A maldita luz vermelha

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Tornei-me usuário de ‘blackberry’ desde o seu lançamento e subsequente proliferação pelo mundo corporativo, lá pelo idos de 2004. Um usuário compulsivo. A maquininha escravizante me conquistou pela praticidade e velocidade com a qual podemos resolver problemas  longe da nossa mesa de trabalho. Com o tempo, adquiri uma admirável habilidade na digitação de seu minúsculo teclado, digna dos mais rápidos exemplares da ‘geração Y’. Uma relação de dependência e ódio.

Há dez anos, não havia ‘smartphones’ e as redes sociais ainda engatinhavam. As coisas do mundo já fluíam rapidamente, mas a uma velocidade infinitamente inferior à atual. Como imaginar um planeta onde você não está acessível 24 horas por dia? Ele existia, talvez poucos anos antes do surgimento da ‘blackberry’.

Artigo de luxo nos seus primeiros anos de vida, mesmo nas grandes corporações, foi rapidamente convertida em ‘commodity’ e ganhou rivais de peso com o advento dos smartphones, que a meu ver possuem uma clara desvantagem nos seus teclados altamente sujeitos a erros de digitação. A ‘blackberry’ cooptou executivos e posteriormente outros tipos de profissionais. Não tenho estatísticas sobre a quantidade de emails trocados no planeta após a invenção dessa maquineta, mas arriscaria dizer que eles cresceram exponencialmente.

luzvermelha2Por conta da sua disponibilidade em tempo integral, enviar um email tornou-se tão fácil que as pessoas passaram a exagerar na sua utilização. Apesar de ser um meio de comunicação menos eficaz que um telefonema ou uma reunião pessoal, é mais acessível e abrangente. Você não sabe se conseguirá encontrar seu interlocutor pelo telefone, e as  chances de fazê-lo ao vivo são ainda menores em um tempo curto. Se for necessário compartilhar uma mesma mensagem para várias pessoas, a tarefa é ainda mais difícil e um ‘email’ resolve a situação rapidamente, principalmente se o protagonista se encontrar fora do seu ambiente de trabalho.

Ou seja, a maquininha escravizante no fundo é muito útil. Há quem diga que ela é mais perigosa que as outras formas de comunicação, pois tudo que foi dito (ou melhor, escrito) fica arquivado com os destinatários. É a velha máxima alterada: ‘tudo que você escrever, poderá ser usado contra você’. Por outro lado, o ‘email’ também é um meio de formalização extremamente eficiente, e o que foi escrito também pode ser usado a seu favor. Quantas vezes nos deparamos com o ‘dito pelo não dito’ de reuniões recheadas de mal-entendidos ou afirmações ouvidas por dezenas de pessoas, rechaçadas posteriormente de acordo com as conveniência das circunstâncias? A blackberry é o meio mais rápido de propagação de ‘emails’, inigualáveis para tornar oficial sua opinião. Portanto, para quem age de acordo com seu próprio pensamento e não tem medo de assumí-lo, o ‘perigo’ é um benefício.

O risco está nos excessos. A sua ampla disponibilidade é nociva. Quem fala demais morre pela língua, pois cedo ou tarde acaba dizendo o que não deve. A mesma regra se aplica a quem escreve demais. Errar é inevitável. Como usuário obsessivo da maquininha e reconhecido como ‘gatilho mais rápido do oeste’, já enviei alguns emails que me proporcionaram aquela desagradável sensação de arrependimento e a triste constatação do ‘putz…já foi’. Felizmente, com o passar dos anos e a chegada dos 40, outono da vida, estou mais comedido e menos veloz nas respostas, o que diminui sensivelmente o risco de cometer uma lambança.

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Mesmo assim, não posso afirmar que a minha relação de dependência está resolvida. Apesar de ciente de que o mundo não acabará nas próximas duas horas e que poucas situações são tão emergenciais a ponto de demandarem uma resposta imediata, continuo atento à maldita luz vermelha que pisca intermitentemente para indicar que há novas ‘notícias’ em meu ‘Inbox’. E se por acaso acordo no meio da noite e percebo a maldita piscando, grandes são as chances de não resistir e verificar quais são as mensagens e, infelizmente, há uma probabilidade razoável de que eu responda algumas delas. Se é loucura enviar ’emails’ noturnos, muito mais insano é respondê-los de madrugada…

A incrível velocidade das informações no mundo atual acaba deixando as pessoas mais ansiosas e meu DNA que já carrega naturalmente algumas doses adicionais de ansiedade é um complicador. Nos últimos meses, até como parte de um plano de ‘desintoxicação’, reduzi sensivelmente a quantidade de ‘dados’ enviada aos finais de semana e tenho conseguido aposentar a maquininha em horários de almoço e algumas reuniões. Mas ainda me causa uma certa irritação perceber que após um mero par de horas em ‘descanso’, a caixa postal é abarrotada com mais de uma dezena de mensagens, as quais dou cabo em poucos minutos.

Já consegui avanços significativos em meus períodos de férias, sendo que nos mais recentes cheguei a abandonar a maquineta em um canto qualquer, sem acessá-la por dias. É o plano de desintoxicação funcionando. Por outro lado, após algumas semanas de ‘stress’ amplificado no trabalho, com exigência de dedicação em finais de semana e mensagens importantes ‘indo e vindo’ a todo momento, tive uma recaída. A desgraçada luz vermelha voltou a exercer uma maléfica atração magnética sobre mim, prejudicando a minha desejada ‘desintoxicação’.

luzvermelha4Sei que não estou sozinho. Muitos sofrem do mesmo mal, típico do terceiro milênio. Não faz muito tempo, quando ainda vivia em Londres, vivenciei uma cena marcante, que exemplifica bem essa nova ‘era’. Intervalo de uma conferência qualquer, havia nove pessoas dentro da sala, eu entre elas. Todos nós estávamos de pé, olhando fixamente para a maquineta e digitando mensagens, calados. Ocupávamos a sala, estávamos próximos fisicamente um do outro, mas completamente isolados, cada um em seu mundo. Naquele momento, é até possível que duas pessoas estivessem se copiando nas mensagens trocadas. Muito louco.

Mas já houve mundo sem blackberries, sem smartphones, celulares, e até sem fax, que em breve será peça de museu. A vida era viável sem esses ‘gadgets’. Até pouco tempo, o planeta Terra funcionava perfeitamente sem redes sociais, e as pessoas não compartilhavam o prato principal do almoço com todos os seus conhecidos. Não se trata de uma crítica aos tempos modernos, tampouco nostalgia inútil sobre um passado supostamente mais saudável. A evolução humana implica em transformações dessa natureza, que indiretamente impactam também a maneira pela qual as pessoas se relacionam. Charles Darwin sabiamente afirmou que as espécies que prevalecem não são necessariamente as mais fortes, mas aquelas com maior capacidade de adaptação às mudanças.

Isso não implica que devemos nos tornar escravos das ferramentas tecnológicas contemporâneas. Meu plano de desintoxicação segue firme, apesar da recente recaída. Chegará uma hora em que me defrontarei com a maldita luz vermelha piscando e irei ignorá-la solenemente. Nesse momento, estarei alforriado.

No dia em que me formei em engenharia, apliquei uma surra de dar pena em meu livro de Cálculo I (‘L. Leithold). Quem sabe não seria uma boa ideia repetir a prática com a minha blackberry: surrá-la, pisoteá-la, atirá-la contra a parede. Caso eu não consiga minha ‘liberdade’ tão cedo, esse passa a ser um cenário possível, talvez provável…

2 Comments
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2 Comentários

  1. Avatar

    sonia pedrosa

    30 de março de 2013 em 09:38

    é um vício quase impossível de dar fim. precisa-se de muita força de vontade! Por isso, o meu celular é mais simples de todos, só serve, mesmo, pra falar e olhe lá. Só assim estou permaneço fora desse vício…
    beijo!

  2. Avatar

    Flavio

    11 de janeiro de 2014 em 07:12

    Como qq vicio tudo tem seu pro e contra… Nao eh um mal desde que controlavel em seus momentos criticos… Para mim o problema de qq vico eh o excesso constante… mas a mencao final e honrosa ao querido Leithold foi absolutamente sensacional!! O meu esta aqui novinho em folha na estante, agora ja sei que fim dar a ele… otima ideia para aqueles momentos que hao por vir na vida!!

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