Cupins da mesma madeira

Vamos começar esse artigo refrescando a memória: PT e PMDB foram sócios majoritários da aliança que governou o Brasil por 13 anos. Embora o primeiro tivesse a hegemonia em algumas áreas, principalmente a econômica, ambos conviveram harmonicamente durante esse período, cada qual com um naco de estado para chamar de seu.

O gigantesco sistema de corrupção concebido nas entranhas das estatais, sendo a Petrobrás seu exemplo mais notório, mas não o único, teve o aval de ambos os partidos, e seus expoentes máximos, Lula e Temer, não seriam inocentes úteis nessa história. Inocência é acreditar que ambos não fossem protagonistas do esquema.

Hoje, assistir aos petistas e esquerdistas em geral baterem no governo Temer como se ele fosse a raiz de todos os males do Brasil é um verdadeiro espetáculo circence. Afinal, todos os seus envolvidos nos escândalos de corrupcão fizeram parte dos governos Lula e Dilma, ora como ministros, ora como executivos graúdos em estatais estratégica$. Fossem coerentes, os críticos mordazes do presidente, à esquerda do espectro político, torpedeariam o PT e seus asseclas com a mesma intensidade e gosto que batem no moribundo governo de plantão. É uma questão de lógica. Mas não é o caso…

Do outro lado, temos o grupo que trucida o petismo, não sem razão, mas faz vistas grossas aos desmandos de Temer e seus correligionários, a quem consideram um mal menor, por oferecer algum sinal de estabilidade à combalida economia. A opção nesse caso seria pelo banditismo ideologicamente alinhado a um padrão mais amistoso ao ‘mercado’. É um comportamento ético equivalente ao dos petistas: perdoa-se criminosos, desde que eles façam parte do seu ‘grupo de afinidade’.

Logo ao assumir o governo, Temer recebeu uma espécie de ‘trégua temporária’ de uma parte da população, não por suas credenciais, mas pelo cansaço com o governo deposto, incapaz de gerir o país. Envolvido até o pescoço nas novas denúncias da operação Lavajato, articulador de medidas impopulares (mas necessárias) e péssimo comunicador, seu governo carbonizou o escasso apoio popular que tinha, e hoje é aprovado por míseros 7% da população, sem perspectivas de melhoria. Cercado de personagens suspeitos desde sua concepção, não surpreende que tenha chegado ao estágio quase terminal tão rapidamente.

Lula, condenado em um processo, réu em quatro e com outras duas denúncias em andamento, está muito encrencado com a Justiça, e fará do ‘vitimismo’ o coração de seus pronunciamentos de agora em diante, politizando sua situação judicial.

Temer precisa de Lula para terminar seu mandato. Conta com a ameaça da popularidade do ‘santo homem’ para amedrontar parte da população que lhe rejeita, limitando seu ímpeto de ir às ruas para pedir sua cabeça (a de Temer). Seria uma espécie de impopularidade amorfa, com pouca pressão sobre o Congresso, que estaria menos propenso a afastá-lo sem o clamor das ruas. Além disso, quanto mais Lula estiver em evidência, seja por suas condenações ou declarações, melhor para Temer, pois ele absorve parte do foco do noticiário, suavizando as bordoadas que tem recebido diariamente. Para Temer, quanto mais Lula, melhor.

Lula precisa de Temer, como jamais precisou de alguém. Para fugir de uma mais que provável condenação em segunda instância, o que poderia inclusive colocá-lo atrás das grades, não lhe resta outra alternativa a não ser eleger-se presidente em Outubro/18. Esse objetivo seria facilitado diante de um governo fraco, fustigado pela retórica popularesca e superficial do ‘pai dos pobres’, personagem que ele assume sem pudor. Lula, o oposicionista, pensa ser capaz de influenciar os desmemoriados ou desinformados, que não sabem correlacionar a precariedade da economia com os desmandos da era petista. Ele alimenta-se da impopularidade do atual governo. Para Lula, quanto mais Temer, melhor.

Não deixa de ser uma ironia do destino que antigos aliados, convertidos em antagonistas pelas circunstâncias, sejam mutuamente dependentes para seguir em frente. São cupins da mesma madeira. Mas, como diz o ditado, falta a ambos ‘combinar com os russos’. Os russos somos nós.

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