E naquele momento definitivo…você faz tudo errado (Parte II)

Em um texto do dia 2/3/17 (E naquele momento definitivo…você faz tudo errado) escrevi sobre a lambança na cerimônia do Oscar, focando na situação vivida por Warren Beaty, que teve condições de evitar o fiasco, mas em uma questão de segundos, titubeou.

O artigo que segue não tem conotação política, trata apenas do comportamento humano em horas decisivas e como atitudes equivocadas colocam tudo a perder.

Vamos agora ao caso de Michel Temer essa semana, quando viu seu frágil governo ruir a partir da divulgação do áudio de sua conversa com Joesley Batista no Palácio do Jaburu, residência oficial do presidente, ocorrida há dois meses.

Diferentemente de Clint Eastwood, que teve poucos segundos para raciocinar diante do inusitado, consta que Temer fugiu de Joesley Safadão por 45 dias, esquivando-se da conversa. Conclui-se daí, que boa coisa não era. Fosse um diálogo produtivo, não haveria razões para o presidente procrastiná-lo.

Qual o problema, afinal, de um presidente negar a conversa a um terceiro? Nenhum. Na pior das hipóteses, poderia enviar um de seus emissários, a ser queimado em caso de incêndio. Afinal, para isso servem os emissários nesse mundo da politicalha brasileira…

Mas Temer sucumbiu aos insistentes pedidos do Safadão, que tramava ardilosamente seu plano de fuga do Brasil, e o perdão para os seus crimes. Para isso, precisava entregar seus beneficiários. Dizem que tentou uma conversa com Renan Calheiros, raposa velhaca da política brasileira, que não lhe deu ouvidos. Com Aécio, pedinte insistente de milhões, foi mais fácil. E não faltaram palavrões.

Voltemos ao caso da dupla. Tivesse o presidente sido firme e negado a conversa, seu governo ainda existiria. No momento em que permitiu um encontro furtivo em sua residência, sigilosamente vergonhoso, Temer decretava seu fim. É provável que mesmo sem encontros, a delação da JBS teria exposto as vísceras corruptas do governo atual, mas seria outro caso em que os delatados clamam pelas provas materiais e contam com a lentidão do STF, e certamente a comoção seria menor. O governo, nesse caso, poderia ainda ter forças para manter sua base aliada.

Nesse momento, o presidente deve estar se lamuriando à Marcela; ‘por que fui receber aquele infeliz?’, talvez não tenha dado ouvidos a assessores ou talvez o tenha feito. ‘Não o receba, presidente’, ou um ‘Melhor recebê-lo e acabar com essa história, presidente’. O assunto certamente foi discutido com assessores: receber ou não, eis a questão. Dificilmente saberemos dos detalhes de bastidores.

Recebeu e se auto degolou. Vejam o que não faz uma decisão equivocada. Será que ninguém ao seu entorno fez soar o alarme: ‘cuidado para não ser gravado, presidente!’. Estamos em meio a uma crise sem precedentes, e Joesley indiciado criminalmente em cinco processos, essa não seria uma possibilidade remota. Ninguém o fez. O presidente está mesmo mal assessorado, ou foi asininamente teimoso, um amador. Quem abre a porta de sua casa a um sujeito com a ficha corrida do Safadão, só pode mesmo colher tempestade.

Como eu disse, o objetivo do texto não é se aprofundar no aspecto político da história, mas do contexto em si. Uma decisão, uma simples decisão, com potencial destrutivo exponencial, capaz de derrubar um governo e afundar mercados. E não estamos falando aqui de algo muito complexo, e sim de receber ou não alguém em sua casa.

Quantas vezes não passamos por isso em nosso cotidiano? Obviamente que nossas decisões não tem o impacto da visita do Safadão, mas podemos sim influenciar muito o círculo que nos cerca. Faça uma retrospectiva: em quantas e quais circunstâncias, assuntos aparentemente banais não se transformaram em grandes tsunamis? O que faltou nessas ocasiões? Provavelmente uma análise de cenários mais aprofundada, a leitura dos riscos envolvidos nas diferentes alternativas. É difícil fazer isso a todo momento, mas é o remédio para prevenções de catástrofes. Exige uma disciplina espartana.

Michel Temer falhou gravemente. Antes, durante e depois da visita. Mas ela, a decisão de receber um mecenas encrencado na surdina, foi o estouro da boiada. Ele pagará por isso, e o país também.

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