperar.

O fato do local estar tão bem classificado em um ranking tradicionalíssimo, somente aumentou minha expectativa. Buscaria aguçar ao máximo meus sentidos visual e degustativo para encontrar razão de tamanho sucesso. Ao chegar, percebo que a rua de acesso estava bloqueada por uma feira, lugar onde a fome é impiedosamente assassinada por doces, pastéis, caldo de cana e outras quitutes populares. Atravessei-a  em direção ao restaurante, mas com o visual e o aroma da pastelaria exercendo uma certa atração no meu estômago vazio. ‘Calma, você já vai almoçar. E de graça!’, pensei.

Na entrada, a constatação de que uma nova mão de tinta na parede do lado de fora ofereceria um aspecto mais sofisticado, ou ‘bem cuidado’ ao local. Após empurrar a grande porta de madeira, constato que já estivera no lugar há uns 10 anos – tempos em que ele não era tão famoso – em um almoço casual de trabalho. Acomodei-me em uma mesa de canto a espera do meu amigo e ‘devedor’ e fiquei observando o salão. ‘Não há nenhum restaurante nos Estados Unidos, Inglaterra, França ou Itália melhores que esse’, pensei.

A decoração não me chamou atenção. Provavelmente uns 40 lugares no térreo, incluindo cinco cadeiras juntas ao balcão que servia como bar e estimo que outros vinte no mezanino. Não fosse um imponente lustre descendo de um pé direito alto, quase sobre a altura de uma pequena mesa de centro, o ambiente seria comum para um restaurante da área. Nas prateleiras de uma das paredes, destacavam-se um livro com Elvis Presley na capa e um leopardo em miniatura, além de outros badulaques. Mas o sentido que mais aguardava a hora seguinte era o paladar, e não a visão. Ele seria o fator determinante da minha avaliação e haveria chance de perdão para o leopardo perdido na prateleira.

Então vamos lá. O couvert também não me surpreendeu. Havia pães, mini pães de queijo, uma pasta de queijo coalho, outra de batata com alho e manteiga Viação. Eu esperava que houvesse alguma surpresa na qualidade e textura dos pães, pois o resto poderia ser encontrado em qualquer outro restaurante do bairro. Frustrei-me.

Antes de iniciar o menu degustação, provamos como cortesia um pequeníssimo pedaço de polenta envolta em creme, acompanhado de um espumante de jabuticaba. A própria se encontrava no final da taça, para finalizar a breve experiência. Simpático. O restaurante é conhecido pela mistura de singelos sabores nacionais com a tradicional cozinha internacional, e o menu comprovava isso.

Começamos com camarão, chuchu, tamarindo e cajuína. Estava bom. O problema é que o prato consistia em três camarõezinhos, mesclados com uns pedaços de chuchu. Nem parecia chuchu, um dos alimentos mais sem graça que existe. Eis um mérito do prato: fazer o chuchu não parecer chuchu…! O caldo resultante da combinação de tamarindo e cajuína também estava muito bom, só que não se alcançava todo seu conteúdo com a colher. Aquela era a típica situação em que o sujeito levantaria o prato, virando tudo no ‘gogó’, tratando-o como se fosse um copo, uma atitude completamente ‘pé-de-china’, mas que traria uma satisfação maior que aquela que eu experimentei, memorizando o gosto do caldinho.  Eu obviamente não pensei em cometer tal delito contra a boa educação, mas devo confessar que na solidão da minha cozinha, o prato voltaria para a lava-louça ‘limpo e seco’.

Depois vieram ostras empanadas com tapioca marinada. Não gostei muito.Pareceu-me algo exótico de um restaurante japonês, resultando em uma sabor estranho, uma mistura de doce com azedo. A única vantagem é que de tão pequeno, o conteúdo foi devorado em duas colheradas. Fiquei ansioso pelo próximo prato, para eliminar o gosto daquela combinação infeliz.

O peixe do dia era o Carapau, servido com mini arroz e alga. Trata-se de um exemplar de água doce brasileiro, textura e aroma semelhantes ao atum, servido em um pedaço de ¼ do tamanho normal. Não sou exatamente um fã de frutos do mar, não me sinto atraído pelo aroma de suas combinações. Preferia o atum cru servido em qualquer restaurante japa. O arroz estava muito bom, era uma espécie de risoto, deglutido em uma garfada. O Carapau estava bem ‘meia-boca’. O terceiro prato não chegou a compensar a decepção com o segundo. Era hora da massa, aquela altura já se configurando na minha esperança para reverter minha primeira impressão.

Fetuccine de palmito à carbonara. Agora sim, estamos falando de uma comida de final de semana. Estava excelente. Pena que em duas garfadas, se foi. Pensei que o ‘menu degustação’ havia acabado e eu ainda estava com fome. Meu pensamento voltava-se para a feira lá fora, e aquele pastel gorduroso, com carne o ovo cozido…

Eis que veio a costelinha ao malbec com mandioca Brás. Também estava boa, porém ou vinha de um porquinho bem magrinho, ou a costela foi dividida em alguns pratos. Se eu julguei o peixe como ¼ do filé normal, a costelinha devia ser equivalente a 1/8 da peça inteira. Enquanto isso, a fome seguia viva. Para encerrar o almoço, foi servido um tal de ‘alligot’. Trata-se de algo muito parecido com uma massa de pão levemente assada, envolvendo alguns tipos de queijo. Bom, mas ‘rápido’.

A sobremesa parecia nobre: torta de castanha de pará, com sorvete de whisky, curry, chocolate, sal, rúcula e pimenta. Quem lê, certamente vai pensar: ‘Wow!’. Não é nada disso. Sou mais um ‘tiramissú’.

O atendimento é correto e educado. Antes de cada prato há um aprendiz que vem explicá-lo e os garçons estão sempre por perto para verificar se está tudo bem. Lembrando que trata-se de um local pequeno e afamado, não esperava outro tipo de serviço.

Para arrematar aquela aventura gastronômica, café. Igual em todo lugar? Não. Há ‘cafés e cafés’ e para o ‘quarto melhor do mundo’ localizado no Brasil, esperaria ser apresentado a alguma variedade. Não foi dessa vez.

É bem verdade que eu não paguei pela empreitada, resultado da boa campanha do meu Vascão em 2011, mas tenho ciência de que saiu bem salgada. O menu degustação com quatro pratos principais custava R$ 280 por pessoa. Adicione-se a isso o ‘couvert’, a bebida e o serviço e você terá uma conta próxima a R$ 400. Minha natureza analítica me estimula a fazer comparações e eu constato que todo esse processo de degustação valia o equivalente a três churrascarias cinco-estrelas de São Paulo (que são ‘para lá’ de caras), oito boas cantinas paulistanas e quase duzentos pastéis especiais. Não chega a ser a melhor escolha quando se pensa na relação ‘custo x benefício’. Como mitigante, o fato de que o prato executivo do dia sai pela bagatela de R$ 65 por pessoa, indicando um potencial custo de quase R$ 100 pelo almoço. Apesar de muito caro, torna mais acessível a visita ao lugar, que já se converteu em uma espécie de atração turística de altíssimo padrão.

Sendo bem pragmático, o restaurante já ultrapassou a fronteira do paladar. Conquistou fama internacional. E por isso, muitas vezes é agraciado com elogios gratuitos. ‘Que peixe fantástico’, diriam sobre o Carapau do menu. Essa é a reação de alguns. Outros, como eu, colocam o nível de expectativa lá no alto. Bem alto. E se decepcionam. Não deve ser uma equação simples de resolver: tornar-se uma atração turística do circuito de luxo paulistano e ao mesmo tempo atender à expectativas ultra-rigorosas.

Feitas todas as considerações, eu saí dali na esperança de que a feira ainda estivesse lá. ‘O pastel especial que me aguarde’, pensei. Seria um desfecho popular para minha experiência de alta gastronomia e aniquilaria a fome, essa senhora insistente que ainda dava sinais de vida em meu estômago. Mas não. A feira já havia terminado, e o pastel ficou para outro dia.

É possível que eu tenha um ‘gosto rústico’, afinal minhas preferências são: um bom churrasco, pizza, spaghetti à bolonhesa, strognoff e um belo prato de arroz, feijão, farofa, bife, batata e ovo frito. Com esse tipo de comida bem feita, estou no paraíso. Meu paladar não precisa de sofisticação e isso certamente influenciou minha crítica mais rigorosa ao renomado local.

Enfim, não somente para as experiências gastronômicas, como para qualquer situação na vida, tudo é uma questão de expectativa. Ela influencia fortemente a opinião que temos sobre o que acontece ao nosso redor. Nesse caso, a alta expectativa e a fome determinaram a vitória do pastel de feira no embate contra a alta gastronomia. Incontestável.

 

 

8 Comments
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8 Comentários

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    Mauro malaguti

    13 de maio de 2012 em 19:26

    Eu também voto no pastel de feira. E hoje em dia os meus pratos prediletos sao arroz feijão e couve manteiga ou nhoque com molho gorgonzola.

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      Victor

      13 de maio de 2012 em 22:54

      Isso mesmo, quem disse que o simples nao pode ser bom!!! Abs

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    Paulo Sampaio

    13 de maio de 2012 em 22:16

    Victor, eu também desconfio dessa cozinha “inventiva” e badalada demais. Sou muito mais as tradicionais cozinhas italiana e francessa, com seus pratos típicos, cheios de sabores e bem servidos. E sem frescura e cifras astronômicas!

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    Ricardo Andolfatto

    14 de maio de 2012 em 21:34

    Me identifiquei com o texto, sempre que vou a algum lugar diferente (não necessariamente caro), costumo fazer esse tipo de comparação! Não dá para desconsiderar a relação custo x benefício. Valeu a dica.

    Detalhe: a sua narração fez também lembrar o conto das “Roupas do Rei”…

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    Edson Furuiti

    15 de maio de 2012 em 07:39

    Olá Victor, tudo bem? Long time no see…
    Só ficou a dúvida: rolou um pastel depois do D.O.M.???

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    Márcia

    11 de julho de 2015 em 20:36

    Como filha de pasteleiro e feirante numa cidade do interior de SP aprendi que o simples é muito mais…sempre foi e sempre será! Parabéns pelas vitorias do seu Vasco e do pastel!!!

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    Nardy

    11 de julho de 2015 em 23:00

    Acho que também tenho o paladar ‘rústico’, ou minha expectativa estava muito alta também, pois minha experiência neste restaurante foi muito similar à sua…

    Pastel Rocks!

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