A soberania da ‘forma’ na ‘Era do superficial’

Hoje, as notícias correm o mundo em tempo real. Praticamente de forma instantânea, tomamos conhecimento do que está acontecendo em qualquer canto do planeta. Não há mais privacidade, palavra antiquada, vinculada ao século passado. Segredos são poucos, somente aqueles que conseguem permanecer inatingíveis pela alta tecnologia dos satélites, das microcâmeras, ´iphones´ e outros ´gadgets´. O acesso à informação é praticamente ilimitado. O conteúdo de milhões de bibliotecas é despejado diariamente na internet, sem filtros. Há de tudo, desde sabedoria, até lixo digital. Um espirro do imperador japonês, uma frase infeliz da primeira-ministra alemã, uma entrevista ´meia-boca´ do presidente do FED americano podem derrubar mercados, na mesma medida que percepções, inferências ou mesmo esperanças infundadas, podem fazê-los ir às alturas, em ambos os casos alterando a vida de centenas de milhões de pessoas. Em pouco menos de duas décadas, o mundo ficou louco, tornou-se um ´thriller de ação´. Vivemos na era do superficial, onde a ´forma´ está superando o ´conteúdo´.

Nesses tempos em que tudo passa rápido, notícias envelhecem em meia hora, tecnologias se tornam obsoletas em seis meses, amizades se estabelecem com um ´click´. Não há tempo para detalhes. Suponho que a quantidade de informação que uma criança de hoje receba em seus primeiros dez anos de vida seja muitas vezes maior do que há trinta anos. Quanto? Nunca li a respeito, mas a julgar pelo que me recordo da infância e pelo que vejo acontecer com meu filho, não há comparação. Dá para dizer que ele não vive no mesmo planeta em que eu nasci! Duvidoso o quanto dessa informação adicional é útil, mas irrefutável que os mundos são diferentes. Resta aos ´jurássicos´ indivíduos com mais de 25 anos se adaptarem a esse novo planeta.

Não tenho dúvidas de que daqui a trezentos anos, os livros de história destacarão os tempos atuais como os mais transformadores da humanidade, onde as mudanças seguem uma curva exponencial quando medem o impacto na rotina das pessoas. A tal era digital ou da informação deixará o Renascimento e a Revolução Industrial no chinelo. E por incrível que pareça, quase não paramos para pensar que somos protagonistas disso tudo. Nos falta tempo para refletir no assunto.

De todas as novas nuances desse novo mundo, a que mais me incomoda, e com a qual eu me debato permanentemente, é o conflito entre ´forma´ e ´conteúdo´, batalha na qual a primeira tem levado ampla vantagem, na maioria dos campos da vida. Isso extrapola o fato de que o ´parecer´ pode valer mais que o ´ser´. Se há excesso de informação e as pessoas são bombardeadas de todos os lados com novidades, notícias e mudanças, então não há tempo para se aprofundar nos detalhes. Tome-se a leitura de algum evento econômico relevante como exemplo. Haverá muita informação superficial e pouca análise aprofundada sobre o tema, com raríssimas exceções. Se os detalhes não importam, o ´conteúdo´ perde relevância para ´forma´. Esse exemplo pode ser estendido a assuntos completamente diversos, seguirá válido.

Em um mundo onde a ´forma´ é soberana, nos tornamos o maior produto de marketing de nós mesmos. Quem se rebelar contra essa ditadura pode experimentar enormes frustrações, pois na maioria das vezes é inócuo focar em algo que as pessoas ao seu redor não valorizam. Eu não subestimo a importância da ´forma´, e procuro, à medida do possível, adaptar-me às suas exigências. Sou um eterno devoto do ´conteúdo´, e sempre que possível tento subverter o sistema. Mas eu não nasci nesse planeta. Faço parte do grupo jurássico…e como sabemos, os dinossauros foram extintos…

4 Comments
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4 Comentários

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    Jose Tosi

    20 de setembro de 2012 em 10:39

    Concordo com sua leitura. Penso, porém, que sempre tivemos que viver esse dilema.
    A velocidade que a informação envelhece e perde sua importância tem mudado a nossa percepção sobre a discussão “forma vs conteúdo”. A superficialidade – na minha visão – vem da facilidade com que a miríade de informação disponível nos influencia e nos estimula a palpitarmos em assuntos que não tivemos a oportunidade de desenvolvermos o conteúdo adequado. E, por suposto, essa quantidade de palpites nos rouba um precioso tempo para nos dedicarmos a desenvolver um maior conteúdo.
    A conjunção do fator tempo com a disponibilidade da informação, nos oferece uma saída simplista que é a especialização para entendermos cada vez mais sobre uma ínfima parcela do conhecimento humano o que, por sua vez, nos traz um reconhecimento maior do público porque “somos o expert no assunto tal”.
    Tristemente, nos esquecemos que a expertise da vida, reclama que conheçamos mais o índivíduo que somos…..um tal Sócrates comentava isso há algum tempo atrás.

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    Luciano Otero

    14 de julho de 2013 em 12:09

    Uma das piores manifestações da ditadura da forma sobre o conteúdo ocorre nas corporações. Pessoas que se expressam de forma livre e sincera e, as vezes, dura, são constemente reprimidas pelos “psicólogos” de plantão (sabemos bem em que departamento se alojam…) que correm a dizer: você tem razão… mas não poderia ter dito de outra “forma”? Saco! Saco! Saco!

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    Valdir Campanini

    14 de julho de 2013 em 12:09

    Excelente texto, e essa superficialidade citada está criando um novo tipo de profissional que as empresas estão descobrindo como trabalhar, que são os “generalistas” que conseguem distinguir a interação de diversos processos em diversas áreas, criando a habilidade que está sendo rotulada atualmente de “soft skills” e assim ter uma visão holística dos fatos.

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    Stay Puft

    24 de julho de 2013 em 11:32

    o problema dos intelectuais (principalmente os da literatura), é que eles acreditam q a forma não é um conteúdo por si só, são uns analfabetos visuais…

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