A desconstrução de uma péssima ideia

12 de agosto de 2018 Por Victor

Ciro Gomes afirmou na Globo News que iria tirar os 63 milhões de brasileiros do SPC. De certo por julgarem que se tratava apenas de retórica transloucada de campanha, os jornalistas não exploraram o assunto. No debate da Rede Bandeirantes, o político de Sobral voltou a insistir no tema, já espalhado como proposta séria em suas redes sociais. O pior é que vi gente elogiando a medida, demagogia em estado puro, e a maior ideia de jerico proferida por um candidato até o momento, nem o cabo Daciolo chegou perto de tal proeza. Vamos aos esclarecimentos sobre as várias armadilhas que essa aparente boa intenção esconde.

Primeiramente, é importante dizer que o contingente de pessoas que estão com o nome incluído nos birôs tem dívidas em aberto há algum tempo. Muito embora o credor possa incluir o devedor no cadastro negativo a partir do momento da inadimplência, a grande maioria não o faz imediatamente, mas a partir dos 30 dias após o vencimento. Assim, um benefício que contemplasse os ‘negativados’ excluiria os adimplentes e aqueles com pouco atraso. A medida tem potencial de gerar um estímulo aos tomadores de crédito não pagarem suas contas, o que é algo muito sério, que no limite pode quebrar o sistema financeiro. Apenas esse argumento já seria o suficiente para classificar a ideia ‘cireana’ como uma grande bobagem, mas esse nem é o pior efeito colateral.

Boa parte desses inadimplentes são devedores do mercado financeiro, mas há um contingente razoável que transita pelas pequenas empresas, que nem sempre incluem seus devedores no birô e adotam um processo de cobrança rudimentar. Uma ação do governo que subsidiasse inadimplentes beneficiaria portanto os grandes credores: bancos. Se os 63 milhões de devedores possuírem uma dívida média de R$ 3 mil, informacão que não está disponível, mas parece ser razoável, teríamos um montante de R$ 200 bilhões impactado pela ideia de jerico, 142% do déficit público previsto em orçamento para esse ano (por volta de R$ 140 bilhões).

Como o governo não tem dinheiro, a saída provavelmente seria estimular o refinanciamento das dívidas via BNDES ou bancos públicos, com taxas de juros camaradas. Ou seja, o contribuinte estaria financiando uma gigantesca capitalização de bancos privados às custas do contribuinte. Boa parte dessa dívida já foi provisionada na sua totalidade em seus balanços, outra parcialmente, mas o fato é que a solução das dívidas injetaria dezenas de bilhões de reais no caixa das maiores instituições financeiras do país, constituindo-se em uma gigantesca transferência de renda de pobres para ricos. E o pior, as novas dívidas estariam provavelmente nas mãos dos bancos públicos, que assumiriam o ônus do crédito ruim de toda a indústria.

Mas e os 63 milhões de supostos beneficiários? Bem, aqui vale uma explicação ao candidato de como funciona a indústria de crédito. À medida que avança o atraso de uma dívida, as condições de renegociação ficam mais flexíveis ao devedor, o mercado já pratica descontos vultosos e prazos extensos para obter o compromisso de pagamento. Se não consegue, provavelmente não é por falta de opção, e sim por ausência de emprego e renda na outra ponta. Some-se a isso o fato de que os índices de inadimplência de quem fecha acordos em dívidas muito atrasadas são bem mais altos que a média, pois a reincidência é bastante comum. Ou seja, se a ideia de jerico implica em facilitar renegociações através de instituições públicas, elas constituiriam novas carteiras de crédito de baixa qualidade e criariam billionárias provisões em seus balanços, um verdadeiro desastre que poderia inclusive levá-las à bancarrota, requerindo resgate do Tesouro…

Os devedores teriam um alívio momentâneo, e só. O fato de não estarem mais negativados não lhes concederia acesso a crédito barato, os mesmos não deixariam de ser tomadores de alto risco de um dia para o outro e continuariam pagando caro pelo dinheiro. Fatalmente retornariam ao cadastro negativo no curto prazo, com novas anotações, resultado de uma bolha de consumo cujo desfecho seria mais inadimplência.

Para terminar, somente um sujeito muito leigo pode achar que o cenário de zero inadimplência é possível ou sugerir que sua eliminação seja um objetivo. Quem trabalha com gestão de risco sabe que reduzir a inadimplência é fácil, basta fechar a torneira do crédito.

Mais que isso, a inadimplência por si só não é algo necessariamente ruim, mas parte de uma equação mais complexa que envolve apetite de risco, valor emprestado, prazo e spread. Mesmo uma economia a pleno emprego terá milhões de inadimplentes. A título de informação, quando o Brasil nadava de braçada, crescendo 7.5% ao ano e com desemprego inferior a 4%, no final da década passada, eles já eram quase 50 milhões.

Por quê então beneficiar os bancos responsáveis por decisões de crédito equivocadas, com dezenas de bilhões de reais de dinheiro público? A única explicação para tamanha barbaridade é a ignorância de como funciona esse mercado. Ciro Gomes está muito mal asessorado. Dilma Rousseff deve ter lhe ‘soprado’ essa sugestão, trata-se de uma intervenção típica da musa da mandioca, que tanto dano já causou à nossa economia.

Quer melhorar a situação dos devedores?
Proporcione emprego e renda, estimule a competição no sistema bancário mais concentrado do mundo, implemente o cadastro positivo. Soluções mágicas não existem e a divulgação de uma proposta tão equivocada quanto essa é um sinal de que precisamos ficar muito atentos ao risco dos demagogos mentirosos. O Brasil não pode repetir os erros da catastrófica gestão Dilma, já pagamos com uma geração perdida.