Um panorama sobre o covid-19 no Brasil e as informações que gostaria de ter, mas não tenho

No dia 15 de Março, o Brasil superou a marca oficial de 150 infectados pelo novo corona vírus, que passou a ter transmissão comunitária, inicialmente em São Paulo, depois no Rio de Janeiro e na sequência em todos os estados do país. Felizmente, o covid-19 chegou com atraso por essas bandas. Tomando a mesma referência (caso 150) na Europa e Estados Unidos, estamos 19 dias atrasados em relação à Itália e entre 8 e 12 atrás de Reino Unido, Espanha, França, Alemanha e EUA. Apesar disso, as ações mais radicais de isolamento social foram tomadas na mesma época que nesses países (uma semana depois da Itália), o que nos ajudou a retardar o crescimento do contágio.

Desde então, temos acompanhado o crescimento de casos e depois óbitos. Nos primeiros dias de contagem, o número de casos novos poderia ser comparado aos demais, pois nessa fase nenhum deles usava testes em larga escala, exceto a Alemanha, que iniciou essa prática bem colhe os frutos dessa estratégia. Nossa curva de casos totais começava a descolar para baixo dos demais países no final de Março, época em que essa métrica deixou de ser confiável, pois seguimos com a prática de testar somente os casos mais graves, o que obviamente subestimava o total de infectados, enquanto outros já o faziam mais intensamente.

Assim, perdemos o fio da meada. A ausência de testes massivos faz com que não tenhamos noção de quantos casos realmente existem no Brasil. Tivéssemos testado com intensidade, tal como fizeram alguns países asiáticos e a Alemanha, nossa capacidade de previsão e combate à pandemia seriam muito mais altas. Infelizmente não ocorreu e não vejo isso acontecendo nas próximas semanas.

Sem confiabilidade na quantidade de casos novos, restou-nos o indicador de óbitos. Alguns se preocupam com sua subnotificação, mas ela é mais difícil. Todo paciente internado com suspeita de corona vírus é testado. Assim, cedo ou tarde, aparece nas estatísticas. Existem casos de óbitos cujos testes somente são validados dias depois do falecimento. Há um atraso na informação, mas ela não é negligenciada. Recentemente foram liberados os resultados de testes para óbitos já computados e a presença do corona vírus foi na proporção de 1:5, o que comprova o fato de que nem todos os suspeitos o possuem. A subnotificação de óbitos seria relevante caso as pessoas estivessem morrendo em casa, sem internação. Não me parece ser o caso no momento. Portanto, na ausência de informação mais precisa, essa é a melhor que temos.

Comparação de óbitos

E comparativamente, vamos bem. No dia #22 após o caso 150, o número de óbitos no Brasil é muito menor que nos demais países (exceto Alemanha) e a incidência de novas mortes também está em um patamar que é uma fração do que se viu na Europa e EUA. Em termos per capita, até a metade do mês teremos o melhor indicador, inclusive que o da Alemanha, e o impacto do vírus no total de mortes do país será o menor dentre todos analisados (vide gráficos e tabelas).

Minha projeção otimista (tomando 13% de crescimento diário de óbitos para os próximos 9 dias e 8% no restante do mês) prevê aproximadamente 5.800 fatalidades até o dia 30 de Abril, um valor que representaria 5% de incremento sobre o número mensal de mortes no país. Não seria assombroso e se confirmado, indicaria que passaremos bem melhores que a expectativa inicial da pandemia.

Projeção de óbitos

Ainda é cedo e obviamente podemos experimentar mudança de rota. A Alemanha, que sempre teve indicadores bem mais brandos, experimentou um período de crescimento de óbitos mais tarde que os demais, superando a marca diária de 23% nos dez dias que sucederam o #22, onde estaremos a partir de amanhã. Se a seguirmos na tendência, nossos números serão piores do que a curva otimista.

Indicadores per capita e impacto sobre o total de mortes

O problema é que nós faltam informações essenciais, que existem, mas não são divulgadas. Na ausência do número de casos, poderíamos medir a quantidade de pessoas que dão entrada diariamente nos hospitais com suspeita de corona vírus. Eis um número conhecido. Sabemos qual o período médio que um paciente fica em leito normal e o percentual dos que tem alta ou são encaminhados para UTIs. Nelas, também existe a informação do ciclo médio de internação, bem como o percentuais que retornam aos leitos comuns ou se tornam óbitos.

Pois bem, o número de leitos disponíveis nos hospitais, bem como o fluxo normal de casos de internação são conhecidos, assim como a transição deles para as UTIs e o número de posições (ocupadas e livres), incluindo aquelas com respirador. É possível mapear o Brasil inteiro com essas informações, conforme descreve o diagrama abaixo.

As informações que faltam

Se medíssemos tudo isso, apesar de não termos o número de casos infectados, conseguiríamos prever com razoável precisão a capacidade do sistema de saúde dos municípios aguentar a pandemia a partir do número de pessoas que batem nas portas dos hospitais. A granularidade seria no nível municipal, uma vez que as curvas de contágio são muito diferentes, bem como a capacidade hospitalar por região do país. Haverá aquelas que serão mais resilientes, outras que estarão muito vulneráveis.

Isso tudo infelizmente não está claro. Fôssemos um país devoto de informação detalhada, cobraríamos por ela. Não é o caso. Preferimos estórias, suposições, teorias de conspiração, sem checar a granularidade dos dados. Recentemente fiz uma busca na web sobre a quantidade de óbitos por país, informação facilmente obtida em um ‘click’ na língua inglesa. No Brasil, foi bem mais difícil encontrá-la por estado. Não estamos habituados a esmiuçar nossos processos e nos conformamos com a primeira página das notícias.

Espero que os técnicos do ministério da saúde e das secretarias estaduais estejam trabalhando com esses detalhes e lamento que não estejam sendo amplamente divulgados, pois nos ajudariam a entender a situação do sistema de saúde e a real iminência de colapso. Houve uma previsão genérica feita há duas semanas de que o mesmo se daria no final de Abril, mas desde então não se falou mais nisso e nossa curva segue surpreendendo positivamente.

Não seria difícil expor esses indicadores, não entendo por que não fazemos. No meio de uma guerra contra um inimigo invisível, quanto mais informação, melhor. Por ora, seguimos quase às escuras, confiando nas teses do calor, da vacina BCG e do confinamento.

Gráfico que traz esperança 1
Gráfico que traz esperança 2
Gráfico que traz esperança 3
4 Comments
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4 Comentários

  1. Avatar

    Araceli Theodoro

    6 de abril de 2020 em 04:57

    Excelente análise, apesar da falta de informações relevantes ao seu estudo. Tenho acompanhado todos seus posts no Facebook. Parabéns!

  2. Avatar

    Márcio Rocha Gonçalves

    6 de abril de 2020 em 12:01

    Obrigado por compartilhar suas análises e números conosco. Eles (os números) parecem corroborar que o isolamento adotado em estágios iniciais reduz de forma significativa o “momento” (termo roubado da física) da pandemia. Ou vc vê mais algum fator influenciando a curva mais achatada no Brasil? Abraços

    1. Avatar

      Victor

      6 de abril de 2020 em 19:53

      Temos a teoria do calor e da vacina BCG, ainda não comprovadas completamente, mas embasadas com estudos.

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    Francisco Riedi

    7 de abril de 2020 em 09:58

    Olá Victor, tenho acompanhado suas análises inicialmente pelo LinkedIn e pelo blog, e parabenizo pela inciciativa. Compartilho da sua angústia pela falta de informações que, embora existentes, não estão publicadas ou não estão disponibilizadas na forma de dados abertos.
    Na intenção de colaborar, estou buscando fontes de informação que possam contribuir com o aprimoramento da sua análise, neste sentido temos:
    – O CNJ, Conselho Nacional de Justiça, determinou por meio da Portaria 57/2020, que os cartórios de registro civil informem as ocorrências de óbitos por COVID-19. a informação está disponível em: https://transparencia.registrocivil.org.br/especial-covid. O formato não é o melhor para o processamento da informação, mas está atualizada.
    – Não está claro se vc teve acesso ao DataSUS, que é uma base de dados governamental sobre Saúde. Nesta base tem o TabNet, que deveria as repostas para uma parte dos pontos de interrogação colocados por vc, no entanto as informações não estão atualizadas, a mais atual é de Fevereiro/2020. O acesso pode ser feito por: https://datasus.saude.gov.br/informacoes-de-saude-tabnet/

    Infelizmente nossas instituições ainda não incorporaram a cultura da transparência das informações, quando muito o reporte no mês seguinte. Parece haver um receio do acompanhamento pela sociedade organizada.
    Novamente parabenizo pela iniciativa.

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