Governo Bolsonaro: primeiras impressões

3 de dezembro de 2018 Por Victor

Quem me acompanha sabe que não sou um bolsonarista, apesar de ter cravado sem nenhuma hesitação o número 17 no segundo turno. Nesse momento, ainda experimento o sentimento de gratidão ao Jair por ele ter nos livrado da praga petista, tomara que para todo sempre. Torço muito para que seu governo tenha êxito e consiga fazer o Brasil alçar voos mais altos e consistentes do que aqueles da galinha avermelhada que caracterizaram as últimas décadas.

Dito isso, minha avaliação da gestão Bolsonaro será completamente isenta. Irei críticá-la ou elogiá-la conforme julgar conveniente. Não me alinharei automaticamente aos seus aprovadores ou detratores fiéis. Eles estão por aí, e sempre terão uma justificativa para qualquer erro ou uma pedra para qualquer acerto. Não é momento de perder o senso crítico ou a ponderação.

Nesses 30 dias de pré-governo, entre alguns sinais de esperança e outros de apreensão, considero o saldo positivo. Vamos às minhas primeiras impressões.

Pela primeira vez na história do Brasil temos uma equipe econômica liberal da cabeça aos pés. Para quem compactua desse ideário como eu, é uma dádiva. E todos seus integrantes altamente preparados. O sujeito pode discordar dos conceitos, mas jamais questionar o currículo dos que foram escalados para as posições chave. Eu, que suspeitava da conversão recente de Bolsonaro ao liberalismo, rendo-me às escolhas do Paulo Guedes. Agora é esperar que a economia supere a política quando o jogo começar. Sabemos que muitas das reformas necessárias são impopulares e mexerão com o corporativismo enraizado no país desde os tempos mais remotos.

Problemas gigantescos do Brasil contemporâneo, a criminalidade e a corrupção, serão combatidos por um faixa-preta. O ex-juiz Sérgio Moro, expoente maior da operação Lavajato, assume a pasta da Justiça com a promessa de não dar trégua à bandidagem, seja a de colarinho branco, do narcotráfico ou a ‘tradicional’. Já comentei em outro artigo nesse blog que a sua nomeação foi um gol de placa de Bolsonaro e enche o Brasil de esperança de que os recentes progressos alcançados pela Lavajato não serão espasmos, mas se perpetuarão. Que assim seja, a jornada será longa e árdua.

Outro mérito de Bolsonaro nesse processo de indicação dos seus assessores diretos foi ter cumprido a promessa de campanha de não lotear os ministérios entre partidos. As escolhas até o momento foram técnicas e quando muito foram ouvidas as frentes parlamentares. Trata-se de uma maneira atípica de conduzir as conversas com o Congresso, resta saber se renderá frutos futuramente. O novo governo deve ter 22 ministérios, menos que os atuais 29 de Tener, frugal se comparado aos 39 de Dilma, mais que os 15 que o presidente eleito havia anunciado como meta. É uma pena que não tenha conseguido reduzir a esse nível, frustrou minha expectativa.

Aqui e acolá criticou-se o fato de que há muitos militares no time, eu avalio essa informação com absoluta indiferença. Militares são brasileiros como qualquer um de nós e via de regra muito bem preparados, por que não poderiam participar de um governo democraticamente eleito? A ditadura acabou há mais de três décadas e parte da imprensa ainda teima em alimentar fantasmas enterrados na memória da maioria da população e inexistente na vida de quem tem menos de 40 anos. Eu, particularmente, prefiro militares a sindicalistas, figurinhas carimbadas no governo Lula. Que sejam avaliados pelo seu desempenho e não pela farda que já usaram.

Algumas escolhas, entretanto, me causam apreensão. A primeira delas é o futuro chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni. Essa é uma cadeira radioativa. Já foi utilizada por José Dirceu, Antonio Palocci, Dilma Rousseff, Gleisi Hoffman, Erenice Guerra, Eliseu Padilha, todo um séquito de presidiários, condenados e réus. É um trabalho inóspito, mas fundamental para o êxito de qualquer governo, por conduzir todas as negociações com o Congresso. Para começar, Onyx tem um telhado de vidro, o fato de ter admitido fazer uso de caixa dois no valor de R$ 100 mil é bastante desconfortável. Tudo bem que ele foi um dos poucos a admitir o malfeito, a quantia é troco perto do nível da roubalheira com a qual estamos acostumados e a principio trata-se de crime eleitoral, mas para mim seria mais do que suficiente para não nomeá-lo ministro. Feita a escolha, infeliz, cabe avaliar seu desempenho e os indícios não são exatamente promissores. Onyx já bateu cabeça com Paulo Guedes em algumas ocasiões e demonstra ter um estilo um tanto truculento. É candidato a desafeto da bancada do PSL, desconfortável com sua influência sobre o presidente. Terá uma pedreira na largada, a reforma da Previdência, que poderá colocá-lo em uma sinuca de bico junto à equipe econômica. Para mim, é forte candidato a ser o primeiro dos ministros a cair.

A educação é outro assunto na berlinda da suspeição. Menos pelo futuro ministro, Ricardo Vélez-Rodríguez, que não é exatamente do ramo, e mais pelas circunstâncias de sua nomeação. Consta que o favorito para o cargo, Mozart Ramos, foi ‘barrado’ pela bancada envangélica, que não o considerou suficientemente conservador. Por trás da celeuma, o tema da escola sem partido e educação sexual, assuntos que nem de longe são os causadores da vergonhosa posição brasileira nos rankings internacionais dos ensinos fundamental, médio e superior. Mozart, com larga experiência na área e atuante no Instituto Ayrton Senna, nunca se manifestou sobre os assuntos caros aos evangélicos, mas era uma espécie de unanimidade entre os especialistas. Bolsonaro preferiu não desagradar à bancada, já irritada pela não nomeação de Magno Malta como ministro (nesse caso, um acerto do novo presidente), e cedeu às pressões. O problema aqui, bastante grave, é que ainda não ouvimos nada a respeito dos planos do novo governo para alçar a educação brasileira a outro patamar. E se ela for pautada pelo binômio ideologia-religião, não evoluiremos.

O Itamaraty da era petista, sob a batuta de Celso Amorim, alinhava-se automaticamente a todos os países anti-americanos, abandonou o pragmatismo e adotou um viés socialista na condução da política externa. A aproximação com ditaduras, como Cuba, Venezuela e outras africanas, custou muito caro aos cofres públicos e arranhou a reputação de nossa diplomacia. Um processo radical de ‘despetização’ era necessário, mas é possível que Bolsonaro tenha ido longe demais, movendo o pêndulo para o extremo oposto. O chanceler Ernesto Araújo é adepto de teorias da conspiração, trumpista fanático e crítico mordaz da China, hoje o maior parceiro comercial do Brasil. Suas declarações publicadas em artigos de seu blog caem bem para um ativista radical, mas geram inquietação quando vindas do número um do Itamaraty. Outros sinais preocupantes emanam dessa área: o anúncio prematuro e desnecessário de que a embaixada brasileira em Israel seria transferida para Jerusalém, os pitacos de Eduardo Bolsonaro, que outro dia apareceu com um ‘boné Trump’ em viagem para os EUA, e a continência que o presidente eleito prestou a um assessor de Donald Trump que o visitou em sua casa, na minha opinião um sinal de subserviência. Os otimistas alegarão que o Itamaraty será desaparelhado, que se guiará pelo pragmatismo comercial e que o apoio ao governo americano, em um momento em que o mundo geralmente o detesta, pode trazer benefícios ao Brasil. O tempo dirá se estão certos. Espero que sim, mas enquanto não temos seu veredicto, seguirei com a pulga atrás da orelha.

O novo ministro da saúde, Luis Henrique Mandetta, ortopedista e deputado federal pelo DEM-MS é um nome que agradou a comunidade médica. Suas declarações passadas sobre temas da área, resgatadas da web, me pareceram ponderadas, pelo menos a um leigo curioso como eu. Contra si, denúncias do MP do tempo em que foi secretário em seu estado natal, que ele obviamente refutou. Bolsonaro deixou claro que envolvidos em denúncias consistentes de corrupção seriam afastados do seu governo. O futuro ministro da saúde é um alvo, ainda não um passivo para o presidente eleito, e já está incumbido de resolver em definitivo a situação do ‘Mais Médicos’, a princípio encaminhada, mas que ainda deve dar ‘pano para manga’. Uma aposta arriscada, pelo risco da denúncia vir a ganhar corpo no futuro.

Das pastas ainda sem chefes, a do Meio Ambiente e a dos Direitos Humanos são as mais críticas. Ambas até poderiam ser secretarias, mas pelo histórico das controversas declarações de Bolsonaro é bom que mantenham o ‘status’. Sabemos que os escolhidos (as) estarão alinhados à linha de pensamento do presidente, mas espera-se que também se imponham pela trajetória na área dos ministérios que comandarão. A ver.

Assumo neutralidade em relação aos outros nomes. Considero que Bolsonaro moderou o discurso após sua eleição, o que é ótimo. A metralhadora verbal funcionou na campanha, mas o exercício da presidência requer mais temperança e menos impulsividade. Marinheiro de primeira viagem no Executivo, o futuro presidente aprenderá os ossos do ofício no exercício do cargo. Não será o primeiro calouro a assumir a presidência, o antecessor Lula passou pelo mesmo processo. Aliás, tal qual o atual presidiário, o capitão também tem tudo para ser um líder popular. O jeito simplório, de quem toma lanche com visitantes na garagem de casa e a maneira direta de se posicionar caem no gosto da massa. Se ele souber conduzir esse ‘encaixe’, certamente terá um trunfo a seu favor, extremamente importante nos primeiros seis meses de mandato.

Iremos conviver com uma mídia claramente desfavorável ao presidente, não há como negar. A imprensa, em geral, cumpre o papel de ‘pedra’, é normal que governos de todas as matizes ideológicas apanhem bastante. O dia em que tivermos um jornalismo totalmente alinhado e servil aos detendores do poder, é melhor fugir, pois estaremos em uma ditadura. Embora esse viés oposicionista seja algo saudável e inerente a uma democracia, a má vontade de alguns setores com Bolsonaro transborda ressentimento e compromete a qualidade técnica, exemplo disso foi a denúncia não comprovada do caso do ‘WhatsApp’ a poucos dias do primeiro turno, feito pela Folha de São Paulo. Nesse cenário, sabemos que filtros serão necessários na avaliação das notícias. Declarações infelizes serão amplificadas e muitas vezes tiradas do seu contexto original. Algo me diz que os ‘Bolsofilhos’ serão protagonistas desses casos.

Temos ainda um mês até a posse e dois meses para que o novo Congresso assuma. Aliás, não faz nenhum sentido que novas legislaturas comecen com trinta dias de defasagem em relação ao Executivo, uma situação bastante ineficiente. Será um período com prováveis polêmicas e eleições para as mesas diretoras da Câmara e do Senado no horizonte, posições críticas para o bom andamento das diversas votações.

A partir do ano que vem, o Brasil precisa ser reformado, e rápido. Jair Bolsonaro foi o escolhido para ‘tocar o barco’. Espero que não nos decepcione. O brasileiro já se desiludiu muitas vezes, é hora de confiar que o futuro será finalmente melhor. Por ora, entre trombadas e acertos, a expectativa segue favorável.