O poder transformador das redes sociais na política

Pesquisa realizada pelo Ibope e divulgada nesse final de semana no Estadão indica que as redes sociais serão o meio de maior influência na escolha dos candidatos às eleicões de 2018. Posicionadas muito à frente de família, amigos, TV e celebridades (com capacidade ínfima de influência), essa nova modalidade de interação entre as pessoas, própria dos dias atuais, abre frentes interessantes no engajamento político da sociedade, até hoje incipientes.

Primeiramente, seu uso efetivo pode baratear as campanhas eleitorais. Uma mensagem eficiente tem a capacidade de viralizar com um ‘click’ e atingir milhares de pessoas, algo impensável no mundo antigo de santinhos em papel colorido e carreatas ineficazes. Campanhas mais baratas significam menor necessidade de financiamento dos candidatos e consequentemente reduzem a exposição aos ‘grandes mecenas’ da política nacional, doadores de vultosas somas de dinheiro sem esperar nada em troca’. Ironias à parte, apesar da nova legislação eleitoral ter reduzido a facilidade de acesso aos cofres alheios, ainda temos campanhas caras e suscetíveis à dependência de terceiros. Quanto maior ela for, mas fácil é a proliferação da corrupção. Então, será uma ótima notícia se de fato as mídias sociais forem capazes de alavancar candidaturas. O ideal é que as barreiras de entrada a quem deseja entrar na vida pública sejam mínimas.

Como não há boa nova sem efeito colateral, teremos que aprender a conviver e identificar as notícias falsas, espalhadas aos borbotões pela web e mídias sociais diversas. As famosas ‘fake news’ foram usadas largamente nas eleições presidenciais americanas e apesar de não haver um método preciso para identificar o quanto as mesmas interferiram no resultado, é consenso afirmar que sua participação foi relevante. Não há remédio para esse mal. Por mais que haja boa vontade dos ‘controladores de tráfego’ para eliminá-las, é missão praticamente impossível conter a sua disseminação. Ficará a cargo do (e)leitor separar o que é lixo do que presta, uma tarefa de alta subjetividade.

A maior influência das redes sociais tende também a amplificar antagonismos. Protegidas por um smartphone, laptop ou computador, as pessoas tornam-se mais rudes e intolerantes. A ausência de contato ‘olho no olho’ em muitos casos elimina a boa educação necessária para que duas pessoas interajam entre si. São frequentes as intervenções desrespeitosas na ‘timeline’ de terceiros, pela simples razão de que seu autor discorda da opinião do ofensor. Por outro lado, a intensidade no mundo ‘virtual’ geralmente não se transfere para o ‘real’, dificilmente ouviremos casos de desconhecidos que invadiram a casa alheia para ofender o dono por causa de suas opcões políticas. Apesar disso, os ânimos nas redes continuarão exaltados, não há sinal de arrefecimento no horizonte. É bom nos acostumarmos, trata-se de outro efeito colateral sem tratamento.

Melhor do que reclamar dos efeitos colaterais, é observar os reforços positivos de comportamento que as redes sociais proporcionaram. Nunca falou-se tanto em política, a população medianamente informada escala os ministros do STF com mais facilidade que a seleção brasileira, e a vigília contra os desmandos dos poderes executivo, legislativo e judiciário é imensa. O mal comportamento da politicalha pode não ser punido pelos seus pares, mas é execrado em tempo real por milhões de pessoas e isso é ótimo. Costuma-se dizer que a imprensa constitui o quarto poder. As mídias sociais são o quinto.

Como o Brasil não pode contar com o Judiciário para punir os políticos ladrões, a opção mais fácil é não reeleger a canalhada, e as redes podem contribuir muito para esse objetivo. O melhor de tudo isso é que você se torna automaticamente um influenciador de seu círculo mais próximo e eventualmente também de outros mais distantes. Sua opinião pode chegar a lugares por onde você nunca andou, basta algumas teclas digitadas, uns ‘clicks’ e pronto, você ecoará sua voz na multidão.

Essa é uma transformação extraordinária em relação à situação pré-redes sociais, onde o eleitor era um mero receptor limitado de informações. Hoje, ele também é um propagador não somente de informação, como também de opinião, de alcance desconhecido, às vezes exponencial, e com fontes praticamente ilimitadas. É o empoderamento dos anônimos.

No meu entendimento, o saldo da mudança é positivo. Os benefícios dessa nova realidade compensam os efeitos colaterais. Se isso for verdade, o Brasil terá chance de renovar seus quadros políticos de maneira significativa em 2018, livrando-se dos gatunos que nos ludibriam desde sempre (ou pelo menos de boa parte deles). Aos anônimos, o poder da transformação. Que o próximo ano se converta no pesadelo dos canalhas. Amém.

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