Desabafo de um torcedor desiludido

Minha memória futebolística remonta aos dois ou três anos idade, quando jogava bola no quintal de casa com meu avô paterno, que me transmitiu a paixão pelo Vasco, herdada de seu pai, meu bisavô, Adão Gomes da Silva, português estabelecido na juventude em Niterói, há 100 anos.

Sou boleiro desde esse tempo, são quase 45 anos. Na infância, tinha dois times: o Coxa, com o qual simpatizo até hoje, time do meu pai, e o Vasco, meu time de coração. Recordo-me bem do meu primeiro jogo ao vivo, Coritiba 2×0 Toledo, no Couto Pereira, por um campeonato paranaense dos anos 70, em 78 ou 79. O primeiro do Vasco, no mesmo estádio, em 79 ou 80: um empate contra o Atlético PR (1×1), quando entrei de mascote. O goleiro Leão não quis me dar a mão, e acabei subindo ao campo de mãos dadas com o Roberto Dinamite. Sorte minha. O evento foi fotogrado pelo meu pai, a relíquia foi enquadrada e encontra-se preservada em meu celular.

Futebolista fanático, sempre que possível ia aos estádios, fosse no Rio, Curitiba, Campinas, São Paulo ou mesmo fora do Brasil. Sou daqueles que lembra detalhes das partidas, nome de jogadores, placares. Até há pouco tempo, acompanhava as mesas redondas após as rodadas, aquela enfadonha repetição de assuntos cujo interesse é inexplicável para as mulheres. Tive vários momentos de alegria nos anos 80 e 90, assisti a memoráveis esquadrões vascaínos ganharem todos os títulos possíveis (exceto um Mundial, com dois vices, um deles presenciado ao vivo), mas esse período terminou em 2001.

Sendo mais específico, desde o último título brasileiro, em 2000, o Vasco acumulou 3 títulos cariocas, 1 Copa do Brasil, alguns vice campeonatos e 3 rebaixamentos. Um histórico horroroso, que o coloca como time não mais que medíocre nesse século. Uma sucessão de administrações incompetentes e amadoras, iniciada por Eurico Miranda, sucedida pelo desastroso Roberto Dinamite, que de tão ruim trouxe de volta o Eurico, sucedido pelo não menos inepto Alexandre Campelo. A falta de dinheiro não é justificativa para a crise que já dura duas décadas, uma vez que outros clubes em situação financeira igualmente precária brilharam muito mais no período.

Nesses 18 longos anos, houve um espasmo. O time de 2011, campeão da Copa do Brasil, só não ganhou o brasileiro do mesmo ano pela covardia do então técnico Cristóvão Borges, satisfeito com um empate em casa (2×2) contra o adversário direto pelo título, o Corinthians. Naquele momento, o Vasco estava 2 pontos à frente, e uma vitória o faria abrir cinco. Foi vice com dois pontos atrás…

No ano seguinte, a derrocada definitiva se deu com o gol perdido de Diego Souza no histórico jogo também contra o Corinthians, pelas quartas finais da Libertadores, seguido de uma bola no travessão. Eu estava nas cadeiras do Pacaembu e presenciei o estádio em silêncio durante os poucos segundos de arrancada do atacante vascaíno, após uma roubada de bola em sua intermediária, até ficar diante do goleiro Cassio, que com a ponta dos dedos, espalmou para escanteio. Fosse gol, o destino da partida estaria selado, já que o time da casa precisaria de dois em vinte minutos, algo improvável.

Mas a realidade foi outra e dali a 15 minutos o Corinthians anotava seu gol e ainda resistiu com mais uma bola na trave. Naquele dia, dois times se encontravam no meio da ladeira. Um subiu rumo à glória e outro desceu rumo ao fundo do poço. Desde então, foram mais dois rebaixamentos e uma série de humilhações. Exceto os rivais cariocas, poucos times do Brasil não aplicaram uma vitória maiúscula sobre o outrora gigante da colina, surrado dentro e fora de casa, indistintamente.

Recentemente, dois títulos cariocas enganaram o torcedor, aliado a uma campanha até que razoável no Brasileiro ano passado, quando terminou em sétimo e até vaga para Libertadores conseguiu. Mas vamos falar sério, os estaduais hoje não passam de ‘esquenta’ para a temporada e o nível do campeonato brasileiro é baixo. Como era de se esperar, a campanha na Libertadores foi pífia, com eliminação na fase de grupos, seguida de outras na Copa do Brasil e Sulamericana. Mais uma vez, o Vasco joga para não ser rebaixado.

Mesmo assim, o clube ainda consegue colocar 35 mil pessoas no Maracanã para vê-lo perder em uma partida corriqueira. Sofredores, como eu, que teimam em acompanhar seu time. É bem verdade que esse ano eu cancelei o ‘premiere’ e deixei de assistir aos jogos. Era um festival de ruindade e eu perdia tempo com aquilo. Ontem, por acidente, sintonizei em um canal que transmitia Vasco x Santos e já no começo da partida estávamos em desvantagem, como de praxe. Desliguei no segundo gol e ainda houve mais um, para caracterizar outra goleada.

Cancelar o ‘premiere’ não foi suficiente, pois ainda acompanho os placares em tempo real pela web. É melhor ler do que assistir ao show de horror. O próximo passo é saber do resultado após o jogo, ainda chego lá.

Poucos clubes tem maltratado tanto a sua torcida quanto o Vasco. Ela é a última fronteira que mantém o clube no rol dos grandes, pois em termos de resultado, receita e estrutura, já não é. O hino do clube diz que ‘sua imensa torcida é bem feliz’. Com certeza já não está feliz, apenas uma questão de tempo para deixar de ser imensa.

Já nem ligo para as piadas, que se tornarem rotina. Aliás, até perderam a graça. Daqui a pouco o Vasco se tornará uma Lusa, que nem motivo de piada é mais. As declarações dos jogadores após as partidas, sempre com pedidos de desculpas por mais um papelão, me cansam.

Haja paciência. A minha já acabou. Se já é muito desagradável torcer para um time ‘café com leite’, vê-lo frequentar a segundona com a autoridade de sócio honorário é inadmissível. Não aguento mais um rebaixamento. Operação desapego, nível máximo, ativada.

 

1 Comment
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1 comentário

  1. Alexandre Oliveira

    2 de setembro de 2018 em 14:05

    Certamente o seu sentimento, traduziu a de todo o torcedor vascaíno, muito ruim a situação em que se encontra o Vasco, ainda o considero um time grande, no sentido de torcida e história, mas precisa de mudança e precisa ser urgente!!

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