Reflexões covidianas V – O novo mundo corporativo

Após 90 dias de confinamento, empresas de todos os portes aprenderam que conseguem manter suas operações funcionando sem que haja gente em suas dependências. Uma descoberta e tanto para quem mantinha o ‘home office’ restrito a poucas funções, normalmente em áreas técnicas que não demandavam muitas nterações com outras pessoas.

O Corona vírus forçou essa mudança e as empresas que ainda não haviam se digitalizado tiveram que correr atrás do prejuízo às pressas. Ao final desse ciclo, o ‘digital’ não será mais um diferencial, e sim uma obrigação. Nesse sentido, quem se julgava na dianteira dos rivais por processos mais ‘modernos’ tende a perder vantagem. O contexto deve ter forçado mesmo os mais lentos a se readequarem.

A dinâmica das relações de trabalho também mudou. Gerentes e supervisores já não estão fisicamente próximos de ninguém de sua equipe e dependem que a autonomia e responsabilidade do time prevaleçam sobre o receio do distanciamento. Imagine esse processo ocorrendo em uma empresa com milhares de funcionários. Não há dúvidas de que a relação de confiança entre supervisores e subordinados será ampliada, passa a ser uma necessidade.

Quem não convive bem em um ambiente de autonomía está sofrendo nesse momento. E terá que se readaptar, pois a nova realidade demandará essa virtude, já que o trabalho remoto veio para ficar, para o azar do mercado imobiliário corporativo.

E se quase tudo pode ser resolvido através de reuniões na tela do celular ou computador, para que exigir deslocamentos em trânsitos caóticos ou viagens curtas, sujeitas a atrasos recorrentes? As reuniões se tornaram mais objetivas nessa pandemia, simplesmente não funcionam com mais de um falando ao mesmo tempo. Atrasos de poucos minutos valem constrangidos pedidos de desculpas. Para quem nutria a tradicional tolerância latina para pequenos atrasos, parece que ficamos mais britânicos. Do ponto de vista de produtividade, isso é ótimo.

A formalidade, que minguava lentamente antes da covid-19, entrará em extinção. Não somente pelo ‘dress code’, já que a camiseta desbancou todos os modelos de vestuário, mas também pelo fato de que nossos interlocutores de alguma maneira já entraram em nossa casa virtualmente e há um misto de proximidade e intimidade nessa interação, nunca presente no mundo pré pandemia.

O distanciamento físico obrigou as empresas a promoverem reuniões virtuais inter áreas que melhorou um processo de comunicação antes frágil, quando as pessoas estavam em um mesmo lugar. Quem nunca se deparou com a situação de problemas de comunicação entre áreas fisicamente vizinhas? Visando evitar um problema que muitas vezes já existia, esse cenário de reuniões virtuais em muitas ocasiões resolveu a situação, aproximando áreas e pessoas que pouco se falavam, mas necessitavam fazê-lo…

Confiança, autonomia, responsabilidade, informalidade e proximidade. Características que estarão em alta na volta da pandemia. Não que fossem pouco importantes no pré Corona, mas em um ambiente onde a interação física rareia, elas se tornam essenciais, assim como as inúmeras ferramentas de comunicação já tão disseminadas hoje.

Isso obviamente é teoria. Saberemos se ela se converterá em prática quando sairmos da toca e retomarmos a mobilidade de outrora, mas não tenho dúvidas que algumas mudanças observadas durante esse período vieram para ficar. Precisamos do final dessa crise para comprová-las. Um dia a menos.

2 Comments
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2 Comentários

  1. Avatar

    Ana

    13 de junho de 2020 em 20:11

    Concordo e em uma reunião essa semana comentei isso com meu supte. Sinto falta do olho no olho mas não acredito em presença diária como antes. Também nos tornamos mais produtivos porque não tem aquele cafezinho com o colega de trabalho ou interferências na rotina. O fato também de trazer as pessoas para dentro de nossa casa, transformou algumas relações. Aguardemos cenas dos próximos capítulos. Um dia a menos

  2. Avatar

    sonia pedrosa

    16 de junho de 2020 em 07:57

    Confesso que tenho saudade de sair de casa todos os dias e encontrar o pessoal na agência. Mas estou achando super produtivo, trabalhar em casa.
    Só com a volta à rotina normal é que vou saber o que prefiro.
    Grande abraço, Victor!

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