Vamos falar do goleiro Bruno?

O goleiro Bruno está solto. Não dá mais para chamá-lo de ex, pois aparentemente choveram propostas para que ele volte a jogar, inclusive de times da série A. O brasileiro é mesmo muito ‘solidário’. Mentor do assassinato, seguido de esquartejamento e ocultação do cadáver de Eliza Salmudio, com quem teve um filho e se desentendeu, o caso dele foi parar no STF, nas mãos do sempre ‘magnânimo’ Ministro Marco Aurélio, que concedeu o habeas corpus pelo fato do réu ainda não ter recebido a condenação definitiva em segunda instância.

Após mais de seis anos, nada da segunda instância julgar o caso. Na primeira, ele foi condenado a 22 anos. Por ser réu primário e com bom comportamento, é possível que a confirmação da sentença o obrigue a passar mais um ou dois anos em cana. Isso, é claro, se o Tribunal não entender que 22 anos é uma pena muito severa. Na melhor das hipóteses, portanto, Bruno nem voltaria à prisão.

Exceto Rui Falcão e outros petistas, que comemoraram a decisão do meritíssimo como um sinal de que detentos figurões do partido poderiam tentar o mesmo caminho, alegando isonomia, ninguém em sã consciência e com um mínimo de humanidade ficou feliz com a decisão.

Ela é vergonhosa. Retrato de um Brasil com 180 mil leis, o paraíso na Terra para os advogados, que não consegue uma justiça diligente e ágil que seja capaz de resolver um caso de crime hediondo como esse em menos de seis anos. Ao mesmo tempo em que temos milhares de Brunos soltos por aí, outros tantos Josés ladrões de galinha estão presos, experimentando da sofisticação de nosso sistema prisional, onde 600mil detentos estão ‘confortavelemente’ instalados em penitenciárias que comportam nem metade disso.

Não há como negar que a vida vale pouco por essas bandas tropicais. Não bastasse o fato de que somente 8% dos assassinatos são resolvidos, quando isso acontece, não raro as brechas em nosso emaranhado legislativo permitem que a bandidagem desfrute do benefício da liberdade o máximo tempo possível. Quem não lembra do assassino confesso Pimenta Neves?

Bruno está em liberdade para nos lembrar que a jornada brasileira rumo à civilização é longa e árdua e que provavelmemte não registraremos seu desfecho em vida. Com um pouco de azar, você ainda corre o risco de torcer por ele defendendo o seu time. Não há sinais de mudança no horizonte. O brasileiro tolera delitos, pequenos e grandes. E mesmo que uma minoria ruidosa esperneie e conteste o quadro geral de impunidade, haverá sempre um Marco Aurélio a nos dizer para não alimentarmos esperança. A ‘frouxidão’ da lei está lá para ser cumprida.

O desânimo não se dá por causa de um caso específico, mas pelo simbolismo que ele representa. Pode ser que sejamos todos protagonistas de um gigantesco conto do Alienista, do inesquecível Machado de Assis. Somos milhões de Simões Bacamartes assistindo às nossas brasilidades. Talvez nós devêssemos estar presos e os bandidos, soltos. Com a devida vênia, que tal a ideia, Ministro Marco Aurélio?

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    Andrea

    3 de março de 2017 em 03:35

    Victor, não tenho qualquer esperança de que nós consigamos encontrar a saída para este absurdo lugar a que cheganos. Não somos uma Nação, nem sequer um país., estamos apenas confinados neste imenso território que nem sequer sabemos a quem pertence, tantos são os que dele tiram proveitos os mais excusos e medonhos… nossa sina é esta, assistir a tudo, atados por correias da ignorância e da ignomínia. Triste povo…triste terra esta, atiraremos ao lixo todos os sonhos, todas as possibilidades, nunca seremos nada além de um projeto.

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