A difícil vida de um profissional do marketing…

Ao longo de minha carreira, exerci o pragmatismo dos números à exaustão, atuando em áreas onde a zona cinzenta da subjetividade era um tema de menor relevância. Os desafios, inerentes a qualquer matéria quantitativa, é fazer com que os interlocutores estejam no mesmo nível de compreensão do assunto, uma tarefa às vezes complexa.

Explicar a dinâmica e as nuances da provisão para devedores duvidosos a alguém sem experiência com o tema pode ser uma missão impossível, apesar de simples aos olhos de um especialista. O mesmo pode se dizer das relações de causa e efeito entre crescimento, receita e inadimplência em uma carteira de crédito.

Apesar de não serem conversas triviais, temos os números a sustentar o raciocínio. É um processo lógico, por maior que seja a dificuldade do seu interlocutor para assimilar os conceitos. Sendo assim, é previsível, e com a repetição, torna-se gradualmente mais acessível aos que se esforçam para compreendê-los.

De uns anos para cá, passei a me envolver mais com temas de marketing, peças de propaganda, campanhas publicitárias e afins. Mesmo não sendo minha atividade principal, experimentei o suficiente para constatar que a vida do marqueteiro também não é nada fácil, pois a subjetividade na avaliação do seu trabalho converte todo leigo em expert.

Diferentemente de um tema técnico de gerenciamento de risco, citado no início do texto, onde a incompreensão gera ceticismo, no caso de marketing, o excesso de opiniões é fomentador de polêmicas.

Afinal, cada indivíduo tem um gosto, que pode contaminar o parecer sobre qualquer campanha. Os profissionais do ramo, normalmente versados em trabalhar com emoções e menos afeitos à rígida disciplina da análise de dados, geralmente tem alguma dificuldade em suportar suas teses com estatísticas. Mesmo quando é possível, a mensuração dos resultados não é lugar comum, o que fortalece o papel da subjetividade nas conversas sobre o tema.

Nessas circuntâncias prevalece o ‘achismo’ e haverá sempre alguém descontente com o resultado, justificando aquilo que não gostou a partir de experiências próprias, sem colocar-se nos sapatos do público alvo.

Profissionalmente, quando me vejo preso a discussões filosóficas onde não existe o certo ou errado e não há disponibilidade de informação que sustente essa ou aquela tese, meu reservatório de paciência rapidamente se esvazia e dou graças a Deus por não ser do ramo. Particularmente nesses casos, sou um devoto da frieza dos números.

O marqueteiro é praticamente um artista, submetido ao julgamento de uma plateia de experts. Nesse sentido, é até mais fácil falar com leigos…

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    Cristiane Araujo da Silva

    4 de agosto de 2020 em 16:29

    Concordo em partes, sou publicitária de formação pela Universidade Mackenzie (bacharel em propaganda, publicidade e criação), e MBA em Marketing pela PUCSP. A formação de publicitários nos 5 primeiros semestres possuem disciplinas de ciência da comunicação, semiótica, proxêmica entre outras que são inerentes à formação básica e intrínseca para os “publicitários” e “marketeiros” terem conhecimento que muitas vezes parecem tidos como “questão de gosto”, no entanto, o profissional têm embasamento científico para a criação, execução e gestão de campanhas assertivas e de sucesso.
    O MBA sim possibilitou ter visão holística e sistêmica de todas as áreas envolvidas de soluções, serviços, produtos.
    Mas, consigo entender o que vc quis passar no texto… assim como na economia, política, os “achistas” e gestores estão de plantão a dar o pitaco como se fossem PHDs.

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