A verdadeira reforma política

A reforma política ‘deu em água’. Melhor teria sido se as milhares de horas dedicadas ao assunto por centenas de deputados fossem canalizadas para algo mais produtivo. Desde o início, já se sabia que dificilmente mudanças significativas seriam aprovadas a tão pouco tempo do prazo limite para alterações na legislação.

Nem tudo está perdido. Articula-se nas salas e corredores do Congresso uma verdadeira revolução no sistema político brasileiro. Nada será como antes.

Os partidos, quase todos contaminados pelas práticas patrimonialistas, praga tupiniquim de Cabral a Cabral, resolveram adotar substantivos, verbos e adjetivos como nome. Assim surgiram os Democratas, Solidariedade, Rede, Novo, Avante e Podemos. No forno, está saindo o Patriotas. Elimina-se o ‘P’ que remete a partido, usa-se a criatividade e como em um passe de mágica, a agremiação expia seus demônios e começa uma vida nova.

Agora, o trio de partidos mais importante desde a redemocratização está prestes a mudar de nome, surfando a onda exploratória do vocabulário da língua portuguesa. A corrente sincera do PT quer adotar o ‘ROUBAMOS’. Convenhamos, seria o mea culpa que a sociedade tanto espera, não precisaríamos nem de uma carta de retratação. Seu chefe supremo discorda. O velho condenado prefere o ‘SOFREMOS’, em linha com seu discurso de vitimização. Há uma ala, minoritária, que deseja o ‘FUDEMOS’ e alguns diretórios regionais sugeriram o ‘CAGAMOS’. Mas tudo indica que prevalecerá o ‘ROUBAMOS’, cujo registro já foi solicitado ao TSE. ‘É a nossa marca, nosso legado, tem tudo a ver conosco’, disse um deputado petista, que não quis se identificar. O debate interno promete ser caloroso: ‘É verdade que roubamos. Mas cagamos muito mais’, defendeu um senador, que obviamente prefere o outro nome. O mais provável é que o PT Seja refundado na próxima convenção e lance a candidatura Lula pelo ‘ROUBAMOS’.

Quem não gostou muito disso foi o PMDB, que chegou a solicitar o ‘ROUBAMOS’ para si, mas posteriormente ao pedido do PT, que por isso tem preferência. Como de praxe, seus integrantes divergem sobre o caminho a adotar. A ala vinculada a Michel Temer recomenda o ‘PREVARICAMOS’, que apesar de retratar a realidade com precisão, é considerado formal demais pelo grupo do senado. ‘O cidadão comum não sabe o que significa prevaricar, ficará aquela percepção de mesóclise, muito a cara do Temer. Precisamos nos aproximar do povo’, disse um senador, que recomenda o nome ‘CONSPIRAMOS’. ‘É o que fazemos há três décadas, nascemos para ter esse nome’. Os deputados vinculados a Eduardo Cunha estão recomendando o ‘VENDEMOS’. Se ‘ROUBAMOS’ já tem dono, ‘VENDEMOS’ é o mais apropriado.
A decisão final será cozinhada lentamente, em banho maria, tal qual ocorre com as decisões usuais do partido. Não há favoritos, mas certamente o novo nome do PMDB será um dos três acima.

No caso do PSDB, a primeira polêmica é o mascote. ‘Tucano’ não dá mais, o desgaste é muito grande’, disse um deputado mineiro. Preferimos ‘Gatunos’, tem mais a ver com a nossa história’, tese rebatida por um colega paulista: ‘Pode ter a ver com a história mineira. O PSDB de São Paulo prefere tartarugas’. Se para o mascote os atuais tucanos não convergem, não menos complicada será a escolha do novo nome. ‘Também queríamos o ‘ROUBAMOS’, mas chegamos tarde demais’. FHC, seu eterno guru, sugeriu duas opções: a primeira seria um substantivo, ‘MURO’. A segunda, um verbo, ‘VACILAMOS’. A bancada paulista apoia um adjetivo, ‘OMISSOS’, opção que vem ganhando força. A indefinição prevalecerá até o último instante e a expectativa é que as divergências não causem mais uma disputa fraticida dentro do ‘OMISSOS’, ou melhor, do PSDB.

Renomeados, depurados e prontos para reiniciar a suas trajetórias. Será que teríamos uma disputa entre o ‘ROUBAMOS’, ‘PREVARICAMOS’ e ‘VACILAMOS’? Ou entre ‘CAGAMOS’, ‘CONSPIRAMOS’ e ‘MURO’? Outra opção seria entre o ‘FUDEMOS’, ‘VENDEMOS’ e ‘OMISSOS’. Logo saberemos. Não haverá mais partidos no Brasil. Seremos salvos pelo dicionário! Amém.

Ps* O texto ironiza nossa infelicidade usual com o sistema partidário brasileiro. Não é para ser levado a sério. Mesmo nos momentos mais tenebrosos, não podemos jamais perder o senso de humor.

Ps2* Após o encerramento da edição desse artigo, o PSOL informou que se transformará no CUSPIMOS e o PP em SAQUEAMOS…

4 Comments
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4 Comentários

  1. Maria da Graça

    6 de outubro de 2017 em 12:31

    Parabéns pelo texto. É muito bom começar a sexta-feira com todo esse humor. Obrigada…. .

  2. Márcia

    7 de outubro de 2017 em 00:31

    Reforma, qualquer que seja, dá um super trabalho…… não é todo mundo que está afim de encarar uma reforma e deixar tudo limpo no final da obra!!!!

    1. Victor

      7 de outubro de 2017 em 02:21

      Quase ninguém….

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