Uma proposta para o Campeonato Brasileiro

O modorrento campeonato brasileiro chega ao seu final nesse Domingo, com algumas parcas emoções restritas à disputa por vagas na pré-Libertadores, Sulamericana e fuga do rebaixamento. Na parte de cima da tabela, como de praxe, tudo foi resolvido com antecedência.

Via de regra tem sido assim desde a concepção da fórmula de pontos corridos, adotada em 2003. Com algumas exceções em que a definição do título ocorreu na última rodada, o usual é que o campeão abra uma diferença razoável e seja conhecido com certa antecedência.

Na teoria, é o mais equilibrado do mundo. Dos clubes que disputaram a primeira divisão esse ano, quinze já foram campeões, além de dois outros que sofreram na Segundona. Na era dos pontos corridos, são sete os ganhadores. Mesmo assim, e também por causa do calendário, que acumula em paralelo a Copa do Brasil e competições sulamericanas, um time quase sempre acaba disparando e brindando-nos com o tédio da torcida ‘contra’.

‘É o mais justo’, dirão seus defensores. Não discordo, particularmente quando o campeão abre alguma vantagem. Porém, em 114 pontos disputados, estar à frente do adversário por somente um ou dois míseros pontos não chega a ser um exemplo de justiça. Nesse caso, uma final em duas partidas seria o tira teima ideal. Poucos questionariam o título obtido através de uma fase em pontos corridos e outra, derradeira, em ‘mata-mata’.

A combinação ideal de um campeonato une justiça e emoção, que normalmente rareia no Brasileiro. Mesmo nos jogos ditos decisivos, não há o clima de final, nem um desfecho definitivo. Muito diferente de um ‘mata-mata’. Recordo-me da partida que definiu o ‘Brasileirão 97’ no Maracanã, entre Vasco e Palmeiras. Quase 100 mil pessoas lotavam o estádio (público inviável para os dias de hoje), e o time carioca, de melhor campanha na primeira fase, detinha a vantagem de dois resultados iguais. Após o primeiro 0x0 no Morumbi, o placar seguia em branco até os 40 minutos do segundo tempo. Eu estava na arquibancada superior, atrás do gol onde o Palmeiras atacava na segunda etapa, quando Viola dominou a bola na intermediária do campo de ataque e livre de marcação, arriscou um tirambaço dali mesmo. A redonda tinha direção certa, o ângulo esquerdo do goleiro Carlos Germano, que voou para espalmá-la. Eu acompanhei sua trajetória, de pouco mais de um segundo, com aquela agonia tipica de quem sabia que um gol naquele momento seria um desfecho trágico para o meu campeonato. Com o escanteio, seguiu-se o alívio e a certeza de que a bola não entraria mais e fatalmente conquistaríamos o ‘tri’, confirmado alguns minutos depois para explosão de alegria dos milhares de  cruzmaltinos.

Experiências semelhantes já não são possíveis em campeonatos de pontos corridos, onde campeões são racionalmente definidos ao longo das 38 rodadas. Coincidência ou não, desde que esse sistema foi instaurado, o Brasil nunca mais ganhou uma Copa do Mundo, seus jogadores parecem ter desaprendido a controlar os nervos em partidas de ‘tudo ou nada’. Copiamos a Europa, onde os campeonatos são decididos quase sempre pelas mesmas equipes, sem que tenhamos o seu DNA futebolístico. E daí que no velho continente se faz assim ou assado? Por que não podemos fazer do nosso jeito?

Historicamente, nos acostumamos às finais. Por que não as resgatamos? Minha fórmula ideal para o campeonato brasileiro lembra aquela adotada no velho e charmoso campeonato carioca (não o atual, decadente). Classificam-se para as semifinais o campeão do primeiro turno, o campeão do segundo turno e os dois melhores colocados na pontuação geral. As equipes com a maior soma de pontos jogam por dois resultados iguais e fazem a segunda partida em casa. Mesmo critério aplica-se para a final. Caso o campeão do primeiro turno seja também o campeão do returno, está liquidada a fatura, sem final. Esse modelo exigiria somente quatro datas adicionais, perfeitamente adaptável ao calendário.

Como estaria o campeonato brasileiro hoje com esse sistema? O Corinthians seria o único time garantido nas semifinais, pelo título do primeiro turno. Teria também vantagem contra qualquer outro oponente pela melhor campanha. Na última rodada, cinco times estariam disputando o título do segundo turno: Palmeiras, São Paulo, Cruzeiro, Chapecoense e Vasco. Grêmio e Santos, além de Palmeiras, disputariam as duas vagas por índice técnico. Caso o Palmeiras não fosse campeão do returno, um deles poderia ficar excluído das semifinais. O Grêmio, mesmo concentrado na Libertadores, ainda teria chances de ser campeão brasileiro. A última rodada teria 7 equipes lutando por uma vaga nas semifinais, outras 4 brigando para não cair e 5 pela Libertadores. Sem redundância, seriam 14 clubes com algum objetivo forte, sem contar a disputa pela Sulamericana! E quando as seis partidas restantes ocorressem, teríamos casas lotadas e muita emoção, com todo clima que envolve uma decisão revigorando a disputa.

Nos tempos de campeonato brasileiro com o modelo de ‘playoffs’, as fórmulas variavam. Tivemos oitavas, quartas de final, quadrangulares, enfim – como tudo por aqui, sem muita consistência. O que proponho é apenas uma pitada de emoção, mantendo a racionalidade dos pontos corridos e o valor da melhor campanha, mas permitindo a possibilidade de recuperação aos clubes que começaram muito mal o campeonato (casos do São Paulo e Chapecoense nesse returno), além de brindar o torcedor com um desfecho sempre eletrizante.

Futebol, afinal, é entretenimento. Trata-se de uma indústria que vive da quantidade de aficcionados e audiência. Cuidar do ‘consumidor’ só traz benefícios aos seus participantes: clubes, jogadores, confederações, mídia, jornalistas esportivos, rádio e TV. Se todos ganham com essa alteração, não seria o momento de sair da ‘mesmice’? Vamos reinstituir o bom e velho ‘mata-mata’!!!!

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