Primeiro ano: nota 5

21 de dezembro de 2019 Por Victor

Em Outubro de 2018, quando Jair Bolsonaro surgia como o surpreendente vitorioso nas eleições presidenciais, eu escrevi um texto sobre o passivo que ele carregaria ao longo do seu mandato:a capacidade quase ilimitada de seus filhos se meterem em confusão. E como era de se esperar, o ano que termina foi marcado por elas.

À época, Fabrício Queiroz era apenas um anônimo recolhedor da rachadinha na Assembleia fluminense, em prol de seu mecenas Flavio Bolsonaro, o mais tranquilo dos 3 filhos, hoje uma ameaça ambulante à estabilidade do mandato paterno. Carlos, armado com seu Twitter bomba, criou conspirações, queimou ministros e escreveu muita asneira. Eduardo, o ex futuro embaixador, envolveu-se em polêmicas diversas com os colegas do partido defenestrado pelo pai, mas ainda liderado por ele na Câmara. Não há semana sem treta nessa família.

Seria mais fácil se Bolsonaro pudesse enviar os ‘garotos’ para, o exílio, um longo sabático de três anos, e constituísse seu governo de Tarcísios, o discreto ministro da Infraestrutura que mais produziu resultados no primeiro ano dessa gestão. Mas isso não passa de uma utopía, os filhos continuarão por aí, atrapalhando…

As tretas alimentam a imprensa, insaciável quando se trata de criticar o presidente. Não há revés que não se transforme em derrota épica, nem declaração infeliz que não seja elevada à categoria de maldade. O terço do eleitorado que odeia o presidente vive disso. Elogiam até reportagens toscas e vazias sobre a vida profissional da nora de seu desafeto.

O terço que o ama incondicionalmente, aplaude sua retórica pouco cuidadosa e sincera, geradora de frequentes ‘veja bem, não foi isso que eu quis dizer’ e faz malabarismos para justificar qualquer deslize do presidente perfeito, que veio à terra para combater o marxismo, em vias de dominar o mundo.

O outro terço, no qual me incluo, posiciona-se entre o tiroteio dos grupos antagônicos, sendo frequentemente confundido como rival por ambos os lados. Não alinha-se automaticamente aos demais e por isso toma sopapos à esquerda e à direita.

Essa seria uma descrição simplista mas efetiva da atmosfera política brasileira no ano que passou.

Já o visualizando pelo retrovisor, se a reforma da Previdência foi um marco histórico, ela é insuficiente para que o Brasil retome o crescimento econômico de longínquos tempos passados. O governo não pode pensar em desacelerar o ritmo das mudanças.

Houve progressos em várias áreas, não restritos à Infraestrutura, muitos deles obscurecidos pelas confusões políticas. Como exemplo, mais de 10.000 assassinatos a menos não é um feito a ser comemorado, em um país que há muitos anos enterra quase 60.000 de seus cidadãos anualmente, vítimas de homicídio??? Essa é uma informação que incomoda demais os ‘haters’ de Bolsonaro, por se tratar de um fato incontestável. Candidata à melhor notícia do ano.

Dizem que se economia e segurança pública se converterem em fontes de boas notícias, Bolsonaro estará reeleito em 2022, independentemente das tretas no âmbito político, e eu tendo a concordar com essa tese. Com um terço do eleitorado a seu favor, ele precisa de um quarto do resto ou ao menos metade do grupo do ‘meio’ para sacramentar uma vitória. Em um ambiente polarizado com uma esquerda munida de um discurso extremista do outro lado, obter esse apoio adicional para a vitória não é tarefa difícil.

Sobre a qualidade do governo, eu admito que esperava mais. Foco, por exemplo. Esquivar-se de distrações. Não gerar tsunamis em locais de calmaria. Por outro lado, o Brasil não se transformou no inferno da terra, como previsto pelos ‘Bolsohaters’. As redes sociais foram o palco das grandes polêmicas do ano, com notícias falsas para lá e para cá, frases descontextualizadas e as mais diversas conspirações ganhando corpo, um mar de desinformação pronto para iludir os desatentos. No mundo real, nenhuma ruptura. Onde está o Bolsonaro malvadão que tanto anunciaram?

Se é verdade que o apocalipse não veio, também é incontestável que do ponto de vista prático o primeiro ano do governo foi uma continuidade do mandato tampão de Michel Temer. Há três anos que fugimos da recessão, mas tampouco conseguimos descolar de um crescimento raquítico ao redor de 1%, que convenhamos, não é nada. Como atenuante, o Brasil ao menos é gerador líquido de trabalhos com carteira assinada, embora o índice de desemprego permaneça teimosamente superior a 11%.

Para os analistas, haverá o copo meio cheio ou vazio, cada qual adota uma versão de acordo com sua preferência. Eu dou nota 5 para esse primeiro ano. O Brasil precisava de pelo menos uns 7. E a compararação com ‘Dilma nota zero’ não é atenuante. Em outras palavras, nos critérios dos institutos de pesquisa, minha avaliação é ‘regular’.

2020 bate à nossa porta com evidências de que as tretas não arrefecerão, mas também com a economia dando sinais de vida. E como resolução de ano novo, Bolsonaro bem que poderia abdicar daquelas entrevistas matinais diárias, produtoras em alta escala de ‘mal entendidos’. Seria começar com pé direito, ‘talkey’!