Feliz 2019, Brasil.

O ano começará no Brasil. O novo Congresso, empossado no começo de Fevereiro e há duas semanas em compasso carnavalesco, não tem mais desculpas para não trabalhar.

Em suas mãos, a reforma da Previdência, um plano audacioso elaborado pela equipe de Paulo Guedes, que conseguiu a proeza de convergir gregos e troianos sobre o seu conteúdo, exceto, é claro, os segmentos privilegiados, que farão de tudo para manter a boquinha. Tecnicamente, com poucos ajustes aqui e ali, sua aprovação excederia as expectativas mais otimistas do mercado.

Para chegar lá, porém, o governo terá que gastar ‘saliva e sola’ de sapato. Primeiro, deve convencer a população, hoje dividida, dos benefícios da reforma. Não é tarefa tão difícil, pois como diz o ditado: ‘água mole em pedra dura, tanto bate até que fura’. Requer esforço contínuo, especialmente do presidente, seu principal fiador. Quanto maior o apoio popular, mais facilitado será o trâmite no Congresso e menor as chances de ‘mutilação’. E por lá, o governo precisa estruturar sua base de apoio, que não pode esmorecer um segundo em busca dos 308 votos necessários para aprová-la. Não custa lembrar que FHC perdeu a chance de reformar a Previdência por um mísero deputado, Antonio Kandir, que se enganou e votou errado…

A situação fiscal do Brasil é terrível e sem uma reforma consistente na Previdência, o país estará destinado a crescimentos medíocres, quando muito os ‘pujantes’ 1% que observamos nos últimos dois anos, isso se não experimentar outro quadro recessivo em breve. Há setores da sociedade que vivem na negação dessa realidade, que baterá à nossa porta mais cedo do que tarde, em caso de insucesso. O governo deve ser obsessivo em relação ao assunto, mas até o momento decepciona. Bolsonaro, assíduo usuário das redes sociais, pouca atenção confere ao tema em suas publicações, e quando falou em público sobre a Previdência, fez concessões que sequer estavam no radar, sendo obrigado a retratar-se depois. Ainda não sabemos como será a interlocução com o Congresso e a incerteza, tal qual ocorre com o desfecho da reforma, torna todos os agentes econômicos mais cautelosos em suas ações e previsões.

Não menos importante é o pacote anti crime do Ministro Sérgio Moro, tão controverso quanto a reforma da Previdência, porém de tramitação mais fácil, por não se tratar de emenda constitucional. Também exigirá pressão popular e corpo a corpo em um Congresso desconfiado e reticente em aplicar penas mais duras para malfeitos cometidos pelos próprios parlamentares. Existe a conversa fiada de que as casas seriam incapazes de tratar os dois assuntos simultaneamente. Que tal trabalharem às segundas e sextas? O Brasil tem pressa e o combate ao crime e à corrupção está no topo das prioridades da população em geral. Espera-se que os recém empossados presidentes da Câmara e do Senado imponham a seus colegas um ritmo intenso de trabalho. É o mínimo a oferecer a um país sedento por mudanças.

Os dois ministérios mais poderosos desse governo fizeram o que deles se esperava e enviaram ao Congresso um ambicioso conjunto de propostas. Mesmo seus críticos hão de concordar que elas estão alinhadas às diretrizes de campanha e caberá ao Congresso discutí-las e ajustá-las. Mas há muito trabalho a ser feito além de suas fronteiras.

Infelizmente, porém, boa parte do que pode ser dito sobre os primeiros 60 dias de governo além das reformas propostas pela Fazenda e Justiça restringe-se às polêmicas sobre declarações de ministros, filhos e do próprio presidente em seu Twitter. Se menino veste azul e menina rosa, se o hino nacional deve ser obrigatório e gravado nas escolas, se o muro do Trump é justificável, se o Chico Mendes foi relevante, se os blocos de carnaval são pornográficos (com direito à participação do presidente como ‘bedel dos costumes’), se uma suplente de um conselho consultivo serve para o governo, se o Jean Wyllis devia ir embora, todos assuntos de impacto insignificante na vida dos brasileiros, mas que ganham proporções gigantescas através de uma imprensa notoriamente anti bolsonarista e muitas vezes caçadora de pêlo em ovo e uma legião de seguidores fiéis capazes de aplaudir qualquer ato do governo, por mais estúpido que seja. Cria-se então um confronto imaginário sobre a tal pauta de costumes, com a imprensa e os segmentos anti governo de um lado e os bolsonaristas do outro. É imaginário, por que só existe na retórica, sendo irrelevante na prática.

Há quem diga que se trata de estratégia pensada do presidente para manter sua base de apoio engajada nas redes sociais. Se for verdade, é de alto risco, pois o cidadão comum quer enxergar as melhorias no seu dia a dia, que nada tem a ver com as ‘tretas’ do Twitter ou Facebook. O período de boa vontade, sob o qual um novo governo recebe ‘crédito’ por sua recência, acaba logo. Quando isso acontecer, a cruzada dos ‘costumes’, razão de ser de quase todas as polêmicas, será insuficiente para manter sua popularidade. Os resultados práticos vinculados a emprego, segurança, combate à corrupção, saúde e educação estão à frente de qualquer outra pauta e serão determinantes para a continuidade da credibilidade do governo.

Minha natureza pragmática faz com que eu me irrite com essas discussões inócuas, embora possa ter uma opinião a respeito das mais diversas polêmicas. Ao se converter em usina geradora de confusão, às vezes sem querer, outras propositadamente, o governo pode até movimentar sua base de apoio, sempre disposta a aplaudí-lo, mas entra em uma seara perigosa, cheia de armadilhas, com o risco de se ver consumido por asuntos cujo valor agregado ao seu legado é nenhum.

É fato que a grande imprensa em geral não dará trégua a Bolsonaro, com quem antipatiza, apesar do apoio à reforma da Previdência. Por outro lado, se munido de racionalidade, o governo poderia evitar a auto combustão. Para que entrar em polêmicas inúteis? Infelizmente, é improvável esperar uma mudança de comportamento, dada a natureza claramente emocional e impulsiva da família, a menos que sejam devidamente influenciados pelos militares que ocupam posições chave em diversos ministérios e tem ascendência sobre o presidente. Suas declarações e comportamento nesse início de governo se destacam pela temperança e bom senso. Talvez a maior realização do governo nesses dois meses seja a conversão do Exército, tão temido e criticado por uma história já longínqua, em inegável fonte de moderação.

E assim o Brasil abre oficialmente seu ano produtivo, depois de sessenta dias de ‘esquenta’ para o Carnaval. Não falta trabalho e sobram expectativas. Como estaremos daqui a seis meses? Espero que o país sobreviva à sequência de polêmicas inúteis, prestes a se tornar paixão nacional, tal qual o futebol, e tenha endereçado os temas da Previdência e combate ao crime com a devida propriedade, pois ambos são apenas o início, e não o fim. Feliz 2019, Brasil.

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    Sonia Maria Pedrosa Silva Cury

    7 de março de 2019 em 14:07

    Que Deus nos proteja!

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