A fila

Reclama-se, com razão, da qualidade dos nossos representantes eleitos. Seja em Brasília, nas capitais ou em qualquer rincão do Brasil, a atividade pública em geral e política em particular nos remete à ineficiência, aos privilégios, à roubalheira. Não fosse pela novidade do clamor das redes sociais e da mídia em tempo real, nosso Congresso seria ainda mais refratário às mudanças éticas que parecem ser um consenso de uma sociedade cansada de ser feita de palhaça.

Mas será isso mesmo? Afinal de contas, quem elege os políticos que enganam seus eleitores? Aqueles que criticamos nada mais são do que o reflexo da nossa sociedade.

Imagine-se em uma grande e desagradável fila. Poucos metros à sua frente, um espertalhão tenta furá-la. Suas razões, desculpas esfarrapadas, são diversas. O desfecho dessa situação pode variar:
– Ninguém contesta o malandro, que usurpa o direito de todos que ficaram para trás;
– Um sujeito inconformado brada contra a malandragem e causa constrangimento suficiente ao esperto, que momentaneamente refuga de sua intenção espúrea;
– Há uma rebelião. Sua senhoria malandragem é expulsa quase a pontapés por seu pequeno delito.

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No Brasil, infelizmente, há muitos, incontáveis furões de fila. Ocorre que a maioria dos passantes não reclama, no máximo um resmungo com o vizinho: ‘que absurdo esse sujeito que furou a fila’, uma mugida básica. Quando muito, surgem os inconformados, que sob olhar incrédulo da boiada, vão até o furão e tiram o sujeito de lá, nem que seja pelo cangote. É muito difícil uma reação em massa contra o espertalhão. Quando acontece, trata-se de espasmos de uma sociedade conformada, permissiva com pequenos e grande delitos.

Será que somos assim por que também furamos fila? Ou somos tolerantes ao furão quando ele for nosso amigo ou pensar de modo semelhante a nós? Por que seríamos indiferentes à pequena infração? Nos sensibilizaríamos com a desculpa esfarrapada do malandro e daríamos de ombro, julgando o ato irrelevante à nossa preocupação?

Em um país civilizado, ninguém fura fila. Ou por que os indivíduos zelam pelo direito alheio ou por que seriam constrangidos pela represália que sua atitude lhes proporcionaria.

No Brasil, precisamos aprender a não furar fila. Talvez isso seja uma realidade distante, então o primeiro passo é contestar coletivamente a malandragem. Não deixe que lhe passem à frente! Grite, esperneie, e convença o seu vizinho a também fazê-lo. É um começo para que um dia sejamos representados por gente incapaz até de cometer pequenos delitos, tal qual seus representados cidadãos comuns.

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    Marcia

    24 de novembro de 2016 em 00:57

    Fiz uma cirurgia em um hospital público por se tratar de um caso raro (desnecessário ser raro a essa altura da minha vida….mas enfim….) e em todas as idas ao hospital, permaneço sentada crochetando pacientemente à espera da minha vez…..teve dia em que espera foi de 5 horas. Tenho um filho médico formato nessa faculdade e não uso desse título para ter atendimento rápido….sou paciente como todos os outros!

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