Verdades e mitos da indústria de crédito: a inadimplência

São recorrentes as manchetes sobre a quantidade de pessoas negativadas no Brasil, hoje estimadas em 62 milhões, como se esse dado fosse por si catastrófico. Eis uma dos maiores equívocos cometidos por quem não é habituado à indústria, tratar a inadimplência de forma isolada como uma má notícia.

No período em que a economia brasileira cresceu 7.5% e atingiu o estágio de pleno emprego, em 2009, eram 50 milhões os ‘negativados’. Em outras palavras, mesmo em céu de brigadeiro, eram dezenas de milhões com dívidas em aberto. De lá para o purgatório atual da economia, o nível de calotes subiu 25%, esperado se considerarmos que o volume de desempregados aumentou em 10 milhões de pessoas, além de outros 5 milhões de desalentados (aqueles que já desisistiram de procurar trabalho).

A verdade é que a inadimplência é a primeira derivada do volume de concessão de crédito, um efeito colateral previsível para quem transaciona no segmento de consumidores.

Combatê-la para minimizar seus danos é obviamente objetivo para qualquer gestor de portfólio, mas sua existência não pode ser considerada uma má notícia, se não vier acompanhada do monitoramento da receita e do volume de crédito.

Qual o nível de inadimplência ótimo? Depende do apetite de risco de quem concede crédito, essa nunca será uma resposta exata. A análise no tempo também é essencial, pois a inadimplência vem na sequência do crescimento da carteira, trata-se de efeito sempre deletério. Um portfólio que cresce vertiginosamente trará consigo o aumento da inadimplência, e para responder se esse movimento é preocupante, é indispensável que se saiba qual era a expectativa.


Sendo assim, na próxima vez em que você ler ou ouvir a notícia de que a inadimplência atingiu X milhões de consumidores, sua reação correta deveria ser um ‘e daí’, seguida de algumas perguntas importantes:

– Aumentou a concessão de crédito?
– Qual era a expectativa sobre o movimento da inadimplência?
– Como se comportou a receita de crédito nos meses anteriores?
– Qual o movimento da inadimplência por produto e as respectivas variações de volume?

Sem essas respostas, será difícil dizer se a informação sobre inadimplência é positiva, negativa ou neutra. Mas é pedir demais que os meios de comunicação se aprofundem no assunto, via de regra o tratam com a tradicional superficialidade que rende boas manchetes. Só isso já justifica esse artigo.

Em tempo, depois de muitos anos de crescimento no máximo tímido, o mercado financeiro trabalha com um aumento de 10% no volume de concessão de crédito esse ano. O quadro de relativa estabilidade da inadimplência, observado há algum tempo, deverá ser alterado. Daqui a alguns meses, ela vai subir e você lerá os jornais reportar a situação com viés negativo. A notícia, sem detalhes que a complementem, será inócua. Lembre-se disso.

4 Comments
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4 Comentários

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    Celso Chini

    12 de outubro de 2019 em 09:59

    Texto Bonito. Falta acrescentar a CRIMINOSA AGIOTAGEM dos juros privados com Spreads de Traficantes de Pasta de Cocaína .

  2. Avatar

    Leandro Loiola

    12 de outubro de 2019 em 22:27

    Eu entendo que a imprensa faça uma cobertura superficial. Entendo também que a leitura dos números possa ser limitada. Mas senti falta de definição do “sujeito da frase” para que a análise seja mais precisa. Explico: as perguntas que vc sugere ao leitor fazer (antes de avaliar o número), consideram a visão de quem dá o crédito. Pode ser também de um gestor de políticas públicas. Mas quais seriam as perguntas para fazer uma avaliação sob o ponto de vista das famílias endividadas? Acredito que o número superficial divulgado nas manchetes sensacionalistas já seja suficiente para concluirmos que essas famílias estão em situação pior do que estavam há um ano (se o percentual de inadimplentes tiver crescido).

    1. Avatar

      Victor

      14 de outubro de 2019 em 23:40

      Leandro, esse é um texto que avalia o aspecto macro do crédito, do ponto de vista do gestor do portfólio e de seu impacto na economia.
      Do ponto de vista do endividado, a situação estará melhor ou pior conforme o % da renda dele que está comprometido com a dívida.
      Quanto mais, pior…

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