O primeiro mês do resto de nossas vidas

Hoje se encerra o mês que mudará para sempre os rumos da história e amanhã começamos o que será o primeiro dos meses do resto de nossas vidas. Nada será como antes.

Há poucas semanas assistíamos com um certo ar de incredulidade o desenrolar da epidemia na China, certamente com a conclusão precipitada de que se tratava de mais um desses vírus que atacam o continente asiático de tempos em tempos. Mesmo a Itália, primeira a sentir o baque, inicialmente não o tratou com o rigor que a situação merecia, via de regra um equívoco cometido por todas as nações ocidentais.

De maneira assustadoramente rápida, passamos de observadores a protagonista da pandemia. Quem poderia imaginar, há 4 semanas, que estaríamos todos confinados nesse momento, rezando para que o ‘bichinho’ não se espalhe como promete e poupe nosso pobre país de experimentar o mais grave problema de saúde pública de sua história?

Na quarta-feira, dia 11, o corona vírus não passava de notícia pitoresca de jornal. Na quinta, as primeiras notícias sobre a gravidade da situação, na sexta, dia 13, a preparação para fechar o nosso escritório, situação 70% resolvida até o dia 17 e finalizada no dia 20. Na segunda, dia 16, as escolas comunicam a suspensão das aulas, decisão que seria seguida por todos os demais estabelecimentos comerciais e não essenciais até o final da semana. De repente, tudo parou. As histórias são todas semelhantes.

A verdade é que uma microscópica cápsula de proteína contendo material genético colocou de joelhos os países mais poderosos do mundo. De nada adiantaram os arsenais bélicos, as tecnologias militares de ponta, as novidades digitais e toda forma de inovação dos tempos atuais. Não impediram que fôssemos todos forçados a um retiro dentro de nossas casas para evitar o mal maior. Os roteiros dos filmes de tragédia finalmente se materializaram. A vida os copiou de maneira implacável. Demos sorte, por ora, de não ser um vírus de grande letalidade. E se fosse?

Ironicamente, a doença atingiu primeiro os mais ricos. Países e pessoas. É claro que um colapso no sistema de saúde e uma recessão histórica arrastarão a todos para o sofrimento, sem distinção. Mas não deixa de ser inusitado o caráter igualitário do covid-19. Não perdoa ninguém.

Na mesma velocidade com que nos adaptamos ao trabalho remoto, nos angustiamos com as notícias da crise que virá e que em maior ou menor escala, impactará a todos. Quem nesse momento, é capaz de afirmar que é imune às consequências da pandemia? A humanidade está sendo forçada a conviver com altíssimo nível de incerteza, como nunca antes desde os tempos da segunda guerra mundial.

A incerteza, geradora de ansiedade, certamente coloca pressão nas relações familiares, em um momento completamente desfavorável a conflitos. O confinamento, nesse caso, é uma prova de tolerância no convívio doméstico. As pessoas se veem angustiadas pela incerteza no campo profissional e pressionadas pela ansiedade no pessoal. O momento é de stress agudo. Atravessar esse período turbulento mantendo, na medida do possível, a serenidade e a paz de espírito, é uma prova de fé, resiliência.

Nunca se falou tanto na necessidade de preservar empregos e proteger os segmentos mais desamparados. E quem não tem dinheiro para pagar o jantar? E os autônomos? E os pequenos empresários? E os trabalhadores informais? A necessidade tem gerado mutirões de solidariedade mundo afora, gente que junta o que pode para ajudar a quem precisa, mesmo que silenciosamente. É o vírus extraindo a nossa humanidade normalmente em estado de hibernação.

As relações de trabalho e até a forma com que as empresas são geridas vão mudar, não tenho dúvidas. Negócios tem sido tocados remotamente, decisões são tomadas em reuniões virtuais, o tempo de distração provavelmente tem sido amplamente reduzido, o foco está na resolução dos problemas. Isso ocorrendo com as ruas vazias e menor poluição sonora e do ar. Acredito que as lições em tempos de extrema dificuldade permanecerão após o fim desse tsunami.

E que falta faz um aperto de mão, um abraço ou um mero almoço casual. Como é boa a sensação de liberdade de poder caminhar, sem rumo, pelas ruas. Que saudade da vida ao ar livre. Pequenas coisas, normalmente irrelevantes, tornando-se de extrema importância para nossa saúde mental. Somente as valorizamos quando não as temos.

O vírus não vai acabar com o mundo. Ele vai passar. Nossas vidas serão retomadas, com maior ou menor dificuldade. Essas, serão vencidas, à maneira do próprio desafiante. No caso, cada um de nós. Não temos o direito de esmorecer, e temos a obrigação de assimilar as verdades que o vírus nos traz: ninguém é melhor que o outro pela sua posição social (vale para países e gente), devemos ter empatia e ajudar aos desamparados, precisamos valorizar as coisas simples da vida, aquelas para as quais costumamos dar nenhuma importância.

O corona vírus é causador da pandemia, mas pode ser o catalisador de uma revolução que nos trará uma humanidade melhor.

9 Comments
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9 Comentários

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    Guilherme

    31 de março de 2020 em 21:55

    Que texto inspirador!
    Obrigado!!
    🙏🏼

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    Iara Loyola

    1 de abril de 2020 em 00:34

    Que maravilha Victor Hugo! Como você tem essa facilidade ( que eu não tenho ) de colocar em palavras a realidade. Assistindo ontem ao “ Roda Viva “ fiquei preocupada. Se até dezembro, tivermos que ficar enclausurados, todo mundo vai pirar. A saúde mental das pessoas não aguenta!!!! ( que fale o Guto)…

    1. Avatar

      Victor

      1 de abril de 2020 em 08:15

      Mes que vem sairemos 🙏🙏

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    Ana Paula

    1 de abril de 2020 em 01:23

    Ótima reflexão !!!

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    Bianca

    1 de abril de 2020 em 09:37

    Este texto me deixa com a certeza que trabalho em um lugar maravilhoso e que as pessoas não são vistas como número e sim como “pessoas” . Obrigada Victor pelas palavras. Nestas horas são essenciais nos mantermos bem.

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    Tammy

    1 de abril de 2020 em 15:35

    Uma descrição perfeita do momento que atravessamos e que vai fazer com que o ser humano tenha mais humanidade e empatia com os demais. Ótimo Victor.

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    Maurício Vilela

    1 de abril de 2020 em 22:53

    Victão, sou seu fã! Vc faz mágica com as palavras meu amigo ! Parabéns! Melhor texto que li até agora sobre esta pandemia! Tudo isso vai passar! E espero que o senso de humanidade, caridade e empatia prevaleça! Grande abraço!

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      Victor

      1 de abril de 2020 em 23:42

      Valeu barbolino!!! Vai passar sm, a aí daremos um Abs real ao invés do virtual!!
      Grande abs

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    Suelyrueda

    4 de abril de 2020 em 18:25

    Muito boa a reflexão agradeço muito abracos

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