A dor, essa maldita

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Sempre ouvi falar da dor nas costas pela experiência de amigos desafortunados, que tiveram o azar de experimentá-la ainda na plenitude de sua maturidade e que sofreram por dias ou até mesmo meses com movimentos comprometidos. É óbvio que depois de quatro décadas de vida é difícil negar as dores, que passam a ser mais frequentes na sua rotina, e impossível ter passado esse tempo todo sem uma dorzinha básica na lombar após muitos anos de carregamento de filho. Mas ainda não havia desfrutado da companhia da maldita, aquela que impede o sujeito de levantar, tornando-o quase um homem réptil. Pois há uma primeira vez para tudo na vida, e a desgraçada veio me visitar.

A minha rotina deve ter ajudado: oito meses em um colchão ruim por conta de obras em casa que nos obrigaram a mudar temporariamente para mais longe, fator que também contribui para a redução de atividade física, além do aumento significativo de viagens noturnas de avião nos últimos doze meses, em suas poltronas pouco aprazíveis ( mesmo as da classe executiva). Uma hora o corpo ia a dar sinais de fadiga. Experimente dirigir um carro usado, ainda em boas condições, por muito tempo em estradas esburacadas. Primeiro virão os barulhos indecifráveis, geralmente emissários dos problemas que lhe conduzirão ao mecânico. O meu destino será um ortopedista, o mecânico das colunas.

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No meu caso não houve aviso prévio. Depois de quase 12 horas de viagem, um ligeiro mal estar nas costas era mais do que esperado. Apesar do incômodo, cheguei até a bater perna em meu destino final, certo de que uma noite de sono seria suficiente para me recompor. No dia seguinte, a dor não havia diminuído. Nem aumentado. ‘É a idade’, pensei, que tornava os tempos de recuperação cada vez maiores. Deslocamento de trem, metrô, muito tempo sentado, ônibus, bate-perna e anoitece. A dorzinha se transforma em dorzona. ‘Vou dormir que passa’. Passou nada. Ao despertar, fui surpreendido pela minha incapacidade de levantar diante da desgraçada.

Uma dor aguda que parecia dividir meu corpo em dois pedaços separados e que impedia as pernas de falarem com o tronco. Para levantar, apoiei-me em móveis, na parede e enfim pus-me de pé, levemente alquebrado. Tomei um banho quente, analgésico para tudo, e com a dificuldade de um velhinho centenário me vesti, quase agonizando após amarrar os sapatos. No ritmo de uma tartaruga sonolenta caminhei uns 300 metros rumo à sala de reuniões onde permaneceria o dia em conferência. Passei muito tempo em pé, com pequenas sessões de ‘estica o corpo’. Me lembrei do Joaquim Barbosa, que durante o julgamento do Mensalão permanecia horas em pé. Pobre homem. E à medida que o tempo avançava, a maldita piorava. Mas para mim, uma hora era a eternidade. O desconforto de não conseguir me movimentar direito era insuportável. Olhar para o chão e saber que se você for até ele, não consegue voltar, é uma sensação péssima. E se o sapato desamarrar?

Fim da tarde, tomo duas pílulas para dor gentilmente cedidas por um colega, declino o convite para o jantar em grupo e retorno a passos nervosamente lentos para o meu quarto. Outro colega levou minha mochila para mim. Um homem com dores vive de favores. A maldita seguia dando ordens, mostrando-me que ela era a soberana da situação. Ai de mim se tentasse algum movimento inusitado, seria torturado. Humilhado e conformado, deitei-me às 18:30 na esperança de que 12 horas sem se mexer sobre uma cama me livrariam da minha algoz.

De fato, acordei melhor, mas levemente ansioso. Deitado, não havia dores. O problema seria na hora de me levantar. Para a minha alegria, consegui fazê-lo sem me apoiar em nada. Mas a satisfação não foi plena, a dor ainda estava lá, menos intensa, mas presente, como a me dizer: ‘vim me apoderar dessa carcaça’. ‘ Desgraçada, ainda não se satisfez!’. Não estava tão ruim como no dia anterior. Consegui caminhar no ritmo de um homem muito calmo e sem pressa. Mais que isso não era possível. Amarrar os sapatos ainda era um desafio. Como era de se esperar, piorei ao longo do dia. Minha admiração pelo Joaquim Barbosa aumentou. Ao entardecer, uma viagem de trem para ‘arrematar’. Chego em Londres, e não posso aproveitar nada da melhor cidade do planeta, pois meu objetivo era travar mais uma batalha contra a dor, deitado na cama. Antes disso, a desgraçada já havia retomado o controle da situação, forçando-me novamente a andar apoiado. Eram dias de humilhação.

E assim seguimos, com duas noites suavizando a presença da maldita, que retornava impiedosa durante o dia. Tentei fazer às vezes de massagista, pressionando com os meus dedos as vértebras da região lombar, na esperança de conseguir fazer um ‘crac’, colocar tudo no lugar e acabar com a desgraçada. Em vão. Sentia alguns pontos doloridos, mas a dor parecia ser maior que um mero mal jeito na vértebra.

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Enfim tinha que encarar o meu maior medo naquele momento: o retorno. Onze horas no avião. As mesmas horas que conceberam a maldita. Ok, provavelmente foram a gota d’água de um processo inevitável, mas eu já me imaginava inerte na poltrona sendo removido de cadeira de rodas em Guarulhos. Não, isso não vai acontecer. Após algumas horas no avião, mal acomodado, era evidente a deterioração do meu estado. Já não conseguia manter as costas eretas sozinho. Precisava me apoiar em algo, mover meu tronco lentamente e conseguir o encaixe. Estou com medo de dormir e acordar destroçado.

Permaneço insone. Resolvo escrever, faz tempo que não atualizo meu blog. Vou falar sobre a dor. Levanto, me alongo com dificuldade. Dói. Capaz que eu tenha chegado naquela fase da vida em que se um dia acordar sem dor, é por que parti dessa para melhor. O mais chato de tudo isso é ter que ir ao médico, situação que a essa altura parece irremediável. Sou um paciente muito indisciplinado, nasci para ser saudável. O que eu mais queria agora é uma trégua, um passe-livre para poder dormir tranquilo. Mas a desgraçada não deixa. A bateria do ipad está acabando. Vou ler para me distrair. Não posso pensar nela. Não quero me acostumar com ela. Sai para lá, dor. Esse corpo ainda me pertence…!

6 Comments
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6 Comentários

  1. Márcia

    12 de setembro de 2015 em 19:14

    Talvez se tivesse vivido no ritmo de “um homem calmo e sem pressa ” pudesse ter retardado esse desconforto .
    Quatro décadas? Não espere piorar pra quando chegar a quinta….
    Não foi só a reforma da casa, o colchão, o avião, o peso dos filhos, a vida agitada…..hora de TRÉGUAS assim como você escreveu!!!

  2. Luli

    13 de setembro de 2015 em 09:54

    Victor, te dou duas dicas pra resolver isso, ja passei por essa experiencia:
    1- Dr Takashi Jojima – quiroprata em SP q resolve com acupuntura
    2- Yoga for the rest of your life
    Nao fique jos analgesicos e remedios pq isso acaba com o fígado!!
    Abs
    Luli

  3. Roseli

    13 de setembro de 2015 em 20:19

    Vitor, querido.
    Lendo seu texto voce deu a melhor definicao que ja realizei: corpo dividido em dois. Pernas e tronco.
    Vivo com essa dor. Estou em crise ha 20 dias, entristecida pois, assim como voce, quero ser saudavel.
    Espero, de coracao, que voce melhore.
    Beijao.

  4. sonia pedrosa

    14 de setembro de 2015 em 08:02

    Victor, eu recomendo a quiropraxia. Parece mágica! Meu irmão, que tem problema de hérnia de disco, chegou a passar dez dias de cama sem conseguir se mexer, conseguiu se livrar da dor com a quiropraxia. Na primeira sessão, 90% da dor desaparecem. Tente!
    Grande abraço e melhoras!
    sonia pedrosa.

  5. Americo Ciccarelli

    14 de setembro de 2015 em 15:10

    Caro colega

    Comigo foi muito semelhante à você. Veio de repente quando estava em
    Portugal. Tive que acionar o seguro saúde em Lisboa pois não conseguia me mover no Hotel. Foi logo após abaixar no quarto e não
    Conseguir mais me mover. Fui atendido por um médico que me passou uma série de injeções além de comprimidos para a dor.
    Retornei ao Brasil nas nove horas de vôo praticamente em pé no fundo do avião.
    Já fazem dois anos. Administro com acupuntura, massagem e exercícios para fortalecer a musculatura profunda. Fiz aquaterapia também com essa finalidade. Quando em crise tomo 1 comprimido de MaxSulid que alivia e não é tão agressivo. Teremos que conviver com isso. Eu pelo menos não me sujeito a arriscar nenhuma cirurgia. Esse problema estoura depois de anos em vida de viagens e trabalhos como os seus que eu tbem fazia.
    Espero que encontre a terapia melhor para te ajudar
    Abraço. Americo

  6. Márcia

    17 de outubro de 2015 em 09:43

    Todos tratando da dor sem causa!!!

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