Epílogo: o reencontro entre o mestre e seu discípulo

*** Essa é uma obra de ficção e seu conteúdo está repleto de ironias***

 

‘ Mestre!’

‘Fernando,, quanto tempo!’

Seguiu-se um abraço angustiado entre mestre e discípulo no quarto minúsculo em que o ex-gênio da política vivia enclausurado.

‘Eu lamento, mestre. Deu tudo errado.’

‘Eu sei, Fernando, foi uma surra. Mas hoje estou chateado com outro assunto. O acampamento dos companheiros que ficava no terreno aqui perto também está indo embora. Vou me sentir sozinho.’

‘Acabou o estoque de mortadela, mestre?’

‘Sim, e a cachacinha que o Jacques me trouxe também…’

‘Mestre, se soubesse eu trazia uma 51. ‘

‘Não tem problema, o Zanin me providencia semana que vem. Não dá para ver o programa da Fátima Bernardes todo dia sem uma caninha…Me diz uma coisa, e aquele traíra do Ciro Gomes, como anda?’

‘Batendo muito na gente. Quer montar uma frente de oposição sem nós. Mestre, por que você voltou atrás naquele lance de ministério da Fazenda? Aquilo podia trazer o apoio dele…’

‘Olha, Fernando, eu pensei bem e conclui que ao meu redor só quero pau mandado. O Ciro ia me dar muito problema no Ministério da Fazenda’

‘Mas agora ele quer o protagonismo da oposição, mestre!’

‘Relaxe, Fernando. Esse aí sempre morre pela boca, é só provocar. Na hora certa, ele morde a isca. Me conte uma coisa, o UOL tem me colocado nas manchetes?’

‘Olha, mestre…Manchete de chamada, em negrito, nunca mais.’

‘ Mas e essa minha última ação em que entramos pedindo liberdade por causa do Moro, não causou? ‘

‘ Mestre, não. Você tem que levar em consideração que é o enésimo pedido igual. Daqui a pouco esse tipo de ação não pega nem nota de rodapé da Folha de SP!’

‘ Mas a turma do UOL me prometeu…! Pelo menos eles estão pegando no pé do Bolsonaro?’

‘Isso todo dia, mestre. Sem falta.’

‘Menos mal. E onde é que eu ainda sou notícia, Fernando?’

‘Você não sai do 247, mestre. Tem a Carta Capital também.’

‘Ninguém lê isso aí, Fernando. É pregar para os convertidos.’

‘Mestre, estava pensando… Por que você não pede desculpas?’

‘Desculpas? E por que?

‘ Sei lá, mestre. Pelo triplex, pelo sítio, pela roubalheira, pela Petrobrás… ‘

‘ Você está de sacanagem comigo, Fernando!!! Que ideia de jerico é essa? Pedir desculpas pela roubalheira? E o meu discurso de vítima, coloco onde? Não quer que eu te responda isso, não é? Que palhaçada!!!’

‘ Mestre, é que está rolando um meme que faz analogia ao Onyx pedindo desculpas pelos R$ 100mil de caixa dois, pensei que se você pegasse carona, poderia ganhar boas páginas de mídia. ‘

‘ Olha só, Fernando, não me compare a um tipinho como esse. Se é para me comparar com bandidão, minha referência é o Zé Dirceu. E essa história de pedir desculpas não é comigo. Já fiz isso no Mensalão e todo mundo foi preso, não adiantou!’

‘Você não foi, mestre’

‘Verdade, mas estou aqui agora e os mensaleiros… todos soltos, menos aquela anta do Pizzolato que resolveu fugir para a Itália, burrão.’

‘Mestre, tudo indica que virá mais uma condenação. O processo do sítio está difícil de defender.’

‘Eu sei, Fernando, eu sei. Essa justiça fascista não deixa nem ex-presidente ter um sítio, depois de tudo que fiz pelo Brasil. Sou um injustiçado.’

‘Claro que é. Vamos esperar que responda em liberdade. Quando você acha que consegue sair dessa pocilga, mestre?’

‘Se você tivesse vencido as eleições, em Janeiro eu puxava o carro…agora acho que só quando pautarem a segunda instância, deve ser depois do Carnaval. Até lá tenho que aguentar essa marmita de arroz, feijão, farofa e carne de panela. Deve ser acém…Ninguém merece, Fernando… ‘

‘ Mestre, na boa, pelo menos você tem uma privada particular, isso não tem preço. ‘

‘ É o mínimo, não é Fernando. Afinal, fui presidente dessa bagaça!’

‘ Com certeza, mestre. Você é e sempre será nosso ídolo. Pense no lado bom, você resistiu a um inverno em Curitiba, o tempo vai melhorar agora.’

‘ Fernando, me faça um favor, saia sem falar com jornalistas. Vamos deixá-los sem declarações minhas por um tempo. Assim quem sabe em breve eu não volte para a manchete principal do UOL.’

‘Seu pedido é sempre uma ordem, mestre!’

Mais alguns minutos de amenidades e o policial encarregado da vigilância do andar avisa que o tempo de Fernando havia acabado e o seu mentor deveria voltar à solidão da cela, o que foi prontamente atendido após efusiva despedida.

O mestre, novamente solitário em seu cubículo, ligou a TV, que transmitia uma coletiva de Sergio Moro, seu primeiro algoz. Irritado, desligou o aparelho. Tentou dormir, em vão. Sofria. Agora lhe restava aguardar pela visita de seu sábio advogado, para elaborarem mais um plano infalível com o objetivo de sair da prisão. Cedo ou tarde, ele conseguiria. Mas tinha ciência que não seria em 2018, um ano maldito, do qual ele jamais se esquecerá.

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    Sonia Maria Pedrosa Silva Cury

    11 de novembro de 2018 em 14:15

    Perfeito, Victor!!! Deve ser exatamente isso!!1 Parabéns!

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