Mecanismo decifrado

Apesar da raiva que despertou nos esquerdistas, chateados com a perda do monopólio da narrativa da história, a série Mecanismo, do consagrado José Padilha (Tropa de elite e Narcos), é a obra mais educativa a respeito da corrupção já realizada no Brasil e deveria ser conteúdo obrigatório em nossas escolas.

Inspirada nos eventos da Lavajato e seus diversos personagens do mundo político, policial, judiciário e empresarial, a série tem o ‘Mecanismo’ como seu principal protagonista. Trata-se do sistema através do qual agentes públicos e empresários corruptos sangram o estado em um ciclo infinito de obras superfaturadas e propinas billionárias. Onipresente, fornece o norte para todas as relações entre o público e o privado no Brasil. É o nosso câncer, jamais extirpado, que condena o país a um permanente estado quimioterápico.

As circunstâncias colocaram o PT no centro dessa grande engrenagem, já que por 13 anos esteve no topo da cadeia alimentar entre os partidos brasileiros. Empoderado, tratou de reforçar o mecanismo, de modo a se perpetuar na condição de maior predador da política nacional, concebendo a industrialização da roubalheira. É natural que sua base aliada seja mais alvejada pelos acontecimentos históricos. A série não faz distinção de caráter aos seus adversários, muito pelo contrário. As referências aos rivais tucanos e seu expoente máximo mineiro não são nada elogiosas. Mas o que a esquerda parece ser incapaz de entender é que o nível de protagonismo no período jamais será equivalente ao seu, pois quem detém o poder tem muito mais acesso a oportunidades de corrupção.

Assim como nos anos 90, os escândalos eram privilégio do PSDB e aliados, na década seguinte à honraria coube ao PT, em uma amplitude muito maior, proporcional ao seu domínio no cenário da época. É compreensível a mágoa petista, já que não houve uma Lavajato na era FHC, nem uma série da Netflix enfatizando a esbórnia. Eram outros tempos, com instituições mais frágeis, ausência de redes sociais e informação em tempo real; podemos dizer que o petismo cedeu à tentação na hora errada. Um azar histórico. Muito embora o mecanismo esteja impregnado no tecido social desde os primórdios, só agora temos as condições cívicas para escancará-lo e denunciá-lo, apesar de ainda incapazes de derrotá-lo.

Dito isso, a série transcreve com exatidão os acontecimentos chave da Lavajato, permitindo-se um nível de liberdade criativa ao redor dos personagens, que não compromete seu objetivo. A ficção, aliás, deixa a desejar. O protagonista vivido por Selton Melo é um chato de galocha, o romance entre a policial Verena e o promotor Cláudio não convence, tampouco o drama dos outros personagens, superficial. Entre as interpretações, uma menção honrosa a Enrique Diaz, irritantemente cínico no papel de Roberto Ibrahim (representando o doleiro Alberto Youssef). Não fosse meu interesse pessoal pelo assunto, diria que a série está tecnicamente inferior a Narcos, ao menos em sua primeira temporada.

Mas o enredo serve apenas de escada para a exposição da corrupção, sempre sob os holofotes. Ao longo dos episódios, a série apresenta sutilmente algumas teorias interessantes:

Um grande acordo para abafar a Lavajato sucumbiu com a morte de Marcio Thomaz Bastos. Não fosse esse evento, a PGR de Brasília poderia oferecer muito mais resistência ao trabalho dos procuradores de Curitiba, salvos pela providência Divina;

A série defende a tese de que a eleição de Dilma ajudou no progresso das investigações, pois a mais inepta julgava-se acima do bem e do mal, soberba e inatingível. Sua falta de senso de realidade fez com que ela não se preocupasse com o crescimento da operação. Fosse Aécio o eleito, teria agido com maior rapidez para abafá-la;

A rivalidade entre a Polícia Federal e o Ministério Público, citada frequentemente pela mídia, é explorada intensamente na série, a partir da relação ambígua de sentimentos entre a delegada Verena e o promotor Cláudio. A cena em que ambos disputam o protagonismo durante a apresentação da operação Juízo Final resume perfeitamente esse conflito. Tem-se a impressão de que o MPF está mais capacitado para enfrentar o mecanismo e que a PF não tem o mesmo acesso a recursos técnicos ou humanos;

Sérgio Moro é retratado como um juiz sério, corajoso e rigoroso, não como herói, papel que o cidadão comum equivocadamente lhe atribui, por desconhecer que ele é apenas um dos elos no combate à corrupção, igualmente confrontada pelo MPF e Polícia Federal;

O STF é descrito como um tribunal político, e as menções feitas à sua atuação são motivos de vergonha. É o sentimento que em geral a Suprema Corte desperta na população. A cena em que o personagem que faz alusão a Paulo Roberto Costa comemora na cadeia o fato do seu caso ter sido enviado ao Supremo é antológica. Nada pode ser mais desmoralizante. Nas próximas temporadas, a participação do tribunal aumentará. Estou curioso para saber como suas excelências serão representadas.

A primeira temporada focou no nascimento acidental da Lavajato, na prisão e delações de Youssef e Paulo Roberto Costa e na operação Juízo Final. Foi apenas o início dessa jornada. Desde então, há matéria prima disponível para mais algumas temporadas. O epílogo pode ocorrer na quarta, 4/4/2018, quando o STF se verá diante da oportunidade concreta de aniquilar com a operação, após quatro anos de frutífera existência. Seria um final triste, mas realista. O triunfo do mecanismo.

3 Comments
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3 Comentários

  1. sonia pedrosa

    3 de abril de 2018 em 11:35

    Victor, estamos ferrados!
    Se eu tivesse 30 anos, eu não estaria mais aqui.
    Grande abraço,
    sonia.

  2. José Tosi

    3 de abril de 2018 em 12:52

    Não desista, Sonia!
    Todos os adultos desse País, está fazendo o seu papel para construírmos um mundo melhor. É verdade que alguns trabalham ao lado do mal, mas isso é necessário para que consolidemos nossos passos.
    Por muitos anos, acreditamos em encurtar caminhos: para ficar em poucos…. Getúlio, Militares (com AI-5), Collor, Dilma. Ih! Ele esqueceu do Lula! Não esqueci, não está ali porque não estou discutindo bons e maus governos, mas, sim, aqueles que quiseram encurtar caminhos para uma sociedade justa e rica.
    Temos problemas estruturais sérios! Desde a Constituição desenhada de maneira torta porque direitos e deveres não estão equilibrados e distribuição de receita não é compatível com a distribuição de despesas que foram feitas, até nossa burocracia incentivada por cartórios e excessos de regras desaguando nas questões de micro e macro economia. Sem falar nas questões políticas.

    Sem dúvida, muita coisa para consertar! Mas, se você se permite gastar alguns minutos para acompanhar o Victor, não quero você longe daqui. Se você for embora, fará falta!

    O País que eu imagino que você queira, eu vejo na forma de pensar do meu neto de 11 anos. E eu não posso decepcioná-lo! Preciso de gente que me ajude a facilitar todo o processo de mudança que a geração dele irá comandar.

    O Brasil que eu imagino existirá e eu estarei nele! Mas na minha próxima encarnação!!! Agora, eu só preciso sair daqui correndo e buscar uma maneira de acreditar em encarnações!!!!!

    Não desista, Sônia!

    1. Victor

      4 de abril de 2018 em 01:17

      Na próxima encarnação deverá estar melhor mesmo, Tosi. Mas a luta agora é que seu neto desfrute dessa melhora ainda nessa vida…! Abs

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