A extinção do Corinthians


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Estamos em 1° de Março de 2014. Faz um ano que o Corinthians foi extinto. O Brasil, e principalmente São Paulo nunca mais foram os mesmos. No aniversário dessa data tão inusitada, milhares de torcedores do ex-time, aqueles que ainda não aderiram a outras equipes, planejam um abraço conjunto ao redor da Arena Tricolor, estádio que originalmente era para ser do Timão, mas que foi adquirido pelo São Paulo no espólio do que sobrou do outrora gigante alvinegro. A Polícia Militar não espera uma manifestação violenta. ´A cidade já sofreu muito com isso, logo após o anúncio da notícia, mas agora a situação está normalizada e as pessoas se conformam com a perda´, disse um tranquilo Coronel da PM paulista. ´No final das contas, a extinção do Corinthians trouxe mais paz a todos. Eu mesmo, era corinthiano, e estou plenamente adaptado à Lusa, meu novo time´, completou.

curinthia2Foi tudo muito rápido, quase surreal. Depois da trágica noite quando um sinalizador vindo da torcida do Corinthians matou um adolescente no jogo contra o San Jose, na Bolívia, a comoção generalizada obrigou a Conmebol a sair do seu estado natural de letargia em relação às confusões do futebol sul-americano. Na época, o Corinthians foi obrigado a jogar com os portões fechados e proibido de levar torcida como visitante pelos 60 dias seguintes, até que a decisão definitiva fosse tomada. Uma punição considerada duríssima pelos dirigentes alvinegros, que em vão tentaram anulá-la. Revoltados, eles desobedeceram a Confederação e abriram os portões do Pacaembu no jogo seguinte, contra o Milionários. Com um ambiente tenso no ar e ressabiada com a possível represália, a equipe corinthiana foi facilmente batida pelos colombianos  (0x2) e um tumulto generalizado tomou conta dos arredores do estádio após o jogo, com brigas entre torcidas resultando em vários feridos, janelas quebradas, carros e ônibus depredados e muito trabalho nos plantões dos hospitais e delegacias da região.

A repercussão dos eventos em sequência foi péssima. A imprensa internacional cobrou medidas incisivas da FIFA, e várias reportagens veiculadas em diários de toda Europa passaram a tratar o Corinthians como um time de torcida agressiva, geralmente causadora de confusões; até o caso do carnaval de 2011 foi lembrado. ´Precisamos contê-los!´, dizia o Britânico ´The Times´, talvez nutrindo uma dor-de-cotovelo pela derrota do Chelsea no Mundial de Clubes. Ao redor do mundo, foram coletadas mais de 50 milhões de assinaturas solicitando que o Corinthians fosse excluído de qualquer competição internacional. E demonstrando um inédito ímpeto moralizador, a FIFA enviou um notificado ao Corinthians e à CBF no dia 1° de Março de 2013, determinando a exclusão do Timão de qualquer campeonato de futebol pelos 40 anos seguintes. Parecia piada, mas não era. A CBF foi colocada contra a parede, a partir de ameaças sutis de que o arrefecimento da pena localmente poderia implicar na mudança da sede da Copa para Inglaterra, que já estava com toda infraestrutura preparada. O presidente da CBF nem fez muita questão de defender o time paulista e endossou a decisão. Para o espanto de todos, naquela fatídica sexta-feira, o Corinthians era extinto por decreto!

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No início, todos ficaram boquiabertos com a decisão, julgando se tratar de algum mal-entendido. A situação foi realmente levada a sério quando não houve o terceiro jogo da Libertadores e os patrocinadores se viram obrigados a romper seus contratos com o Corinthians. O clube em si não estava extinto, apenas o seu departamento de futebol. Passados 10 dias e com o time também fora do Campeonato Paulista, um exército de advogados, liderados pelo criminalista Marcio Thomaz Bastos, tentou demover a FIFA de sua atitude inédita. A ficha começou a cair três semanas após a decisão, quando os juristas praticamente jogaram a toalha.  ‘Não há nada que obrigue as Confederações de Futebol a aceitar o Corinthians como participante em seus campeonatos’. O final do mês de Março foi marcado por inúmeras passeatas de torcedores do extinto alvinegro, clamando por uma reversão da decisão. A cidade parou no dia 31, quando aproximadamente 1 milhão de corinthianos saíram do Itaquerão até a Avenida Paulista, todos de preto e em silêncio, sob forma de protestar contra a brutal arbitrariedade da FIFA. Vez por outra, as passeatas terminavam em confusão, com brigas e quebradeiras. ‘Os nervos dos torcedores estão à flor da pele’, diziam os comerciantes. ‘Qualquer palavra mal compreendida é motivo para se começar a desordem’. Esses eventos apenas davam mais força à argumentação da mídia internacional, que elegeu o Corinthians como bode expiatório de uma campanha para o fim da violência no futebol.

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A imprensa paulista esteve obviamente sempre ao lado do Timão, defendendo-o no limite de suas forças e buscando incessantemente influenciar a postura da FIFA, sem êxito. Profissionais na época questionavam sobre o destino dos 30 milhões de loucos. ‘Se o Corinthians não existe mais, eles vão torcer para quem?’. Os rivais da capital paulista perceberam nesse vácuo uma oportunidade para encorporar as suas próprias torcidas. O São Paulo adquiriu os direitos de utilização do Itaquerão por 40 anos. ‘Em uma pesquisa recente com os nossos torcedores, percebemos que eles valorizam mais o Morumbi para shows de música do que para futebol, que anda meio decadente e desprestigiado. Por isso, pretendemos usar a Arena Tricolor (novo nome do Itaquerão) para o futebol e deixar o Morumbi para eventos artísticos. Assim podemos aproveitá-lo melhor! Justin Bieber, Lady Gaga e Madonna já estão confirmados para o mês que vem’, afirmou um entusiasmado cartola são-paulino. O plano deu parcialmente certo, pois a torcida do São Paulo considerou o antigo Itaquerão muito longe. E como o tricolor foi eliminado precocemente de todas as competições em 2013, não houve uma ocasião onde uma partida despertasse grande interesse. Além disso, nas cercanias do estádio há sempre o risco de ataque dos ‘Corinthianos zumbis’, grupos de torcedores que passaram a sofrer de uma nova patologia social, vagando pelas ruas, sem rumo, com uma camisa do Corinthians, gritando de vez em quando ‘Acabaram com meu Curinthia!!! Acabaram com o meu Curinthia!!!!’. Segundo psiquiatras ouvidos por essa reportagem, trata-se de uma anomalia psicológica associada à dor do luto. ‘Para os torcedores mais fanáticos, o impacto da extinção do Corinthians foi como a perda de um parente próximo. Pode levar até dois anos para eles se recuperarem’.

Com base nessas avaliações, o São Paulo ainda acredita que a Arena Tricolor irá vingar. ‘Desde que o time ajude em campo’, disse um torcedor ex-corinthiano que migrou para o São Paulo. Mas uma parte da torcida preferia que o time do Morumbi tivesse feito um lance pela arena do Palmeiras, que ao cair para a terceira divisão ficou em situação financeira muito complicada. ‘Para que ter um estádio daquele, se vão jogar a Terceirona? Devíamos ter comprado o estádio deles, bem central, e não o Itaquerão, lá onde o Judas perdeu as botas!’.

Com o passar dos meses, a maioria do bando de loucos se conformou. Mas a extinção do clube teve o seu efeito colateral mais intenso na saúde pública. O estado não deu conta para atender os milhares de novos pacientes que eram levados à internação em hospitais psiquiátricos, com diagnósticos que variavam entre uma depressão profunda, somente amenizada quando expostos a vídeos do Corinthians, e uma bipolaridade radical, marcada por uma euforia nostálgica, quando a pessoa relembrava os momentos marcantes dos títulos recentes. O governo de São Paulo se auto-impôs uma força-tarefa e em 4 meses foram disponibilizados mais de 20 novos hospitais psiquiátricos. Estados em que a torcida do Corinthians era numerosa, notadamente no Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, enfrentaram situação semelhante, em menor escala. O governo Federal também ajudou e ao todos foram abertas no Brasil mais de 100 casas para tratamentos dos ‘corinthianos saudosos’, nome que foi dado a quem sofria desse mal.  ‘Normalmente, o paciente entra em estado grave, bastante agressivo, muitas vezes chorando sem parar ‘, disse um médico responsável por uma dessas clínicas. ‘O tratamento de choque é simples. Além dos remédios normalmente utilizados para essas doenças, temos uma coleção com dezenas de vídeos do Corinthians em seus momentos mais gloriosos, e fazemos sessões de cinema com todos os pacientes reunidos. Após alguns dias, eles passam a ter condições de se readaptar à vida normal. A cena do gol perdido do Diego Souza, no jogo contra o Vasco e as defesas do Cássio contra o Chelsea estão entre os momentos mais celebrados. Entre os mais velhos, o gol do Basílio, contra a Ponte Preta, faz milagres’. Nunca foi tão verdadeiro o carinhoso apelido ‘bando de loucos’. Estima-se que nos nove meses posteriores à sua extinção, mas de 500 mil corinthianos se submeteram a algum tipo de tratamento psiquiátrico.

Mas havia também um grupo de torcedores menos fiéis, mais pragmáticos. Esses encaram o futebol como entretenimento e tão logo constataram que a decisão da FIFA era irrevogável, viraram a casaca. ‘Não me considero um vira-casaca, por que o Corinthians não existe mais. Assim, minha conversão para o Palmeiras não foi uma traição’, afirmou um ex-corinthiano, hoje integrante da TUP.’Tenho amigos palmeirenses e fui muito bem recebido aqui. Além disso, nos últimos anos o Palestra assumiu um pouco do DNA corinthiano, com uma sucessão de sofrimento, rebaixamentos, dor. Essa coisa meio masoquista que a gente tem. O Palmeiras está desse jeito agora e é por isso que eu acho que tanto corinthiano se converteu! E agora que estamos na Terceira Divisão, o acesso à Primeirona será muito mais bonito. Precisa ver como a torcida do Palestra está cantando mais, com o apoio dos ex-corinthianos!’.

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De fato, o Palmeiras ganhou muitos torcedores, mas a Lusa foi a maior beneficiada. As promoções instaladas em várias padocas da cidade: ‘Traga sua camisa do Corinthians e ganhe uma da Lusa e um sanduíche X-tudo’ fizeram um tremendo sucesso. ‘Hoje, a Portuguesa é a maior torcida da zona leste’, gaba-se o presidente luso, ‘Com esse novo contingente de torcedores, teremos condição financeira de reformar o Canindé, hoje um grande muquifo, e nos converter em definitivo em um time grande! Até a nossa torcida organizada, em homenagem ao Corinthians, mudou de nome e passou a se chamar ‘Leões da Fiel’.

O São Paulo, que esperava arrebatar um bom contingente de corinthianos para rivalizar com o Flamengo em tamanho de torcida, não se deu muito bem. Os alvinegros em geral consideraram desleal a rapidez com que o time do Morumbi fez a proposta para o Itaquerão. ‘Mal a notícia da extinção saiu, o Juvenal já fez um lance pelo Itaquerão. Ele sempre teve inveja do nosso estádio’, disse um corinthiano que preferiu não torcer mais para time de futebol. Esse faz parte do grupo que foi denominado ‘corinthianos fiéis’. Seguiram juntos com o time e apoiaram o clube na montagem de uma equipe de basquete, que obteve o terceiro lugar na NBB em 2013. ‘Futebol, só com a seleção e olhe lá. Agora, acompanho o meu Corinthians no basquete!’, disse um desses fiéis. ‘E daqui a 40 anos, quando voltarmos à cena futebolística, convencerei meus netos todos a serem Curinthia!’.

‘Interessante que os torcedores de maior periculosidade, aqueles com ficha policial, não escolheram nem Palmeiras, nem São Paulo, nem Santos. Todos se converteram flameguistas e criaram essa torcida, a FLAPaulista, que tem gerado enormes aborrecimentos na cidade’, conta um delegado de polícia, ele mesmo um ex-corinthiano que se tornou santista.

Ao avaliar a situação da cidade após um ano da extinção de uma de suas marcas registradas, um renomado jornalista esportivo avalia que o futebol paulista ficou mais fraco e pacífico. ‘Hoje a cidade só tem o São Paulo na primeira divisão, mas parece que seus dirigentes estão mais dedicados às artes que ao futebol. O time não conquistou muitos ex-corinthianos e a dupla Pato-Ganso deu em água. O treinador Rogerio Ceni terá muito trabalho para colocar a equipe nos eixos e já está com seu cargo ameaçado. A Lusa deve ter conquistado uns 30% da torcida do Corinthians, é um time de massa, mas ainda em construção. Se conseguir acesso à primeira divisão, pode se tornar grande. E o Palmeiras, que deve ter absorvido pelo menos 15% da torcida alvinegra, patina na terceira divisão. Agora São Paulo é a cidade do basquete, com o Corinthians lotando o ginásio do Ibirapuera todos os finais de semana’.

‘Eu sempre fui um corinthiano fanático, achei uma injustiça a extinção do time, mas vou fazer o quê? Futebol é só um jogo, diversão. Os jogadores do Timão se espalharam pelo mundo, ninguém está chorando…não serei eu que vou ficar chorando’, disse um ex-corinthiano que se converteu vascaíno. ‘Aquele gol perdido do Diego Souza foi uma das maiores alegrias da minha vida . Devo isso ao Vasco’.

Vida que segue. Um ano após a sua extinção, o Corinthians deixou saudade, mas não impediu que seus ex-torcedores encontrassem a alegria, celebrada entusiasticamente com o título da Série B do Paulista pela turbinada Lusa e pelo Paulistinha conquistado pelo Palmeiras, que apenas alguns meses depois caiu para a Terceira Divisão do Brasileiro. Hoje, alguns analistas até acham que a decisão implacável da FIFA contribuiu para a drástica redução da violência nos estádios de futebol. Depois da morte do menino boliviano, não houve mais um registro sequer do gênero ao redor do mundo e a incidência de brigas foi reduzida em 80%. ‘Se serviu para acabar com a violência, valeu’, enfatizou Tite, hoje dirigindo o Real Madrid.

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Esse texto é obviamente uma brincadeira, para lembrar que futebol é entretenimento, diversão, que em mentes sanas não incita qualquer tipo de violência. Infelizmente, tornou-se refúgio e válvula de escape para muitos marginais e pessoas desequilibradas emocionalmente, que o utilizam para dar vazão à sua agressividade e revolta com o mundo. Enquanto essa turma não for devidamente ‘fichada’ e proibida de comparecer às partidas, de tempos em tempos assistiremos a tragédias como a que aconteceu na Bolívia. Elas não são exatamente uma novidade. Por isso, apesar de achar que não há como igualar a emoção de um jogo ao vivo – no estádio, cada vez mais me convenço de que o melhor lugar para assistí-lo é em um sofá diante da TV…

 

2 Comments
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2 Comentários

  1. Avatar

    thothin vicent

    15 de agosto de 2013 em 14:12

    Suas previsões estão certas, parcialmente, errou só o time pois quem esta na zona do rebaixamento é os “BAMBIS” óbvio que é uma brincadeira o “BAMBIS”… o são paulo futebol clube, é quem esta rumo a segunda divisão, justamente um dos time citado “Portuguesinha” aplicou uma goleada nos “BAMBIS” óbvio que “BAMBIS” é uma brincadeira, se existe um clube que faça o futebol paulista sentir vergonha é justamente o clube S. P.F. C…são paulo futebol clube ou o popular “BAMBI” óbvio é uma brincadeira, que para ter seu estádio Morumbi com sua própria torcida lotando o mesmo, tem algumas receitas, são elas: Trocar ingressos por cestas básicas(engraçado d+) ou vender ingressos mais barato que uma dúzia de bananas(muito + engraçado ainda) o time citado como (Extinto) o S. C. C. P ou simplesmente Corinthians,até a presente data disputou 3 campeonatos dos quais, em um foi eliminado na semi-finais, (Libertadores), em outro foi campeão(Paulista) e mais uma vez contrariando as previsões,foi campeão da Recopa em cima do São Paulo Futebol Clube, que coisa não? Disputamos 3 titulos ganhamos 2, esta bom para um time em extinção ou não…?Claro que entendo o desabafo de quem recentemente perdeu um titulo para nós…mas acho que se ao invés de dar ibope ao nosso clube
    Corinthians,porque querendo ou não nos ajuda, vocês são paulinos deviam gastar caracteres para cobrar de seus dirigentes incompetentes para que seu clube saia dessa vergonha que se tornaram, titulos em 2013 (taça euzebio kkkk) e perderam uma tal de copa suruba no japão, perder para um time japones? kkkk e querem desmerecer Paulista? se era para se engraçado esse post você conseguiu ,só que a piada foi o post e o S. P. F. C …..espero que deixe esse único comentário e lembre-se…isso foi só uma brincadeira 😉

    1. Avatar

      Victor

      15 de agosto de 2013 em 14:58

      Vincent,
      Seus comentários sobre o São paulo estão corretos, eles merecem jm texto também! Lembre-se que esse texto foi uma grande brincadeira. Em tempo, não sou são-paulino! Abs

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