Vamos falar de racismo à brasileira?

Falar de racismo sem nunca ter sentido o preconceito contra si é como descrever lugares por onde você nunca andou. É até possível fazê-lo com base em estudo e observação, mas faltará o sentimento de quem vivenciou a experiência. A dor do preconceito somente pode ser perfeitamente descrita por quem a viveu. Portanto, esse será um texto com alta dosagem de razão.

Em tempos de polarização exagerada, a menção ao termo ‘racismo’ despertará naqueles que o negam ou lhe são indiferentes o discurso contra o vitimismo, algo do tipo ‘se criticar um petista, então é tucano – e vice versa’. Efeitos de um mundo realmente chato, onde as pessoas tem indisposição para ouvir algo com que não simpatizam.

Aos que sustentam que o termo ‘raça’ é inapropriado, por sermos todos da ‘raça humana’, replico que seria ótimo que fosse assim. Mas, se essa tese estivesse correta, as pessoas teriam igual acesso à oportunidades de desenvolvimento e crescimento, independentemente de qualquer tipo de segmentação com base nas características pessoais, certo? Ocorre que lamentavelmente, são muito mais difíceis as chances de alguém ter uma vida ‘confortável’ nascendo com a cor da pele mais escura, particularmente no Brasil. Sendo assim, falar em ‘raça’ faz sentido. Quem sabe no dia em que vivenciarmos um mundo sem discriminação de qualquer tipo, poderemos então abdicar desse termo. A raça, nesse caso, é filha do preconceito. Os ndicadores sociais da raça ‘amarela’ são pouco divulgados, certamente por que os descendentes de asiáticos encontram-se muito bem posicionados, inclusive melhores, na média, que os brancos. Não é o caso dos negros.

Há também os argumentos de que a escravidão foi um fenômeno comum nos séculos passados, que os povos negros africanos escravizavam seus congêneres, de que Zumbi dos Palmares foi dono de muitos escravos, a conversa de que o tratamento aos negros no Brasil era mais cordial do que na da América do Norte, de que no sul do mundo os escravos frequentavam a casa grande e alguns deles até eram alforriados. Quantos filhos bastardos não foram gerados nessas perambulações, não é mesmo? Não sem razão, somos um país mestiço, com mais da metade da população considerada preta ou parda. Essa mistura, seria a prova inequívoca que o racismo no Brasil é um mal menor. O preconceito seria contra pobres e não contra negros. Não faltam leituras que se prestam a amenizar a severidade do problema, elas servem para confundir, além de ignorar o momento atual.

Para facilitar o debate do racismo no Brasil, eu esqueceria o passado. Vamos apagar tudo que aconteceu até hoje, já não importa mais se Zumbi era bom ou mau sujeito, se a escravidão de fato foi abolida antes de 1888 (leis anteriores desde a década de 1870 tornaram a abolição plena da escravatura uma questão de tempo), se o hábito escravocrata era uma mentalidade do homem da época. Vamos nos concentrar no presente. Assim, varremos do mapa qualquer argumentação que nos remeta a fatos históricos, apenas com o objetivo pragmático de entender o racismo ‘agora’.

Pesquisa do Instituto Ethos nas 500 maiores empresas do Brasil constatou que apenas 5% dos cargos de liderança são ocupados por negros (incluindo também os pardos), um contraste quando comparado à sua representatividade na população, de 54%. Como essas posições são ocupadas majoritariamente por quem tem curso superior, terminar a faculdade é quase um pré-requisito, algo muito mais difícil aos pobres. O preconceito seria então contra os pobres, diriam os que tentam atenuar o problema. Bem, entre profissionais formados, o salário dos negros é 35% inferior ao dos brancos. Para os indiferentes, seria por que os negros escolhem carreiras de menor remuneração.

Não é mais fácil encarar o problema de frente, e reconhecer que 5% de negros em posições de liderança é praticamente um ‘apartheid’ à brasileira? Que mesmo se comparadas carreiras distintas, 35% é uma diferença extremamente alta, incompatível com a normalidade? Entre os brasileiros 10% mais pobres, 75% são negros. Como ignorar números tão alarmantes? 129 anos após a abolição da escravatura, ainda existe um imenso fosso separando brancos e negros no Brasil. Muito embora essa não seja uma demonstração de racismo individual, comprova que coletivamente a sociedade brasileira fracassou na inclusão do negro. Provavelmente, nunca houve um esforço para que isso ocorresse. Coletivamente, somos racistas.

Embora nos últimos anos a participação de negros graduados no ensino superior tenha aumentado e atingido 27% do total em 2016, eles ainda não aparecem com frequência nas entrevistas de emprego e são minoria em processos de ‘trainee’ ou estágio. Carecem de capital social, a teia de relações que muitas vezes proporciona uma indicação para uma vaga, ou mesmo uma lembrança para um processo seletivo. Muitos deles são estreantes em gerações a conseguir um diploma, ainda marinheiros de primeira viagem. Se não houver um movimento pró-ativo das empresas para encontrá-los, a situação de equidade racial no mercado de trabalho levará muito tempo, cento e cinquenta anos. Mesmo com essa melhoria recente no topo da pirâmide educacional, a taxa de analfabetismo entre negros é 35% maior que entre brancos, um obstáculo intransponível para o futuro.

A cada 100 vítimas de homicídio no Brasil, 71 são negras. Nos últimos 10 anos (2005-15) enquanto a taxa de homicídio na população negra cresceu 18%, a de não negros caiu 12%. Não menos lamentáveis são os indicadores de violência contra mulher: de cada 100 assassinatos de mulheres, 65 são cometidos contra negras, com 22% de crescimento em 10 anos, ante uma redução de 8% entre mulheres não negras.

Não se pode omitir o infeliz contraste entre as taxas de mortalidade entre negros e brancos: 18.3 contra 14.1 em cada 1000 nascidos vivos, respectivamente. Um incrível percentual de 22% dos negros vivem em domicílios sem banheiro ou água encanada, somente 8.2% dos brancos estão nessa condição. Em números absolutos, seriam 25 milhões de negros e 7.7 milhões de brancos em condições sub-humanas. A diferença, mais uma vez, é gritante.

Ainda haverá quem diga que esse não é um problema e com o tempo tudo se resolve. Séculos, nesse caso. Os números gritam, mas são insuficientes para sensibilizar alguns ouvidos. Paciência. Felizmente, a maioria da sociedade parece ter despertado para o assunto.

Como era de se esperar, a defesa da causa antirracista acontece com alguns exageros, tanto na forma (essa bobagem chamada apropriação cultural, por exemplo), quanto no conteúdo (algumas pregações que enveredam pelo perigoso caminho do revanchismo). Essa semana mesmo, surgiu uma tese em uma reportagem na FSP de que a ausência de pratos africanos em restaurantes paulistanos seria uma comprovação de racismo. Menos, gente, não é para tanto. De qualquer maneira, a negação do problema não é solução para moderar essas posturas ‘mais radicais’.

Se o racismo é uma realidade, e poucos vão contestá-la, reconhecê-lo é o primeiro passo para o enfrentamento. Demonstrar empatia é o segundo. Coloque-se no lugar do outro, assim é possível perceber que a vida das pessoas negras que conhecemos foi repleta de obstáculos muito específicos, inusitados aos brancos. Finalmente, estimule a inclusão, sempre que estiver ao seu alcance. Cinco séculos de racismo não se desmontam da noite para o dia, mas essa é uma transformação que justifica a pressa. Se deixarmos para nossos filhos e netos um país mais próximo da igualdade racial, o esforço terá valido a pena.

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3 Comentários

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    Helio Watras

    20 de novembro de 2020 em 23:31

    Ótima colocação!

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    Geraldo Araujo

    22 de novembro de 2020 em 22:08

    Em 1872 foi feito um censo cujo o resultado dizia que a população do Brasil era de 10 milhões de habitantes, sendo que desse total 15,24% era escrava. Esse recenseamento é considerado bastante completo por trazer o único registro oficial da população escrava nacional, os imigrantes separados por nacionalidade e faz, ainda, um inventário inédito das etnias indígenas. De acordo com o levantamento, 58% dos residentes no país se declaravam pardos ou pretos, contra 38% que se diziam brancos. Os estrangeiros somavam 3,8%, entre portugueses, alemães, africanos livres e franceses. Os indígenas perfaziam 4% do total dos habitantes. (ref: F.Cultura Palmares) Da abolição dos escravos ao começo da industrialização no Brasil, no governo de Getúlio Vargas, passam-se quase 40 anos de reprodução dessa população parda e preta (os pobres) sem nenhum tipo de política de inserção por parte dos Repúblicanos, dessa população abandonada à própria sorte. Portanto, durante muito tempo não existiu mercado para assimilar toda essa mão de obra desqualificada e analfabeta disponível e nem qualquer tipo de reforma agrária. Mais que o racismo, o problema sempre foi a pobreza, o total descaso na qualificação, na educação de base dessa massa, apesar, de nunca ter havido por parte dos governos qualquer política de dificultação ou impedimento de ingresso nas escolas. Já que a mão de obra gratuita tinha acabado, e que teríam que remunerar a mão de obra, por que não importar uma mais qualificada? É lógico que nessa decisão havia um componente discriminatório, mas querer atribuir só ao racismo as diferenças sociais e o analfabetismo entre brancos e negros é, no mínimo, ignorância histórica.
    Foi só com a subida ao poder dos socialistas, à algumas décadas, que se impôs uma nova narrativa histórica de que o racismo brasileiro, que existe, mas se dilui com o tempo, é tão ou pior que o racismo Americano ou Sul Africano.
    Até então, o Brasil era um exemplo de miscigenação da qual nós nos orgulhávamos muito, afinal, a miscigenação não poderia ser um plano racial maquiavélico de vingança; pelo contrário, era a nossa maneira particular de resolver nossas idiossincrasias sociais sem nenhuma intervenção governamental.
    Éramos considerados um país de mestiços, referência para o mundo até aparecer esse modismo “Mede in USA” para nós dividir, definir e disseminar o ódio racial deles, com pura finalidade ideológica.
    “Como no Brasil não existe ninguém verdadeiramente negro ou branco, o que se tenta é avaliar, no fundo, a sua ideologia, obrigando o mestiço a se definir, assumido a sua negritude.” (Demétrio Magnoli)
    Existe racismo no Brasil? Claro que existe, mas é particular, difuso e sem ódio. Portanto, não podemos definir genericamente o país todo como racista sem nunca ter havido conflitos raciais de rua, uma escola de pensamento racista, um partido racista – nem os nossos integralistas (nossos fascistas) eram racistas – não temos grupos de combate racistas, não temos gueto racistas, não temos biografias racistas, imprensa, livros racistas e muito menos perseguições ou passeatas. O que temos é muita gente pobre e insatisfeita com sua própria sorte. Então, criaram um fantoche racista imaginário para dividir a sociedade e obrigá-la a se definir racialmente, criar lideranças, ampliar bases eleitorais ideológicas com a justificativa de um combate a um racismo subjetivo, mas reivindicatório de uma dívida social pretérita inexistente.
    Costuma-se muito confundir o fato estatístico com a explicação causal. Se quisermos estabelecer uma discussão séria precisamos separar ambas.
    Se por um lado existe o fato estatísco inquestionável das diferenças sociais entre brancos e negros; por outro podemos ter duas explicações: A primeira (que é a que acredito) é que existe uma diferença residual decrescente com o tempo, que já acontece lentamente, mas que podemos acelerar com uma maior atenção ao ensino de base e fundamental, até, com possíveis “cotas”. Sociais! O segundo, que querem nos impor goela à baixo, é um racismo intencional e subjetivo que seria o responsável por tais diferenças, que na minha opinião é um absurdo, porque não existe nenhuma ideologia racista que possa se propagar sem ações concretas como: panfletos, filmes, livros discursos ou movimentos organizados; mas, os insatisfeitos, sempre irão existir. Como disse antes não existe nenhum indício de atividades racista concreta no país; e, ideologia não se propaga por magia. O que fazem é usar o fato estatísco embutindo, de forma sub-reptícia, todas as insatisfações, mais aquilo que querem que nós acreditemos. Enquanto não provarem de forma inequívoca o elo causal entre ideologia racista e o fato estatístico, para mim, o racismo brasileiro, que não tem ações de fato, é uma fraude. Mero resmungos (mimimi) de insatisfeitos querendo culpar sua indolência e falta de vontade na cor de sua pele.
    Tratar as pessoas pardas e pretas ou aqueles que se auto ititulam como negros, como pessoas incapazes de conseguirem o sucesso pelos seus próprios talentos e sem caridade é seguir num novo tipo de escravidão. Só que desta vez mental, que os encarcera nos fundões dos navios negreiros e das senzalas ideológicas da ignorância e dos maus valores; da violência real, verbal e de pensamento oportunista; que serve unicamente a manipulação; ao fracasso; ao totalitarismo e nunca a uma verdadeira afirmação de quem se sente discriminado pela cor da sua pele.

    Ref: Florestan Fernandes.

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    Rafael Portilho

    3 de dezembro de 2020 em 16:35

    Concordo em termos, contudo, para mim que cresceu e conviveu com pessoas de outras etnias, estudávamos juntos, brincávamos juntos, e jamais presenciei tal comportamento com relação a qualquer uma dessas pessoas. Éramos “iguais”, nas condições, oportunidades, desejos, sonhos … Então me pergunto, a pessoa que é “racista” também não trata qualquer outra pessoa de nível inferior com mesmo desdém ? Penso que há pessoas que são hipócritas, soberbas, arrogantes e prepotentes, e vão tratar todos abaixo delas, igualmente, nada tendo a ver a etnia, mas a sua classe social. Mas, há de tudo, então. devo concordar contigo, no que pese, eu estar alinhado com aqueles que pensam que todos somos humanos, e todos merecem o mesmo tratamento que eu quero para mim.

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