Empreendedor,  um herói

Não sou jornalista, mas preservarei minha fonte para história que segue. Essa semana encontrei casualmente um amigo que não via há uns cinco anos, em um posto de gasolina em São Paulo. Dessas coincidências fantásticas, já que o local se encontrava distante das regiões que costumamos frequentar. Aproveitamos o inusitado reencontro e conversamos brevemente sobre as atualizações da vida.

Contava-me o amigo de sua jornada como empreendedor do setor de serviços, após deixar uma carreira de sucesso no mundo corporativo. Seu breve relato, de poucos minutos, reforçou minha crença no heroísmo desses personagens, homens e mulheres que ajudaram a construir 18 milhões de micro e pequenas empresas, responsáveis por quase 60% dos empregos gerados no Brasil.

Primeiro caso: o enfrentamento da corrupção. Sim, os fiscais estão em todas as atividades, e os poucos honestos são exceções que comprovam o estereótipo do burocrata ávido por um ‘cafezinho’. Na situação que me foi relatada, uma multa injustificável de R$ 12 mil por que a ‘cortesía’ da casa não foi oferecida, quantia relevante para um pequeno empresário, que preferiu não se submeter ao sistema. Muitas vezes, essa opção não existe, uma vez que o empreendimento pode se inviabilizar em caso de insubmissão ao ‘status quo’.

Segundo caso: mão de obra. Na história que ouvi, um jovem foi ‘resgatado’ das ruas, onde perambulava como pedinte nos cruzamentos, com a proposta do primeiro emprego formal. Passados alguns meses, descobriu-se que ele roubava clientes. Não entrarei em maiores detalhes, mas destaco que a situação foi comprovada, e o funcionário convidado a pedir demissão, com o benefício de não ter que enfrentar um boletim de ocorrência seguido de justa causa. Pouco tempo depois, o óbvio: uma causa trabalhista sob alegação de coação no momento da demissão, dentre outras acusações. Apenas mais uma entre as duas milhões de ações abertas anualmente no Brasil (há dados que mostram que o pico ocorreu em 2016, com quase 3 milhões). Já vi planos de negócio que se convertem de rentáveis a inviáveis quando se adiciona a provisão com perdas trabalhistas.

Terceiro caso: justiça trabalhista. Munido de toda documentação que lhe daria ganho de causa, meu amigo foi abordado no intervalo da audiência pelo juiz do processo, que o convidou a fazer um singelo acordo de R$ 1mil, sob a justificativa de ajudá-lo a melhorar seu indicador de efetivação de ‘acordos’. Ciente de que uma negativa poderia lhe custar ainda mais caro, o pequeno empresário acatou a proposta. O aprendiz de ladrão embolsou ‘milão’ , o juiz melhorou sua estatística e meu amigo, cheio de boas intenções, ficou no prejuízo.
Em 2016, a manutenção da estrutura da Justiça do trabalho custou R$ 17 bilhões aos cofres públicos e confirmou ganho de causa no valor de R$ 8 bilhões aos reclamantes. Trata-se de um perfeito exemplo de ineficiência tipicamente brasileira.

Os três causos certamente serão familiares a todos aqueles que abraçam o empreendedorismo. Imersos em um ambiente hostil aos negócios, tratados como vilões até que provem o contrário pela justiça trabalhista, vítimas de uma burocracia infernal capaz de aniquilar seus sonhos, o empreendedor brasileiro é sobretudo uma pessoa de fé. A luta pela sobrevivência em um ecossistema programado para destruí-lo é diária. Não há como descrevê-lo senão como herói.

Em Outubro, é indispensável cobrar dos candidatos a qualquer cargo eletivo um posicionamento concreto sobre medidas para facilitar a vida desses milhões de batalhadores. Ao invés de criar problemas para um segmento gerador de riqueza e empregos, o Brasil poderia lhes proporcionar soluções. O empreendedor deseja crescer e não ter o estado a lhe atrapalhar já seria um grande avanço. Não é pedir muito, concordam?

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