O dia em que ficamos mais céticos e cínicos

Incrivelmente, o mesmo tribunal que acolheu os testemunhos dos marqueteiros da campanha Dilma-Temer e dispendeu infindáveis horas interrogando os delatores da Odebrecht, hoje declinou utilizá-los como prova no processo de cassação da chapa. Esse foi o artifício encontrado pelos ministros que votaram para manter tudo como dantes.

O resultado, já esperado, preserva no poder o governo zumbi de Michel Temer, assombrado por infindáveis escândalos de corrupção, e mantém os direitos políticos de Dona Pinóquia, vergonhosamente mantidos em seu processo de impeachment, urdidos nas sombras do Senado Federal por Renan Calheiros e Ricardo Lewandosky. Com a decisão de hoje, Temer se manterá no poder até o final de 2018 e a musa da mandioca poderá se candidatar à uma vaga de deputada federal nas próximas eleições e assim reconquistar o benefício ímpar do foro privilegiado.

Muito se fala do amadurecimento das instituições brasileiras, das quais as supremas cortes são representantes muito relevantes. Elas seguidamente contradizem essa afirmação, fornecendo à sociedade constantes demonstrações de insegurança jurídica, através de decisões que passam por cima da jurisprudência e são definidas à luz das circunstâncias e conveniências dos seus ministros.

Cortes que levam anos para tomar uma decisão importante já são naturalmente injustas, pois a morosidade, por si só, é filha da injustiça. O caso da cassação da chapa Dilma-Temer é emblemático, pois mais um pouco e o mandato objeto do processo teria chegado ao fim.

O que assistimos nesses dias foi um espetáculo deprimente, onde o TSE, filhote do STF com o STJ, endossou a teoria proferida pela ex-presidente Dilma Roussef de que vale fazer o diabo para ganhar uma eleição. O ‘coisa ruim’ está solto pelas ruas do Brasil, carregando malas de dinheiro vivo a serem entregues aos nossos gananciosos políticos, ávidos pelo poder como forma de enriquecer ilicitamente. Vendem as almas aos seus corruptores para posteriormente retribuir com favores, obras superfaturadas, projetos de lei providenciais e outros mimos. Parasitas e hospedeiros convivendo harmonicamente em um sistema que acoberta seus crimes e um Judiciário que os absolve, quando descobertos e levados a julgamento.

Não menos lamentável perceber que os ‘grupos religiosos’ à esquerda silenciaram essa semana, depois de passar muito tempo gritando ‘Fora Temer’. Um silêncio constrangedor, justificado pelo fato de que a cassação do ex-vice significaria também a culpa de sua querida ex-presidente. No espectro oposto, a ala direita também se manteve vergonhosamente calada, sob o mantra de ‘ruim com ele, pior sem ele’, justificado pela suposta estabilidade que Temer traria ao sistema até o final do mandato. Ambos bebem da mesma fonte geradora de flexibilidade moral, aquela que absolve os chefões criminosos das principais facções dominantes do país (PT e PSDB) conforme a conveniência de seu viés ideológico.

Apesar do ‘silêncio dos inocentes’, a maioria irá dormir indignada. Afinal, vivemos em um lugar onde canalhas corrompem, políticos roubam e juízes absolvem por excesso de provas. O conjunto da obra, um Brasil permissivo, tolerante com a bandalheira e conformado com o que é insano, nos torna cada dia mais céticos e cínicos. Se é verdade que no longo prazo, podemos dizer que experimentamos uma lenta evolução, não menos verdadeira é a afirmação de que no curto prazo, a esperança segue moribunda e desenganada na UTI. Foi um dia muito triste para a história do Brasil.

1 Comment
0

1 comentário

  1. Avatar

    Alexandre Oliveira

    10 de junho de 2017 em 04:26

    Victor, você conseguiu traduzir tudo aquilo que está engasgado na garganta de todo Brasileiro de bem..
    Realmente é uma vergonha termos que vivenciar tudo isso, o país de onde o “crime compensa”.
    #vergonhaemaisvergonha

Deixe uma resposta

Send this to a friend