Sobre miséria e manifestações

27 de outubro de 2019 Por Victor

Imaginem se os 54 milhões de miseráveis brasileiros, aqueles que sobrevivem com menos de R$ 405 por mês, resolvessem sair às ruas para pedir melhores condições de vida.

Antes de continuar, vamos concordar que o motivo da manifestação seria mais do que justo. Já pensou em seu cotidiano com um orçamento de R$ 100 por semana?

Pois então, como seria a reação dos outros 156 milhões de brasileiros posicionados acima da linha da miséria?

Bem, a esquerda ‘raiz’ e festiva hipocritamente apoiaria o movimento, no intuito de tomar para si a autoridade moral de defensores dos pobres. Como de praxe, colocariam a culpa no Bolsonaro. Seriam obviamente duas extraordinárias mentiras. A primeira por que o PT nada fez pelos pobres. Recebeu o Brasil com 45 milhões de miseráveis e o entregou com 52 milhões. Sob a batuta dos falsos profetas, à miséria foram adicionados 7 milhões de indivíduos, o que a manteve relativamente estável, tal qual sempre foi: para cada 4 brasileiros, 1 é miserável. A segunda mentira seria culpar o Bolsonaro, simplesmente por que não houve tempo hábil para se produzir melhora ou piora no quadro de pobreza.

A direita radical iria acusar o movimento de ser orquestrado por esquerdistas e defenderia ações duras contra os manifestantes. ‘Desçam o porrete’. Pouco importa se viver com menos de R$ 406 é indigno; se o lado oposto está apoiando, é ruim. Cometeriam um erro muito comum entre aqueles que posicionam-se nesse espectro ideológico: deixar que as causas sociais sejam ‘sequestradas’ pela esquerda. Afinal, quem em sã consciência é contra melhores condições de vida aos miseráveis? Mas eu consigo até visualizar o discurso virulento da direita contra um movimento desses.

Não faltariam teorias conspiratórias. De um lado, a conversa de que ‘Bolsonaro malvadão’ usaria pelotões de fuzilamento contra os pobres, do outro a teoria de que as manifestações seriam orquestradas pelo foro de São Paulo, patrocinadas pelo George Soros e coordenadas pelo Nicolás Maduro.

No meio dessa polarização, as manifestações cairiam em descrédito e perderiam força. As narrativas se tornariam verdades, cada qual para seu público cativo, e os miseráveis continuariam vivendo com menos de quatro notas de cem reais por mês.

Vejo algumas nuances dessa realidade nos acontecimentos que popularam as manchetes no Chile ao longo dos últimos dias.

Esquerdistas tentam se apoderar da agenda dos indignados, como se não tivessem participado da construção do Chile pós Pinochet!! A esquerda chilena até outro dia comandava o país e passou pelo menos 60% do tempo no poder após a queda do ditador. Que moral eles tem para bancar os ‘bonzinhos’ nesse momento? Nenhuma.

A direita, pelo menos a brasileira, enxerga na situação chilena um conluio das forças esquerdistas liderada pelo foro de São Paulo, com a participação de Cuba e Venezuela, para desestabilizar o país. O discurso de sempre. Onde já se viu reclamar de qualquer coisa quando um dos nossos está no poder, não é mesmo?

Uma política de estado, mesmo exitosa, nunca será perfeita e pode produzir insatisfeitos. O Chile é o país mais bem gerido da América Latina sob qualquer indicador, não resta a menor dúvida, os números não têm ideologia. Os miseráveis chilenos correspondem a menos de 9% da população, disparado o melhor índice do continente. Mesmo assim, seriam ao menos 1.8 milhões de pessoas sem nenhum motivo de satisfação. Será que a eles não é concedido o direito à indignação? Deveriam resignar-se, calados, e abraçar seu destino?

‘Mas o Chile está muito melhor que os seus vizinhos, estão reclamando de boca cheia?’ Bem, não é essa a visão de quem está na base da pirâmide, eles não devem estar muito preocupados com as vitórias comparativas contra a vizinhança, afinal, falta-lhes o básico.

Quando eu vivi em Londres, me espantava com o fato de que londrinos criticavam o transporte público da cidade, um dos melhores do mundo. ‘Muito cheio em horários de pico’, ‘Algumas linhas possuem trens velhos demais’ eram motivos de lamúria. Eu, na minha mentalidade terceiro mundista pensava, surpreso, de que eles deveriam vir ao Brasil para verem o que é bom. Estava enganado. Não deveriam vir ao Brasil, para que? Qual o intuito de se nivelar por baixo? Hoje vejo que os londrinos reclamantes estavam certos de manterem o grau de exigência tão alto, provavelmente uma das razões pelas quais o serviço seja tão melhor que seus congêneres no planeta, já que os usuários não se satisfazem com pouco.

Voltando ao Chile,, não concluo que as manifestações sejam prova do fracasso do modelo econômico por lá adotado nos últimos 30 anos Desculpem-me os esquerdistas festivos, mas o tal modelo é o mais bem sucedido da região que vai da Patagônia à fronteira com os EUA, só que isso não quer dizer que seja perfeito e que não haja insatisfeitos. Ajustes são sempre necessários e agora certamente mais urgentes.

Também tomo o sentido contrário dos que contestam a legitimidade das manifestações. Desde quando as pessoas não podem dizer ‘minha vida está uma merda e o governo, ao invés de ajudar, só me atrapalha!’. É claro que depredação de patrimônio público é uma forma irracional e criminosa de se manifestar, e normalmente quem o faz perde a razão, mas colocar pacificamente 1.2 milhões de pessoas nas ruas em uma cidade com 5.6 milhões de habitantes demonstra que não estamos diante de uma causa desprezível. Seria o equivalente a 4.5 milhões na região da Paulista!

Então, é melhor ir com calma antes de definir um juízo de valor sobre os acontecimentos no Chile. Será interessante observar os desdobramentos dos fatos. Como reagirá o governo Piñeda? Fará dos limões uma limonada? A história se encarregará de julgá-lo, as opiniões presentes são tâo precisas quanto as nossas pesquisas eleitorais para senador em véspera da eleição.

Agora, voltemos à nossa reflexão: E se fossem os 54 milhões de miseráveis do Brasil a reclamar? Como você reagiria?

Isso nunca acontecerá. Nossos miseráveis em sua grande maioria são analfabetos e quando ultrapassaram essa barreira, tem pouquíssima escolaridade. Perderam a corrida para obter uma vida digna já na primeira infância, quando ainda careciam de alimentação e saneamento básicos. Em seu primeiro dia de escola, já estavam fadados ao fracasso ou à completa dependência do estado. Transitam por aí como fantasmas, podem até ser vistos, mas são ignorados. Eles não se manifestam, talvez nunca o façam. Mas estão ao nosso redor.