O Brasil de ‘Jôs’ e ‘Rodrigo Caios’

Aviso os navegantes que esse artigo não trata de futebol, mas de comportamento. Faço isso para desinflamar com antecipação as paixões geradas por essa gigantesca indústria do entretenimento, que servirá como pano de fundo para distinguir o Brasil novo, ainda embrionário, do velho, com o qual estamos acostumados a lidar desde sempre.

No confronto entre São Paulo x Corinthians pelas semifinais do campeonato paulista, após o árbitro anotar uma falta do atacante Jô sobre Rodrigo Caio, este último o corrigiu, informando que o lance havia sido normal, evitando assim uma punição maior ao adversário, que poderia ser um cartão amarelo, vermelho e certamente suspensão para a partida seguinte. Inusitada para os padrões brasileiros, a atitude do zagueiro tricolor irritou alguns de seus colegas e o então técnico Rogério Ceni, e gerou uma crise nos vestiários. Não foram poucos os torcedores são-paulinos que também condenaram a postura honesta do seu defensor, muito embora ele tenha recebido aplausos de boa parte da mídia e dos rivais, dentre eles o atacante Jô, seu beneficiário direto.

Para os críticos de Caio, o objetivo de vencer a qualquer custo se sobrepõe à atitude honesta que beneficie o oponente, como se o futebol fosse algo blindado do resto do cotidiano. Até que ponto essa tolerância com os pequenos ‘delitos’ futebolísticos não transcende os limites do gramado?

Eis que no último final de semana, um dos protagonistas do causo voltou aos holofotes: o atacante Jô, que tanto havia elogiado seu colega tricolor pela nobre atitude, aos 25′ do segundo tempo da partida contra o Vasco, desvia a bola com o braço e marca o único gol da partida, em um lance descaradamente irregular. Ignorando a situação, o atacante parte para comemorar com a galera, ensandencida com a vitória do seu time, que recobrava a dianteira de 10 pontos sobre o segundo colocado no campeonato.

Questionado ao final da partida sobre o gol ilegítimo, Jô saiu pela tangente, disse que não percebeu em que parte do corpo a bola tocou, e no limite, atribuiu ao árbitro a responsabilidade sobre o lance; afinal, se ele validou o gol, é por que o mesmo foi legal. Conversa duplamente fiada, já que todo boleiro sabe onde a bola toca o corpo e que uma decisão do árbitro está longe de ser a verdade absoluta sobre o lance. O atacante corinthiano, artilheiro do Brasileirão, perdeu a grande chance de se consagrar como outro símbolo da mudança de ares no Brasil, pois é muito mais difícil anular o próprio gol do que invalidar uma falta inexistente.

Cabe destacar, como atenuante, que pelo menos 9 em cada 10 jogadores brasileiros agiriam como Jô, reverberando o ‘se colar, colou’. Também não podemos esquecer que outros erros, menos explícitos, ocorreram ao longo do torneio sem que seus protagonistas esboçassem a reação que foi exigida do atacante. Contra ele pesa o fato de ser o beneficiário da inusitada atitude de Rodrigo Caio e de que não se cansou de elogiá-la. Ao cometer a infração e ignorá-la na ‘cara dura’, Jô transformou-se em um grande representante do grupo ‘faça o que eu digo, mas não o que eu faço’.

Há três décadas, a Argentina gabava-se do gol por ‘la mano de Díos’, visto por todo planeta exceto o trio de arbitragem, anotado por Maradona na semifinal da Copa de 86 contra a Inglaterra, decisivo para o bicampeonato.

Alguns anos depois, provou do próprio veneno, ao ser eliminada da Copa América por um gol do brasileiro Túlio, em circunstâncias semelhantes. Brasil que em 1962, safou-se de um jogo complicadíssimo contra a Espanha, após Nilton Santos ludibriar a arbitragem, dando um passo para fora da área a fim de não caracterizar a falta que cometeu como pênalti. São inúmeros os exemplos similares ao longo da história, particularmente pelas bandas latinas do mundo.

No futebol globalizado, há cada vez menos espaço para esse tipo de mentalidade. Na Europa, não é de hoje que a malandragem é rechaçada, um gol como o de Jô não seria louvado, mas execrado. Um contraste com os trópicos, onde chegamos a ouvir de um jogador, e não faz muito tempo, que ‘ganhar roubado é mais gostoso’, com uma certa complacência da torcida beneficiada.

Voltemos ao Jô. Para os que o eximem de culpa por considerar que a situação era muito complicada para assumir o erro, façamos uma analogia: em uma concorrência pública, uma empresa privada sente-se obrigada a pagar propina a um agente do estado, sob a alegação de que sempre foi assim e que seria muito complicado fazer negócio sem transgredir a regra, argumento semelhante ao que poderia ser utilizado pelo funcionário público corrompido. Ambos sustentariam que a quantia era pequena demais para prejudicar a sociedade como um todo, caracterizando o assunto como irrelevante. É o ‘caso Jô’ transportado à esfera pública.

Outro dia assisti a um vídeo do Geddel Vieira Lima, aquele dos R$ 51M nas malas, no qual fazia uma defesa veemente do combate à corrupção, colocando-se ao lado da população contra os ladrões do dinheiro público: a hipocresia elevada à milésima potência. Ouvir as declarações do Jô sobre a ética no futebol, logo após o evento com Rodrigo Caio, soa hoje aos meus ouvidos como a ‘cantiga do Geddel’. Impossível não qualificar como vergonhoso.

Leio também que o causo estaria merecendo uma publicidade desproporcional; ‘não seria para tanto’. Será mesmo? Será que não desejamos que o nosso país tenha mais ‘Rodrigo Caios’ e menos ‘Jôs’?

Sem a pretensão de fazer qualquer juízo de valor sobre o caráter de ambos, no contexto em que a integridade foi colocada à prova, sob a tentação de receber um benefício ilegítimo, quem foi o melhor exemplo de comportamento? Quantas vezes nos deparamos com situações parecidas em meio às miudezas do cotidiano?

Não foi apenas um gol de mão. O conjunto das circunstâncias nos oferece uma ótima oportunidade para refletir sobre o país em que vivemos. O país de ‘Jôs’ é o que sempre tivemos. O país de ‘Rodrigo Caios’ é que desejamos. Não podemos exigir que as transformações partam somente das ‘autoridades’, ou dos empresários, elas precisam se manifestar nas pequenas atitudes do dia a dia, entre nós.

É possível que Jô tenha sido um azarado. Esse gol não lhe faria falta, nem ao Corinthians, futuro campeão brasileiro. Mas ele estava lá, esticou o braço e saiu para o abraço. Um gol entre centenas que fará na carreira, e uma oportunidade de fazer história que talvez nunca mais lhe apareça. A opção foi pela mesmice, mediocridade, malandragem: a coroação do Brasil velho. Quem sabe um dia esse tipo de atitude seja exceção, e a de Rodrigo Caio, a regra. Utopia?

 

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