Últimas impressões (polêmicas) sobre a Copa

Voltamos mais cedo para casa, situação típica em três das quatro últimas Copas. Na única delas em que ficamos até o final, sofremos 10 gols nos dois últimos jogos. O retorno antecipado não deveria nos causar surpresa.

A Copa que caminha para seu desfecho nos proporcionará uma decisão inédita. Há chances de que um país pequeno se torne campeão ou que tenhamos mais um bicampeão.

Foi um torneio interessante, com boa média de gols (quase 2.6 por jogo), somente um 0x0, sofrimento dos grandes, que começou nas eliminatórias com a desclassificação da tradicionalíssima Itália, pode terminar com um surpreendente Bélgica x Croácia na final e alguns jogos épicos, como Portugal 3×3 Espanha, Alemanha 2×1 Suécia, França 4×3 Argentina, Bélgica 2×1 Brasil. Restam outros quatro.

O Brasil não brilhou. Vinha evoluindo ao longo da Copa, ascensão que foi encerrada no dificílimo jogo contra Bélgica. Ficarão teorias que servirão de assunto para muitas horas de boteco. Deixarei minha contribuição na forma de algumas afirmações polêmicas, destacando que são apenas opiniões de um dos duzentos milhões de treinadores em território nacional.

– Neymar sai da Copa menor do que entrou.

De todos os frequentadores do Olimpo dos craques estelares, era o que jogava no melhor time. Dele, esperava-se protagonismo e atuações decisivas. Ocorreu contra o México. Não foi uma Copa ruim, mas tudo na vida é uma questão de expectativa. Nesse sentido, ao não aproveitar a chance de brilhar, ele sai um pouco chamuscado. Nada grave, terá 30 anos na próxima Copa e quem sabe até lá rompa a fronteira que ainda o prende em uma adolescência tardia. Bola ele tem, mas com 26 já não pode ser chamado de moleque.

– O VAR é fenomenal.

Nenhum erro tosco. Alguns lances polêmicos, pois é impossível eliminar completamente a subjetividade, mas o saldo é muito positivo. A evolução de sua aplicação será inevitável, como permitir o desafio, solicitado pelos treinadores, tal qual ocorre no vôlei. Uma grata e necessária surpresa.

– Camisa não ganha jogo.

Coréia, Islândia, Suíça, Croácia, México, Bélgica e Rússia provaram isso pregando peças em campeões. Está na hora de acabar definitivamente com essa tese.

– Tite cometeu erros.

A insistência em Gabriel de Jesus talvez tenha sido o maior deles. A convocação de alguns jogadores se recuperando de lesão e não aproveitados foi outra (Taison e Fred). Seu trabalho foi bom, nos tirou do brejo, e a perda da ‘áurea’ de infalibilidade pode lhe ajudar. Roberto Martínez, espanhol treinador da Bélgica, foi superior no duelo tático. Reconhecer os erros é o primeiro passo para não repetí-los.

– Um líder em campo faz falta.

O Brasil mostrou que não sabia lidar com situações adversas. Sair perdendo como a mais clássica de todas, quanto mais um 2×0. Faltou alguém para chamar a responsabilidade para si e acalmar o time. Não gostei da ideia de rodízio de capitão, sinal de que se havia uma liderança, não era evidente. E se fosse, não foi reconhecida como tal pelo treinador.

– Um goleiro que não defende e um centroavante que não faz gol.

Três bolas difíceis no gol de Alysson em cinco jogos. Todas entraram. Não foram frangos. Mas um goleiro diferenciado se notabiliza por salvar alguns lances impossíveis. Estão aí os arqueiros de Bélgica e Inglaterra como exemplos. Por outro lado, a safra brasileira atual não tem nenhum fora de série. A carência se repete lá na frente. Onde já se viu o ‘9’ da seleção passar em branco em uma Copa? Função tática de centroavante é bola na rede. Teria sido melhor para Gabriel de Jesus, em má fase, ficar no banco. Melhor para carreira dele e para o Brasil. Afinal, nem do Manchester City o sujeito é titular!

– Não sabemos perder.

A história se repete em toda eliminação. Assim que termina o jogo, começamos a buscar os culpados e a arranjar desculpas. A sorte, essa desgraçada que sempre escolhe os vencedores, é mencionada. Zagueiros vilões, detalhes de uma jogada, enfim, quase todas as justificativas não mencionam o oponente. No caso atual, a Bélgica. Foi melhor. Taticamente superior. Como assim, ser pior que a Belgica? Pois é, acontece em esportes de alto rendimento. Os diabos vermelhos fizeram dois gols enquanto o jogo estava equlibrado e a partir dali administraram o resultado, esperando por um contra ataque. A obrigação do Brasil era partir para cima, e o fez. Mas vejam que em nenhum momento a Bélgica correu o risco de perder, apenas de ceder o empate nos 15 minutos finais. Empate. E sejamos racionais, nada garante que venceríamos uma prorrogação.

Serão 20 anos de estiagem de títulos até Qatar22, tempo suficiente para nos tornarmos humildes. A sucessão de três finais seguidas (94,98,02), aliado a um time galáctico baladeiro que naufragou em 06, certamente ludibriou o imaginário nacional. Ainda não caiu a ficha que aquela geração está aposentada há tempos e que não foi reposta à altura.

 

Mundiais sub20

 

Mundiais sub17

– Não cuidamos da base.

Estamos há 3 edições sem ganhar o mundial sub 20 e 7 sem o mundial sub 17. Em ambos os casos, a atual campeã é a Inglaterra, semifinalista na Rússia. Sinal de que colherão frutos desse trabalho de base daqui a duas ou três Copas. E quanto so Brasil? Não sabemos. A CBF, com seus presidentes encrencados com a justiça, não parece se dedicar com o mesmo afinco às categorias inferiores. Elas não são geradoras de receita, mas fomentam o futuro do nosso futebol. Quanto mais experimentados forem os atletas da seleção principal, menor será o impacto psicológico de partidas decisivas…

– Excesso de frescura

Talvez eu seja antiquado e não esteja adaptado aos novos tempos, mas essa história de levar cabeleireiro particular para a Rússia é difícil de aceitar. Vivemos em tempos em que os milionários atletas celebridades se expõem de maneira antes inimaginável, seja através das redes sociais ou mesmo via Internet. A preocupação com o visual passou a estar no topo de suas prioridades, já que eles se converteram no produto de si mesmos. Mas alto lá, a disputa ainda se dá dentro de campo, em uma competição de altíssimo nível. O atleta precisa estar focado, concentrado no torneio. Não vejo como distrações do tipo ‘qual será meu próximo corte de cabelo’ não sejam prejudiciais à preparação. São novos tempos, mas o jogo é o mesmo. Será que essa ‘frescurite’ é tipica dessa geração? Acho que não, tenho a impressão de que não é praxe em outras seleções.

– Copa é muito legal.

A dois meses da Copa, sempre nos deparamos com a notícia de que dessa vez o interesse está menor. Conversa fiada. Basta começar o torneio para percebemos o quanto ele mobiliza o planeta. Eu tenho em casa enciclopédias vivas sobre histórias das Copas, colecionadores de figurinhas e experts sobre os jogadores. São guris de 8 e 6 anos, que respiram o torneio bem antes do seu início. Trata-se de um negócio bilionário e apaixonante. Na sua grande final, no dia 15/7, um em cada três habitantes da Terra estará ligado na TV para assistir ao seu ‘último capítulo’ . É o maior evento do planeta e mesmo sendo um grande entretenimento, sua grandeza requer que seus protagonistas o levem muito a sério, enquanto nós, meros espectadores, nos divertimos. Que venha Qatar 2022, junto com a sexta estrela na camisa amarela e verde.

8 Comments
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8 Comentários

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    Andrea

    9 de julho de 2018 em 11:12

    Excelente!!! Você se superou nesta crônica Victor!!

    1. Avatar

      Victor

      9 de julho de 2018 em 21:49

      Obrigado, Andrea!!!

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    Márcia

    9 de julho de 2018 em 16:12

    Vou torcer para a Croácia!
    Você já pensou em ser professor de história quando você crescer????

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      Victor

      9 de julho de 2018 em 21:50

      Na próxima encarnação, Márcia!

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    IVANILDO DANTAS CALDAS NETO

    10 de julho de 2018 em 07:22

    Oi Victor. Texto completo e bem fundamentado. Me identifiquei com ele, pois resume bem o que vivemos nos dias de copa e o que temos de desafio pela frente. Acrescentaria um parágrafo sobre o país sede, que deu um show de simpatia aos visitantes e cuidou para que não houvesse nenhuma ameaça a segurança desse maravilhoso evento mundial.

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      Victor

      10 de julho de 2018 em 11:51

      Obrigado ivanildo

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    Volney Mesquita

    10 de julho de 2018 em 19:53

    Comentarios pertinentes, não tendenciosos. De algum modo , coincidem com minha opinião. Nao surte !!! Rsrs. Continue escrevendo! Excelente critica. Grande abraço.

    1. Avatar

      Victor

      11 de julho de 2018 em 00:20

      Obrigado, volney! Tamo junto Abs!!!

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