Divagações sobre o senhor da razão

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Diante de situações corriqueiras do cotidiano, somos inclinados a julgar a qualidade da fotografia e nos esquecemos do filme, um conjunto imenso delas capaz de nos contar a história, tal qual ela ocorreu. Em algumas o ocasiões uma cena é suficiente para subsidiar uma opinião, que ainda assim será incompleta em virtude da grande quantidade de informações ausentes. Ao fatiar o tempo para simplificar a organização da vida, tornamo-nos mais superficiais e frequentemente cometemos erros grosseiros de avaliação.

Quantas vezes não vimos as melhores empresas do ano, eleitas por ‘especialistas’, derreterem pouco após o apogeu? O mesmo se aplica a executivos e empresários, que vão da glória ao ostracismo transcorridas algumas cenas adicionais do filme da vida. Políticos experimentam a popularidade e podem terminar mofando na cadeia, ou ao contrário, superar sucessivos reveses e triunfar, aclamados pelos eleitores. Ou mesmo ambas as situações, se esticarmos o ‘período de observação’. O tempo pode ser cruel ou generoso, mas você só tem a dimensão de como ele age sobre a história quando permitirmos que transcorra sem avaliações precipitadas.

Eis o desafio em uma sociedade dividida em meses, trimestres, anos e quadriênios, onde muitas vezes os cronômetros são zerados a cada período. Assim, empresas listadas na bolsa ficam obcecadas pelos resultados do próximo trimestre, funcionários vinculados ao que se passa no ano fiscal, governantes e políticos preocupados com tudo que possa lhes beneficiar em um horizonte de quatro anos. Contaminados pela cultura de ‘fatiar’ o tempo, costumamos avaliar o que está ao nosso redor sob a ótica da fotografia e muita vezes nos apegamos à nossa opinião de maneira fanaticamente religiosa, nos esquecendo que o filme decorrente de sua continuidade pode nos desmentir.

Nos surpreendemos quando assistimos à bancarrota de impérios, à derrocada de reputações, ao divórcio de casamentos perfeitos. Subestimamos a ação do tempo e as leis de causa e efeito, muitas vezes enfeitiçados pelo fascínio dos eventos de curto prazo. Mesmo assim, a recompensa que concedemos aos outros está geralmente atrelada à fotografia, e não ao filme.

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Em gestão de risco de crédito, aprende-se a respeitar o poder do tempo. Boas notícias no curto prazo, como o crescimento acelerado de uma carteira de empréstimos, podem esconder tragédias futuras. Por causa disso, cria-se uma série de indicadores e metodologias para que possamos evitar as surpresas que a passagem do tempo pode causar. Com base em algumas poucas fotografias, tenta-se projetar o que será o filme, através das mais variadas correlações estatísticas. A despeito da realidade não ser tão simples quanto o descrito acima, essa é uma abordagem menos superficial do negócio, nem sempre bem compreendida por muitos dos seus atores principais. Se aplicados no cotidiano, esses conceitos ‘moderariam’ nossas reações com eventos futuros.

Respeitar o senhor da razão é preocupar-se com o longo prazo e avaliar as circunstâncias também sob esse prisma, sem deixar-se contaminar pela euforia ou depressão trazidas pelos resultados do presente, algo cada vez mais difícil em uma sociedade marcada pelo imediatismo. E por sermos recorrentes mau alunos nessa disciplina, frequentemente o tempo nos surpreende. Até quando?

 

 

 

1 Comment
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1 comentário

  1. Marcia

    1 de novembro de 2015 em 00:01

    Rever o filme talvez seja função de uma outra parte, não sei se tão oposta à razão (prefiro dizer que parceira da razão)…a emoção!

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