De olho nos novos prefeitos!

Tomaram posse ontem os prefeitos eleitos em Outubro e Novembro passados. Com exceção de poucos municípios que elegeram gente que acabou sendo presa antes da posse,  e dos 1.345 prefeitos reeleitos (24% do total), a maioria das cidades brasileiras começou o ano com novos administradores.

Essa safra de prefeitos traz consigo uma ótima notícia: o petismo desapareceu do controle das principais cidades brasileiras, após a surra espetacular que levou nas urnas. Além da boa nova, alguns nomes merecem ser monitorados de perto. Vamos a eles.

João Dória teve uma vitória acachapante na maior e mais influente cidade brasileira, terceiro orçamento do país. Elegeu-se com o discurso apolítico, intitulando-se experimentado ‘gestor’, contrariando a velha guarda do tucanato, que lhe fez bico. Substituirá a malfadada esperança petista de renovação, o ex-prefeito Haddad sequer foi competitivo para chegar ao segundo turno, após quatro anos de uma gestão muito mal avaliada pelos paulistanos. Suceder a um fiasco tem lá suas vantagens, já que as comparações podem lhe ser favoráveis, mas Dória terá diante de si um imenso desafio, pois São Paulo é uma cidade naturalmente complicada para se administrar e com uma população normalmente exigente na avaliação de seus prefeitos; não me recordo de nenhum deles se destacando entre seus pares de outras capitais nos últimos 30 anos. E se por um lado, a comparação com a gestão anterior pode lhe ajudar, por outro, o nível de expectativa também é alto. Dória estará sob os holofotes da imprensa nacional: se tiver êxito, será naturalmente alçado a voos maiores. Se for mediano, enterrará a tese do bom gestor e provavelmente seu futuro político. Eis um caso muito interessante para ser acompanhado de perto. Dória, para mim, é uma grande aposta.

Marcelo Crivella, senador pelo PRB do RJ, bispo da Igreja Universal e até então eterno candidato a um cargo majoritário na capital ou no estado, finalmente conquistou a oportunidade que tanto buscou. Até ontem, era o futuro prefeito mais mal avaliado do Brasil, sobre quem pairam todas as dúvidas de que possa fazer uma gestão razoável. Assume uma cidade com as contas em ordem e que recebeu uma enxurrada de investimentos para as Olimpíadas, um contraste e tanto em relação ao estado falido. Ao contrário de Dória, terá como comparação um período anterior de muito ativismo em infra-estrutura, e isso pode prejudicar sua avaliação. O fato de misturar política e religião também não ajuda e fomenta um ambiente de suspeição em relação ao caráter diverso de sua atuação. Conseguirá dissipar todas as dúvidas, contrariar todas as expectativas e fazer uma boa gestão? O tempo dirá. Ao contrário de Dória, Crivella não parece ter envergadura para voos maiores, seu triunfo eleitoral muito se deu pela fragmentação das candidaturas que resultaram em um segundo turno contra o mais radical dos esquerdistas. Não fosse por isso, talvez ainda estivesse senador. Crivella, para mim, é um grande azarão.

Até há dois anos, Belo Horizonte era a capital do futebol, com o Cruzeiro sendo duas vezes seguidas campeão brasileiro e o Atlético vencendo a Copa do Brasil e a Libertadores na sequência. Talvez por isso o destino reservou à capital mineira um prefeito boleiro, até seu adversário no segundo turno era um deles! Alexandre Kalil, do inexpressivo PHS, assume a prefeitura com a presidência do Galo em seu histórico. Tal como Dória, um estranho no ninho. Como todo dirigente de futebol, Kalil não tem papas na língua e adora uma frase de efeito, resta saber como se comportará nas negociações com a Câmara, uma vez que sua coligação não consegue lhe proporcionar maioria. É certo que administrar uma cidade do porte de BH é muito mais desafiador que fazê-lo para qualquer clube de futebol. Kalil, para mim, é uma grande incógnita.

Rafael Greca reassume a prefeitura de Curitiba vinte anos após a sua exitosa primeira gestão, nos tempos em que a capital paranaense desfrutava do auge de sua fama. De lá para cá, o bonachão das araucárias rompeu com seu padrinho político, Jaime Lerner, e aliou-se ao seu arqui-rival, Roberto Requião. Por causa dessa ‘trairagem’ sem precedentes, Greca foi desde então severamente punido nas urnas. Teve uma passagem pouco vistosa como ministro do Turismo de FHC ainda no século passado e depois disso parecia fadado ao ostracismo. Sabiamente, rompeu com o Hugo Chávez paranaese e buscou voo solo, pelo também inexpressivo PMN. Curitiba lhe concedeu uma segunda chance. Falastrão, faz a alegria dos jornalistas com suas entrevistas bombásticas. Será interessante observar se um bom prefeito do milênio passado consegue repetir o desempenho vinte anos depois, tempo suficiente para dizer que vivemos em outro planeta. Como ele mesmo diz, nasceu para ser prefeito, nada além disso. Greca, para mim, é uma grande nostalgia.

ACM Neto foi reeleito prefeito de Salvador com mais de 75% dos votos. Quase uma unanimidade entre os baianos, a jovem promessa do DEM está adquirindo musculatura para voos mais altos. A prefeitura lhe servirá de trampolim para o governo do estado ou para o senado. É muito difícil crer em uma mudança do eleitorado soteropolitano em relação à avaliação de sua administração, sua alta popularidade pode fazer inclusive com que seja cortejado por potenciais candidatos a presidente para uma vaga na chapa, como vice. Apesar da pouca idade, foi um combativo deputado da oposição nos tempos de Lula e Dilma. Ganhando experiência no executivo, torna-se um nome mais completo, tem tudo para ser um dos protagonistas no cenário nacional em futuro não muito distsnte. ACM Neto, para mim, é uma grande barbada.

Nelson Marchezan Jr. foi talvez a maior surpresa dessas eleições se considerarmos o histórico porto alegrense. Primeiro prefeito tucano da capital gaúcha, superou uma penca de esquerdistas no primeiro turno e concorreu com o candidato do governador no segundo. Venceu. Dono de um discurso articulado, com alguns trechos virais nas redes sociais, traz uma roupagem moderna ao PSDB. No seu currículo, apenas a experiência da vida parlamentar. Assume uma cidade com vários problemas gerados pela má gestão de um estado quase falido, navegará em mares muito turbulentos e normalmente pouco receptivos às reeleições. Os gaúchos tradicionalmente não reelegem seus prefeitos e governadores. Eu diria que o contexto torna o desafio de Marchezan tão complexo quanto o de João Dória. Em um país carente de novas lideranças, eu torço para que dê certo. Marchezan, para mim, é uma grande esperança.

Me concentrei em uma breve avaliação das seis capitais mais importantes sob o ponto de vista econômico (PIB), mas obviamente temos que ficar de olho nos mais de cinco mil novos prefeitos Brasil afora. Via de regra, todos assumem cidades em dificuldades financeiras, com orçamentos comprometidos e um sem fim de melhorias a serem realizadas.

Muitas vezes nosso cotidiano é mais influenciado por decisões municipais do que estaduais e federais. Quem sabe, a primeira safra de prefeitos pós-Lavajato não traz surpresas positivas aos brasileiros? Olho neles.

2 Comments
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2 Comentários

  1. sonia maria Pedrosa silva Cury

    2 de janeiro de 2017 em 12:11

    só nos resta rezar…
    sonia pedrosa

  2. Marcia

    2 de janeiro de 2017 em 18:59

    Nossa…..você sabe os nomes/história dos novos prefeitos nessas cidades todas?! E eu que confundo as capitais de Roraima e Rondônia?????!!!! Boa muita sorte pra todos nós…..

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