Escala e lucro: os desafios das ‘fintechs’

Vivemos em tempos extraordinários. Smartphones se tornaram extensões da nossa memória, acervo quase ilimitado de entretenimento, meios de pagamento, bancos eletrônicos. Dados são armazenados em nuvem, hardwares de capacidade gigantesca tornaram-se dispensáveis, relacionamentos podem ser construídos no mundo virtual. Há pouco menos de uma década a revolução digital invadiu o cotidiano das pessoas e nossas vidas se transformaram radicalmente. Tal qual na onda da internet, que se espalhou pelo planeta na segunda metade dos anos 90, criando um ambiente altamente fértil para empreendedores e tomadores de risco, experimentamos hoje um momento de ebulição de ideias promissoras, que catalisam as novidades do mundo digital como nunca antes se viu. Tudo parece ser possível.

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Nesse contexto efervescente, proliferam as ‘fintechs’, ‘start-ups’ que se utilizam dos mais diversos avanços proporcionados por plataformas digitais para oferecer produtos financeiros a consumidores e empresas. O menu de opções é amplo; elas tanto podem fazer o papel de ‘instituição financeira’, o mais comum, como o de seu provedor de serviços. Fossem gente, as ‘fintechs’ seriam as ‘neo-celebridades’ que recheiam as colunas sociais. Não chega a ser uma novidade, pois toda vez que surgem tecnologias disruptivas, elas naturalmente trazem consigo milhares de tentativas de monetizá-las. Sabemos, contudo, que o cemitério de empresas está apinhado de ideias espetaculares que encantaram o mercado na virada do século, o que não é exatamente um exemplo encorajador para os desbravadores da hora. Por outro lado, não podemos nos esquecer que a mesma onda que afundou a maioria, trouxe também gigantes atuais como Google e Amazon. O que esperar então dessa febre? Estamos diante de nova onda que proporcionará a sobrevivência de uns poucos gatos pingados ou de um processo que realmente transformará as relações entre clientes e provedores do mercado financeiro?

Qualquer que seja o empreendimento, dois elementos precisam ser alcançados para que a ‘start-up’ deixe de ser promessa e se transforme em uma realidade sustentável: escala e lucro. Apesar de parecerem óbvios, não são atingidos facilmente. Muito embora as novas empresas operem com um nível de custos geralmente bastante inferior às suas congêneres tradicionais, não é possível viabilizar um negócio sem escala. Sua solução obrigatoriamente precisa atrair milhões ou milhares de possíveis usuários, dependendo do produto. Se a empresa está no negócio de crédito, é impossível que se viabilize com menos de algumas dezenas de milhões de reais de produção mensal. Se estiver oferecendo produtos de investimentos, deve ser capaz de capturar milhares de investidores com liquidez para gerar volumes relevantes. Invariavelmente, as ‘fintechs’ precisam demonstrar a mesma capacidade ‘produtiva’ que as empresas tradicionais. Não basta ser uma boutique bacana. Cedo ou tarde, os investidores que apostam suas fichas na nova geração de empresas contabilizarão o retorno. Sem escala, ele será irrelevante e a ‘fintech’ fatalmente se juntará às que lhe sucederam no cemitério das boas ideias.

Vencido o desafio da escala, para muitas o mais difícil, chega a hora da verdade: testar o modelo de negócio. Ele é realmente sustentável? É possível transformar a escala em rentabilidade? A inovação está relacionada ao coração do negócio ou em sua periferia? Veja o exemplo de aberturas de conta correntes ou mesmo cartões por instituições digitais, que os oferecem em tempo recorde e através de um processo de autenticação mais simples. Será que ambas as características são realmente tão importantes para o cliente? Faz diferença, nesse caso, ele receber o produto em meia hora ou alguns dias? Suspeito que apesar do prazo curtíssimo de entrega causar uma ótima impressão, tem pouca influência nos volumes de transações futuras, e consequentemente na rentabilidade. Voltemos ao exemplo do crédito, de fácil absorção: de que adianta entregar o cartão ou o produto de crédito rapidamente, se a linha concedida for pífia? Eis um exemplo onde as ‘fintechs’ ainda não encontraram o ‘coelho da cartola’. Em se tratando de crédito, todas são bastante conservadoras na concessão. Não há casos de ousadia onde ‘likes’ de facebook ou informações desestruturadas substituam o bom e velho comportamento de pagamento dos clientes, extremamente poderosopara diferenciar o bom do mau pagador. Trata-se de um exemplo onde você consegue inovar através das novidades digitais até uma etapa do processo, mas permanece vinculado ao mundo real no ‘coração’ do negócio. Nesse tipo de situação, o modelo a ser testado será provavelmente parecido com o ‘tradicional’, e não com o digital.

Na primeira onda da internet, as empresas que realmente conseguiram criar uma proposição de valor completamente imersa na ‘web’ prosperaram, não sem antes gastar um bom tempo com ajustes para torná-la rentável. A grande maioria desapareceu e hoje a internet representa para grande parte do mercado mais um canal de vendas e não propriamente a espinha dorsal do seu negócio principal, com honrosas exceções. Daqui a algum tempo, teremos a resposta de quantas das afamadas ‘fintechs’ conseguirão trazer conveniência aos clientes para o ‘coração’ dos seus negócios. Não bastará a inovação na ‘periferia’. Por ora, temos somente um punhado de promessas charmosas com ótimo apelo na mídia. As poucas que obtiverem êxito poderão, quem sabe, revolucionar as velhas práticas.

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3 Comments
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3 Comentários

  1. Rubens Brotto

    31 de outubro de 2016 em 21:48

    Hobby interessente e instrutivo, Victor. Legal, continue compartilhando sua opinião e experiência. Vale o esforço para deixar uma marca informativa, não só no mundo virtual, mas também no mundo real.

  2. ANDREA REGINA

    27 de dezembro de 2016 em 00:37

    Sabe o que eu gosto destas novidades que se propõem a ser disruptivas é que elas balançam o mercado, balançam os grandes players e alteram comportamentos. Quando veio o “boom” da internet no Brasil, larguei a uma sólida indústria farmacêutica de mais de 130 anos em que trabalha para me aventurar no mundo das então chamadas “start ups” (as primeiras que criavam seus websites e provocavam empresas e pessoas físicas a transacionarem pela web) Com recursos pesados de investidores estrangeiros, elas “provocavam” os grandões charmados de “bricks” . Sim, muitos não sobreviveram, mas os que ficaram, e nao são poucos os canais de venda online, mudaram completamente o comportamento e o poder de compra do consumidor.

  3. Márcia

    7 de março de 2017 em 00:55

    Fiquei zonza com a velocidade do seu texto….

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