Reflexões ‘covidianas’ VIII: A saga de um jovem adulto em sua batalha contra a COVID, e o que podemos aprender com ela

” Victor H M Loyola, tudo bem? Gostaria de compartilhar um relato pessoal sobre o COVID 19, e espero que as pessoas leiam e entendam um pouco mais os riscos da doença. Eu tenho 30 anos, e quase morri de COVID. Não tenho nenhuma doença pré-existente ou comorbidade e levo uma vida saudável.

Há algumas semanas comecei com sintomas leves, febre (~38®), vontade de não fazer nada e principalmente com uma sudorese noturna assustadora. Procurei um hospital, que de imediato realizou o exame de PCR e alguns exames de sangue. Os exames de sangue, que ficaram prontos na hora, apontaram uma infecção leve no corpo, o que levou ao médico concluir que existiam grandes chances de eu estar com COVID, porém a princípio com um quadro ameno, e então fui liberado pra casa, com a recomendação do isolamento. Dois dias depois obtive o resultado do PCR (sim, é uma vergonha um exame de tamanha importância demorar 2 dias para ficar pronto), que surpreendentemente deu negativo. Foi aquela sensação de alívio mas ao mesmo tempo de estranheza visto que os sintomas não cediam.

Como a médica tinha me avisado para voltar ao hospital caso os sintomas persistissem por mais 4 dias, foi o que eu fiz. Fui novamente atendido com a mesma suspeita de COVID, porém dessa vez cheguei com uma oxigenação abaixo do considerado “normal”. Dessa forma, o sinal de alerta foi aceso e na hora já fizeram uma tomografia. Eu estava na sala de espera do PS aguardando os resultados, imaginando que fosse voltar pra casa logo depois, porém para a minha surpresa a médica apareceu com uma cadeira de rodas e alguns enfermeiros, me avisando que os meus pulmões estavam 30% acometidos e eu precisava ser internado naquele mesmo momento. Que sensação horrível, receber essa notícia sozinho, sem nenhum familiar pra te acalmar; a enxurrada de pensamentos começa a inundar a sua cabeça: Como isso aconteceu em apenas 4 dias? O que isso significava? Eu que sempre pesquisei e acompanhei muito a doença desde o começo, e acreditava que era improvável acontecer algo grave com alguém que tivesse as minhas condições, fiquei com medo, muito medo, e o pior de tudo, lembrando de todas as notícias catastróficas sobre mortes que somos obrigados a conviver diariamente há mais de 100 dias e pensando que poderia acontecer o mesmo comigo.

Fui pra UTI, onde de imediato já fui tratado com os remédios que já viraram meio que protocolo mundial (Azitromicina, corticóide, etc….), sem cloroquina (nunca fui questionado se queria tomar). Meu corpo reagiu super bem e em 2 dias saí da UTI e fui para o quarto. Me explicaram que meu quadro era estável e estava indo super bem mas que como muitos dos meus exames estavam alterados (devido ao vírus), eu teria que ficar mais alguns dias internado até que tudo se estabilizasse.

Eis que uma manhã acordei com uma dor imensurável no meio das minhas costas, acredito que a pior dor que eu tenha sentido até hoje. Não conseguia me mexer, não conseguia respirar sem dor, não tinha posição para ficar. Os médicos já suspeitaram o que poderia estar acontecendo, e me levaram para fazer uma nova tomografia. Quando voltei para o quarto, já estavam me esperando com uma maca e me deram a notícia: eu tinha tido duas embolias pulmonares. Dessa vez o corpo gelou dos dedos dos pés à cabeça. Fiquei sem qualquer reação. Eu que não sou médico sabia da gravidade de uma embolia pulmonar, imagina de duas. Me levaram para UTI no mesmo momento, e mais uma vez, lá estava eu, recebendo uma notícia de risco de vida, sozinho, sem meu pai ou minha mãe pra segurar minha mão e falar que tudo ia ficar bem. Nossa, como eu chorava no caminho da UTI. Quando cheguei, precisaram até me dar um calmante.

Quando finalmente me aquietei, e já estava com todas as medicações e precauções de tal quadro em andamento, o médico veio conversar comigo e explicar um pouco melhor o meu quadro. O fato, que muitas pessoas não sabem, é que uma das reações do COVID no corpo é a coagulação do sangue, e coágulos podem matar (infarto, AVC, embolia pulmonar etc…). Uma gripe não provoca isso, e não existe idade que mude o risco de ter ou não uma trombose. É loteria, assim como tudo relacionado a essa doença. Graças a Deus os meus coágulos não aconteceram em locais que poderiam ter provocado algum dano irreversível de imediato, porém, as primeiras 72 horas eram determinantes.

Não só eu não poderia ter outro coágulo como não poderia correr o risco dos dois coágulos se mexerem e irem para algum local que pudesse ser vital. Repouso absoluto. Não podia me levantar da cama para absolutamente nada (nem banheiro). Foram 72 horas que demoraram 2 meses para passar. Eu ia dormir, e quando alguma enfermeira me acordava para checar meus sinais vitais, ou fazer algum exame, eu abria o olho e suspirava de alívio em perceber que estava vivo.

Tudo muito difícil, a família aqui fora sofrendo com você e o contato só pelo celular. Meus pais mexiam de minuto em minuto no Whatsapp principalmente à noite, para checarem qual tinha sido a última vez que eu tinha mexido no celular e confirmarem que eu estava ali.

Os intermináveis dias se passaram. Foram 7 dias de UTI. Dias difíceis, onde a oscilação de humor era impressionante. Eu acordava animado porém qualquer dor que sentia, já provocava um desespero achando que algo pudesse estar acontecendo. Cada exame diário (incontáveis) era um frio na barriga com medo de aparecer algo novo. Muitos estudos dizem que o psicológico tem um papel determinante na cura de alguma doença, e eu procurava me ater a isso. Porém, muitas vezes me deparava pensando mais uma vez nas inúmeras reportagens catastróficas dos jornais que só falam de morte. Os responsáveis por essas notícias deveriam ter a noção do mal que eles fazem e do quanto eles prejudicam a recuperação dos pacientes.

Ontem, após 15 dias de hospital no total (ainda fiquei mais alguns dias para controle depois que saí da UTI), recebi a notícia mais sonhada dos últimos tempos, que eu estava de alta. Arrepiante e emocionante, tinha vontade de gritar, de chorar, de pular. Poder rever minha família foi talvez a melhor sensação que eu tive até hoje. Claro que ainda estou bastante debilitado, fraco, psicologicamente abalado e dependo de exames periódicos pois meu quadro ainda demanda cuidados mesmo em casa, mas poder dormir na sua própria cama, sem aquele sentimento de alerta ou sem alguém te acordando de 2 em 2 horas para alguma checagem, não tem preço.

Me considero um vencedor, e sei que a vida me deu uma segunda chance, e por isso sou eternamente grato e aproveitarei ela ao máximo. Meus únicos conselhos para todos são: a vida não pode parar, não precisamos ficar trancados dentro de casa enquanto não houver uma vacina, porém tenham bom senso. Usem máscara, evitem aglomerações, e o mais importante de tudo, se tiverem qualquer sintoma, procurem ajuda médica de imediato. Um dia a mais de espera pode ser crucial. O COVID é uma doença solitária, silenciosa e maldosa. Eu não desejo nem para o meu pior inimigo tudo que eu passei.

O mantra que eu e meu pai usávamos diariamente enquanto eu estava no hospital, antes de dormir era: Um dia a menos para eu ir embora daqui.”

Tiago Palauro da Cunha

Em meio às centenas de comentários na TL, o Tiago me enviou um esclarecimento adicional:

“Victor, estava lendo os comentários e acho que vale a pena destacar duas informações. Assim que cheguei na UTI a primeira vez, além de todo o coquetel de remédios que comentei no relato para tratamento da infecção, foram dadas também doses profiláticas de anti coagulante, que infelizmente não foram suficientes para evitar as embolias. Eu questionei o médico antes de ir embora se a dose não deveria ser maior, e a resposta dele é que é uma linha tênue, o anti coagulante tem efeitos colaterais e se tivesse um AVC hemorrágico por exemplo, poderia morrer na hora por hemorragia.

Algumas pessoas questionaram se eu realmente tive COVID, visto que meu PCR Deu negativo. Depois de alguns dias no hospital, foi feita a sorologia, que confirmou a presença (massiva) dos anticorpos IGG e IGM e que, portanto, confirmava o Covid.”

***********************FIM DO RELATO PESSOAL************************

O Tiago ofereceu seu testemunho voluntariamente em minha TL do Facebook e por se tratar de uma mensagem de utilidade pública, deve ser compartilhada sempre que possível. Seu relato, um dos mais emocionantes e realistas que já li, nos transporta ao hospital e transmite as sensações de impotência e medo vividas naqueles dias, assim como a alegria e o alívio pelo desfecho feliz.

Notem que estamos diante de um caso atípico, afinal, o paciente é um jovem saudável de 30 anos, muito longe de qualquer grupo de risco. Mas essa é uma particularidade desse vírus maldito, para uma parcela ínfima da população, sabe-se lá o porquê, ele ataca sem misericórdia, podendo levar o mais imbatível dos homens à morte.

Alguns fatos me chamaram a atenção nessa história, um deles foi a imprecisão dos testes. O primeiro, cujo resultado saiu na hora, deu negativo. Caso naquele momento fosse detectado o vírus, sua progressão seria contida. O PCR, dois dias depois, também acusou negativo. Enquanto o maldito vírus se escondia, o quadro do Tiago se agravava, sem que ele soubesse. Mais dois dias e o comprometimento dos pulmões já atingia 30%, e não havia dúvidas de que se tratava do covid. Tarde demais.

Abrem-se parênteses nesse momento para a discussão do tratamento precoce. Houve muita manifestação na TL de que esse seria a chave para que a doença não se alastrasse. O contra argumento, nesse caso, é de que o paciente era um jovem saudável de 30 anos, com testes negativos e febre. Poderia ser muita coisa, e não havia evidências de que fosse covid. A primeira recomendação de voltar para casa e repousar definitivamente não conteve o desenvolvimento da doença. Haveria alternativa melhor? Não sou médico, portanto não tenho credenciais para opinar. Leio teses favoráveis e detratoras sobre a hidroxicloroquina, que chegam de todo tipo de fonte, mas imagino que algo mais possa ser feito nesses casos além de repouso. Talvez esse algo mais tivesse evitado a saga pela qual o Tiago passou.

Ela ocorreu em um hospital privado, com mais recursos. Eventualmente um caso similar em uma instituição menos preparada poderia ter um desfecho mais triste. Notem que a trajetória silenciosa e traiçoeira da doença é implacável. Primeiro, o maldito se escondeu dos testes, depois, deu sinais de arrefecimento, para na sequência causar duas embolias pulmonares.

Embora não represente a normalidade dos que contraíram o vírus, o relato acima é suficientemente assustador para que tenhamos os devidos cuidados no dia a dia. Isso não implica, na minha opinião, na neurose do ‘fique em casa a qualquer custo’, já que a vida continua e muitas vezes não nos concede esse privilégio do confinamento no lar. Mas evitar aglomerações, praticar o distanciamento social, usar máscara sempre que necessário e ser absolutamente rigoroso nos cuidados com a higiene são práticas relativamente simples de serem adotadas. Pelo que tenho lido, a carga viral a que somos submetidos tem relação com as consequências da doença. Logo, a proteção também nos ajuda na hipótese de sermos contaminados, pois pode contribuir para uma menor quantidade do vírus e proporcionar sintomas mais brandos.

Eu sou um sujeito saudável, a uma razoável distância do grupo de risco, provavelmente não peguei esse maldito, a menos que seja um assintomático. Tomo meus cuidados, fiquei muito tempo confinado, quase sem sair. Ainda estou no ‘home office’, mas agora por conveniência e não por necessidade. Já retomei contatos sociais com a devida cautela e devo confessar, tenho medo desse ‘bicho’. Vai que tenho o azar do Tiago? A probabilidade é baixa, mas não é um traço estatístico. E se eu tivesse a infelicidade de passar por isso, não dispensaria um único remédio, podem ter certeza…

A pandemia não trouxe o apocalipse que muitos previram, mas causou estragos extraordinários ao sistema de saúde e à economia, levou milhares de vidas embora e tem causado enormes problemas emocionais em milhões. Estamos sobrevivendo e haverá sempre um novo amanhecer após a tormenta, não há mal que dure para sempre.

Tomo o relato do Tiago como exemplo de vitória contra a covid, que ocorreu no âmbito individual, na luta solitária que ele travou contra a doença na UTI, isolado, acompanhado apenas dos profissionais de saúde, esses heróis anônimos que se expõem todos os dias para salvar vidas. É possível extrapolá-la para o âmbito coletivo. Assim como o Tiago superou esse maldito vírus, nós também iremos fazê-lo.

Não será fácil. O Tiago ainda se ressente das sequelas, está em observação por alguns meses, mas nunca teve tantas ‘ganas’ de viver. Passará o mesmo conosco coletivamente. Estamos apanhando, vamos apanhar mais, mas tudo isso passará e teremos uma vontade enorme de recuperar o que foi perdido. E essa vontade removerá montanhas, apesar dos imensos obstáculos que as nossas autoridades normalmente nos impõem com seu comportamento ora errático, ora incompetente.

O Tiago venceu essa batalha, e nós também o faremos. Um dia a menos para o final da crise. Amém.

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    sonia pedrosa

    2 de agosto de 2020 em 19:40

    Que relato…! Meu Deus, é aterrorizante! Não consigo imaginar o que ele sentiu quando chegou ao hospital e já teve que ficar, sem ninguém com ele. Que Deus nos proteja!

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