Um breve olhar sobre a superlativa China

1 de setembro de 2019 Por Victor

Há pouco mais de dois meses, fiz uma viagem de 10 dias à China, juntamente com um grupo de executivos e empreendedores, cujo objetivo era visitar empresas em três diferentes cidades e observar o ecossistema de negócios do gigante asiático. No programa constavam tambem um encontro com autoridades diplomáticas brasileiras e empresários chineses, tudo muito bem organizado pelo Red Point em conjunto com o Cubo (Itaú), facilitado pelos excelentes profissionais Marina Miranda e Felipe Zmoginsky.

Não conhecia a China continental, apenas Hong Kong, em duas passagens (uma delas rendeu um texto nesse blog, na mesma seção ‘Lugares por onde andei’), que obviamente não confere ao visitante a pura experiência chinesa, dado o contexto histórico de colonização britânica. A longuíssima viagem me despertava uma enorme curiosidade, menos por aspectos culturais, e mais pelo contexto econômico gerador dos pesadelos mais agonizantes de Donald Trump. Não sem razão, como veremos adiante.

Chegar lá é o primeiro desafio. São quase 15 horas de voo na primeira perna até Dubai ou qualquer destino intermediârio, seguido de uma conexão de 4 horas (com sorte) e o desfecho depois de outras 8 ou 9 horas até Benjing ou Xangai. Caso você chegue com a sua lombar intacta é por que passou no primeiro teste.

O segundo é superar o fuso horário. São onze horas de diferença que vão lhe infernizar, seja nas madrugadas insones ou nos finais de tarde ‘bocejantes’. Tem gente que se adapta rápido, eu não faço parte desse grupo. Sofri. E quando estava começando a me adaptar, voltei.

Beinjing, centro financeiro

O terceiro desafio, não menos difícil, é a culinária. E não se trata de comer gafanhotos ou escorpiões, essas quitutes você só encontrará em sitios mais populares, assim como cãozinhos grelhados, são 10M deles abatidos por ano. Felizmente não vi, nem provei nada disso. Mas pato laqueado e comida bastante gordurosa, algumas vezes gosmenta, não fazem meu estômago vibrar de alegria. Se a gastronomia chinesa fosse representada pelo ‘China in Box’, eu teria me adaptado melhor. Ao menos sempre havia uns bons vegetais nas mesas muito fartas dos restaurantes. Vale destacar também o pouco apreço dos chineses pelo ‘doce’; as sobremesas, quando parte do menu, tinham gosto de nada. E o desprezo pelo que é gelado, tudo natural – mesmo sob um calor dos infernos. O fato é que o hambúrguer que eu comi no meu sexto dia foi absolutamente espetacular.

Tivesse nascido ou fosse criado chinês, não tenho dúvidas de que acharia o máximo essa alimentação, uma questão de hábito. Ou será que linguiças, couve e laranja, misturados em arroz, feijão e farinha seriam menos exóticos? De certo que nossa ‘feijuca’ pode gerar a mesma inquietação em um visitante, apenas para ficar no exemplo mais básico. De qualquer maneira, uma semana de China vão lhe transformar em um adorador do feijão com arroz, bife e ovo frito.

Quitutes em supermercado

A história da China começou a ser contada 2000 anos antes de Cristo. São quatro milênios de registros escritos, mais do que qualquer outra civilização ocidental. Hoje, com 1.4 bilhões de pessoas, dos quais quase 800 milhões ainda vivem no campo, é a nação cujo crescimento recente tem transformado a história econômica do planeta. Em uma área 10 % maior que o Brasil, comporta 7x mais pessoas. Estima-se que até 2020, serão mais de 200 cidades com mais de 1 milhão de habitantes. Não há em nenhuma estatística que lhe diga respeito que não seja classificada como grandiosa.

Mas vamos aos negócios. O objetivo do texto que segue não é esmiuçar o funcionamento das empresas chinesas, mesmo por que isso seria impossível a partir de uma visita tão curta, além de já ter sido foco de outros relatos semelhantes. A ideia é transmitir as mensagens que mais chamaram a minha atenção e outras nuances que possam nos fazer refletir sobre a distância que nos separa da China, e não me refiro simplesmente ao aspecto geográfico.

A (AUSÊNCIA DE) PRIVACIDADE

Se a privacidade não é prioridade para as gerações mais novas, que abraçaram as redes sociais desde sua concepção, na China, ela simplesmente não existe. Você começa a perceber isso antes de chegar ao país, quando é orientado a instalar VPNs para fugir do monitoramento estatal sobre sua navegação na web, nem sempre permitida. Em sua estadia, será normal ter sua conexão derrubada de tempos em tempos, forçando-o a diversificar as VPNs, em uma espécie de jogo de ‘gato e rato’. A sensação de que alguém o vigia não lhe abandona enquanto estiver na China.

A Megvii, start up avaliada em mais de US$ 4B e especializada em reconhecimento facial, sediada em Beinjing, é um exemplo disso. A empresa já detém em seu banco de dados informações sobre mais de 250M de pessoas, capturadas em mais de 120 mil câmeras espalhadas pelo país. A tecnologia, muito útil para segurança pública, pode também ser usada para facilitar meios de pagamento, já que o rosto, devidamente escaneado, vinculado a uma conta digital, dispensaria a utilização de dinheiro, cartão ou outra biometria.

A Megvii gaba-se de ter ajudado a polícia chinesa a encontrar criminosos no meio de multidões e tem buscado exportar sua tecnologia para o mundo. Ouvimos os nomes de Salvador e Curitiba ventilados como cidades brasileiras que os procuraram para entender a aplicação do produto. É um alento saber que alguns dos nossos gestores públicos se interessam por esse tipo de inovação, muito embora nossa legislação de proteção aos dados pessoais e/ou privacidade possa ser um obstáculo à sua disseminação.

Se os números fornecidos pela empresa estiverem corretos, quase 20% dos chineses já têm seus rostos identificados, com todas as informações associadas. Transposto ao Brasil, seria equivalente à quase a população do estado de São Paulo!

Imagine um mundo onde há câmeras capazes de identificar qualquer indivíduo espalhadas por todos os lados. Seria um lugar onde o cidadão abdica de sua privacidade em troca de praticidade e segurança. Em sociedades violentas como a brasileira, me parece que um modelo como esse seria bastante apoiado, apesar de um tanto assustador.

A MÃO (PESADA) DO ESTADO

Dizem que na cinzenta, sizuda e imponente Beijing, tudo tem a presença oculta do estado, desde o vendedor de bugigangas na Praça da Paz Celestial à gigante de tecnologia Baidu, réplica chinesa do Google.

Fomos alertados de que sempre que houvesse uma estrutura organizacional muito complexa ou pouco compreensível, a presença do estado acionista era certa. E de que isso seria particularmente provável em Beinjing, lar da burocracia estatal. Aliás, as referências à cidade não foram lá muito elogiosas em outras partes do país. Em um encontro com empresários em Shenzen, ouvimos a ironia de que em Beinjing só havia funcionários públicos, ou atores se fazendo passar por empreendedores!

Vista aérea da cidade proibida

Baidu está sediada em Beijing. Confesso que me decepcionei. Talvez pelo fato de ter visitado as instalações da original americana há pouco tempo, achei a versão chinesa do Google uma cópia pouco criativa. Tudo igual, até os protótipos de carro autônomo, que ainda tem dificuldade para executar uma curva bem feita. Duvido que consigam fazer uma baliza. Mas essa é uma opinião rigorosa, reconheço. Afinal, os chineses criaram seu próprio Google que atende 20% da população do planeta. Teríamos essa capacidade em terras tupiniquins?

Estádio olímpico

No bairro de Zhongguancun, visitamos uma avenida repleta de incubadoras, ao todo dizem ser mais de 800, que apoiam mais de 2500 start-ups, muito próxima às principais universidades da cidade. Qualquer indicador nesse lado do mundo é impressionante. Por mais que a presença do estado seja muito notada em Beinjing, é evidente o estímulo que se faz ao empreendedorismo. Após a morte de Mao Tsé Tung, o governo chinês adotou uma postura de abertura econômica e comercial, mantendo o rigor da prática do partido único e estado forte. É como se existisse um pacto com a população, que recebe todos os estímulos possíveis para enriquecer, mas em troca não se aprofunda em temas políticos…

AMBIÇÃO

Certamente não há na Terra um país tão ambicioso quanto a China, que não esconde seu objetivo de ser o maior do mundo, qualquer que seja o critério avaliado. Não foram poucas as referências que ouvimos sobre o ‘maior’ de qualquer coisa: uma ponte, uma muralha, uma avenida, uma hidroelétrica, um prédio, enfim, parece que tudo em solo chinês está predestinado à glória, pelo menos é assim que seus cidadadãos transmitem a mensagem.

Megvii

E esse objetivo de ‘grandeza’ não se restringe ao pensamento estatal, mas também é repassado e assimilado pela população, cujo objetivo de enriquecer está sempre em evidência. Os chineses não poupam esforços para subir na vida. Os empreendedores não querem se tornar ‘unicórnios’ (empresas cujo valor de mercado ultrapassa US$ 1B), mas ‘decacórnios’ (US$ 10B), já são mais de 70 start-ups que ultrapassaram a primeira barreira. Não surpreende que 60% dos novos bilionários do mundo em 2018 sejam chineses, 199 de um total de 362.

A ambição chinesa é perfeitamente representada por sua maior empresa, a gigante Alibaba, sediada na milenar e aprazível Hangzhou, a 180Km da gigantesca Xangai. A cidade de 6.3M de habitantes (do tamanho do Rio de Janeiro), data do ano 606 DC, foi já foi sede de vários reinos, e está situada no delta do Rio Yangtzé, o que lhe provê belíssimas paisagens, uma agradável surpresa turística.

Alibaba

Nada é tão impressionante na cidade quanto a Alibaba, uma empresa que é de tudo um pouco e que gradualmente estabelece seus tentáculos ao redor do mundo. Dizer que ela é a Amazon da China é insuficiente, pois além disso também pode ser classificada como banco, bureau, varejista, meio de pagamento e logística. A empresa se estabelece com força descomunal em todos esses segmentos, capturando terabytes de informações a respeito de todos os seus clientes, situação absolutamente fluida na China. Na ‘black friday’ chinesa do ano passado, estabeleceu o inacreditável recorde de US$ 30 Bilhões em transações de e-commerce em um único dia!

Com uma reserva de mercado de 20% da população do planeta e fâcil acesso a outros 40% do continente asiático, além da crescente expansão para os mercados africanos e latino-americanos, não tarda a China estabelecerá uma absoluta supremacia comercial e de influência relevante sobre todo mundo em desenvolvimento. A ameaça à hegemonia americana é real.

Shenzen

Não encontro paralelo desse ‘sonhar alto’ chinês no Brasil, país que está mais para acomodado que ambicioso. Tanto do ponto de vista de política de estado, quanto individual, nos satisfazemos com a mediocridade, no sentido literal, e não buscamos o topo, exceto no futebol, onde ultimamente também só temos apanhado. Para os que contestarem minha generalização, reconheço que há poucas exceções que confirmam a regra.

Como pode um país ser considerado ambicioso quando tolera permanecer ao longo de duas décadas nas últimas colocações dos rankings globais de educação, incapaz de progredir? Voltando à China, lá a educação é tratada pela sociedade como o catalisador do crescimento individual. Muito já foi dito sobre a rigidez dos métodos chineses, mas o fato é de que não surpreendentemente a China está no lado oposto ao brasileiro nos principais rankings do assunto…

INFRA-ESTRUTURA

Shenzen, próxima de Hong Kong, escolhida como uma área econômica especial, era pouco mais que um vilarejo de pescadores no início dos anos 90. Quase 30 anos depois, tornou-se uma cidade de 13 milhões de habitantes, do tamanho de São Paulo, especializada na produção de hardware. E que cidade! Uma infra-estrutura impecável, avenidas largas, ampla rede de metrô, limpeza urbana, ciclovias. Em menos de três décadas, a China constrói uma megalópole, enquanto que por aqui, na maior e mais rica cidade do Brasil, estamos há 10 esperando pela finalização de um reles monotrilho. Não se trata de um ‘tapa na cara’, é um espancamento.

Shenzen

Shenzen não é a única. A China urbana está repleta de casos semelhantes. Um país onde o investimento em infra-estrutura precedeu o consumo interno, que adotou os smartphones e meios digitais de pagamento sem passar pelo computador e que ousa produzir drones e robôs de primeira qualidade, onde antes havia cópias baratas.

Infelizmente, não conheci Xangai, considerada por muitos a mais impressionante cidade chinesa. O lado positivo foi evitar uma dose maior do sentimento de ‘insignificância’, incontrolável ao final de uma viagem como essa. Uma desconfortável sensação de irrelevância diante da magnitude de tudo que ocorre na China.

Em um período tão curto é impossível tecer mais que breves primeiras impressões. Antes de chegar, li o livro ‘Os chineses’ (Cláudia Trevisan), para entender um pouco melhor o contexto da cultura chinesa. Recomendo, apesar de sua última edição datar de 2010, antes portanto das intensas transformações dessa década. Há material farto para quem deseja se aprofundar no assunto.

Tão surpreendente quanto a viagem em si, descrita em vários superlativos, foi retornar com a China incluida na lista de desejos turisticos. Por essa eu não esperava. Mas suas cidades imponentes e belas, e preços acessiveis, fazem jus à escolha. Voltarei.

Hangzhou

Recomendo uma viagem como essa a todos os profissionais dispostos a desbravar as inovações que estão ocorrendo em outras partes do mundo. Não tenho dúvidas de que será um divisor de águas…