Desvendando Hong Kong

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Um enclave capitalista na grande China, protetorado real desde 1842, conquistado após a guerra do Ópio, passou 155 anos sob a jurisdição britânica, e em 1997 foi devolvida à República Popular que pragmaticamente não interferiu no funcionamento dessa espetacular cidade-estado, a antítese do que apregoa a revolução comunista. Exceto nas questões diplomáticas e de segurança, Hong Kong desfruta de autonomia completa em relaçã à pátria-mãe. É a China rica. Uma ilha de prosperidade. Alie-se o arcabouço legal britânico e sua mentalidade pró-mercado com a assombrosa disciplina da Ásia oriental. Só podia dar certo.

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Com pouco mais de 7 milhões de habitantes e 95% de sua população de origem chinesa, Hong Kong notabiliza-se pela sua verticalidade. Cercada de montanhas por todos os lados, sua topografia faz lembrar o Rio de Janeiro, o que diminui bastante os espaços de ocupação. Por isso, os prédios são geralmente muito altos, mesmo os residenciais. Os arranha-céus que predominam em sua paisagem urbana central impressionam não somente pela altura, como também pelo design arrojado. Em suas ruas extremamente bem sinalizadas circulam confortáveis ônibus de dois andares, bem ao estilo londrino, táxis vermelhos de modelos antigos e máquinas possantes.  Eu posso até estar enganado, mas o que eu mais vi pelas ruas daqui foram BMWs e Mercedes. Mas também havia Porsches, Lexus e alguns Hyundays e VWs. Imagino que o acesso a automóveis seja fácil, por conta dos baixos impostos e os mesmos convertem-se em símbolo de status. O transporte público é complementado pelo metrô, cujas estações são impecavelmente limpas, espaçosa, organizadas e bem sinalizadas. Impossível se perder. Não é à toa que mais de 90% de sua população o utiliza, maior índice entres grandes cidades do planeta.

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A facilidade no transporte contrasta com a dificuldade com moradias. Os imóveis são caríssimos. O metro quadrado do Leblon aqui seria equivalente ao de uma área desvalorizada. Ouvi que hoje um cidadão médio precisa trabalhar 17 anos para conseguir dar entrada em um apartamento comum. Não validei essa informação, conversa de almoço, mas não deve estar distante da realidade.  Um apartamento de 15m2 ( isso mesmo, 15!!) em área nobre da cidade sai por US$500mil, ou quase R$ 1.8milhões!   A absoluta maioria das casas tem menos de 70m2 (dizem que 90%), se o sujeito morar em um lugar com mais que isso, fará parte do rol dos privilegiados. Um observador externo das imensas torres residenciais tem uma má impressão, pois em muitas janelas nota-se a roupa estendida para secar. Sinal de que não há espaço para um varal e tampouco para encaixar uma máquina que o faça. Visualmente é feio. O governo provê moradia popular aos mais desfavorecidos. Mas nem todos conseguem. Há 50.000 famílias vivendo em espécies de cortiços verticais, unidades já pequenas e que são divididas entre os pobres de Hong Kong, um sub-espaço, menor que um cubículo. É uma questão de tempo para que eles consigam se cadastrar no programa do governo, disse-me um habitante local. À medida que surjam novas unidades, eles são realocados. Representam entre 150 e 200mil pessoas, menos de 3% da população. E se por um lado estão na base do estrato social, por outro recebem saúde e educação de boa qualidade e gratuita, além de segurança e transporte eficientes. A próxima geração certamente terá oportunidade de melhorar seu padrão de vida.

A falta de espaço e os preços exorbitantes dos imóveis interferem em outras situações da vida cotidiana. Os filhos moram com os pais pelo maior tempo possível e os casais tem cada vez menos crianças. O índice de fecundidade em Hong Kong é de apenas 0,94 por mulher, muito inferior ao mínimo necessário para manter a população constante (ao redor de 2). Sua população somente cresce (um pouco) por conta da imigração de algumas regiões do sul da China e países próximos. Há muitos casais que preferem não ter filhos. Com tão pouco espaço, você também é parcimonioso no acúmulo de supérfluos. Como bem disse um colega meu daqui, como o espaço em que as pessoas moram é muito ‘ pouco’ e valioso, avaliar bem o que se coloca nele torna-se indispensável.

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Que tal um lugar onde o índice de homícidios é 16 vezes menor que a média global e 70 vezes menor que a brasileira? Pois Hong Kong apresenta esses números de causar inveja a qualquer país desenvolvido ocidental. Não há mendigos na rua, o maior incômodo que alguém pode passar é ser abordado por indianos para conselhos espirituais, todos com algum dom de vidência. É claro que ao final da pregação, vão lhe pedir dinheiro. Uma picaretagem bem conhecida no mundo tropical. É bom que se diga: não são os chineses. E os malandros sagrados da Índia não abordam os nativos, mas aqueles de fisionomia ocidental, desabituados com a prática. Um colega indiano morador local há uma década me alertou:’ aqui em HG um taxista nunca irá lhe enganar, em hipótese alguma. Não espere o mesmo na Índia’.

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E mesmo se os gurus indianos abordassem os cidadãos de Hong Kong, teriam dificuldade de comunicação, a menos que falassem o idioma local, o cantonês, típico do sul da China. Descobri nessa viagem que ele é completamente diferente do mandarim. O meu cérebro, já limitado por 42 anos de experiência no Ocidente, não consegue assimilar nem um, nem outro. Para mim, são todos sons do tipo ‘ to tuun tá’ , ‘ Yun shuum ton’ , para os quais jamais conseguirei vincular um significado, pelo menos nessa vida. Cerca de um terço dos habitantes de Hong Kong falam inglês fluentemente, o que não quer dizer que você vai entendê-los. É um inglês com sotaque difícil, pior até que o dos franceses…mas apesar disso, a conversação básica sempre flui, a complicação se dá quando você quiser se aprofundar na conversa.

Hong Kong é uma cidade de negócios e não prima por grandes atrações turísticas. Sua topografia recortada lhe proporciona algumas praias bonitas, mas nada de extraordinário aos olhos do visitante mais viajado. Lugares com montanhas sempre oferecem vistas espetaculares do topo, e assim também é o seu caso. Suas fotografias mais famosas são tiradas do alto do Victoria Peak, de onde também se sobe através de um trem, lembrando muito seu similar no morro do Corcovado (RJ). Sítios pitorescos, com vendas de bugigangas de toda sorte, também fazem parte do cenário. É o caso do mercado de Stanley, situado na praia de mesmo nome. Para chegar até lá, toma-se um ônibus que vai margeando o litoral ao pé da montanha, passando por algumas praias com bela vista, lembrando um pouco o percurso que liga o Leblon a São Conrado, no Rio de Janeiro. No tal mercadinho à beira da praia, há de tudo, até um par de havaianas a R$ 130.

Você pode passar por Hong Kong e não saborear a comida chinesa. É uma cidade internacional, onde a gastronomia não está restrita aos atributos locais. Eu, que nada tenho contra a culinária oriental, preferi manter-me conservador nessa viagem. O mais diferente que eu me permiti em termos de alimentação nem foi chinês, mas os famosos feijões cozidos britânicos com um molho estilo ‘barbecue’ no café da manhã.  No café da manhã? Sim. E misturados com milho verde. Uma gororoba e tanto para o meu rústico paladar! Não queria correr o risco de um revertério por conta da comida, bastava o ‘jet-lag’ para me azucrinar. E como foi difícil. São 11 horas de diferença para o Brasil e nos primeiros dias, a partir das 15-16 horas você começa a se arrastar como um zumbi. Manter-se concentrado é um desafio dos bons. Digo isso pois vim  a trabalho, acho que o turista tem mais flexibilidade para lidar com esse desconforto. Agora que estou razoavelmente acostumado, após uma semana, preparo as malas para o meu regresso. Já me vejo desorientado por alguns dias em São Paulo.

A parte central da cidade possui imensas passarelas que conectam os shoppings e edifícios. É possível você caminhar por muito tempo sempre coberto. A baía tem piers com atrações diversas, além de balsas e ferrys que a percorrem, uma boa pedida para belas fotos. Às 20 horas, todos os dias há um show de luzes vindo das principais torres. Dizem que há uma boa vida noturna, com ótimos restaurantes e shows (Hong Kong é repleta de expatriados). Não me dei ao luxo de saber como é. A rotina das viagens a trabalho em paragens internacionais é bem menos glamourosa do que aparenta. Durante o dia, a mesma intensidade usual, com o adendo de que em sua ‘base’ as coisas não param. À noite, você eventualmente vai jantar fora e ao final da jornada está exaurido. A falta de tempo, que sobra para um turista, faz com que você seja mais detalhista nas observações das cenas do cotidiano e nas conversas. Apesar de cansativo, não deixa de ser enriquecedor.

Viajar torna o sujeito mais humilde . Você enxerga um mundo à sua volta que simplesmente não compartilha de seus valores culturais e nem por isso é melhor ou pior que o seu.

imageUm exemplo disso foi durante uma conversa que tive com dois colegas de  Hong Kong ao me contarem sobre a relação com a China continental, que eles mal percebem no dia a dia, mas que foi motivo de protestos há pouco tempo por parte da comunidade jovem universitária. Para os dois, já mais velhos e na casa dos 40, os jovens são ingênuos ao querer pleitear mais democracia. Ela pode trazer muita confusão e Hong Kong não precisa disso. ‘ O governo faz a parte dele e não interfere no nosso dia a dia, por que precisamos mudar algo que está funcionando?’ Pois é, a democracia não é um valor universal. E se eu tivesse crescido e vivido em Hong Kong talvez partilhasse da mesma opinião, vai saber. Há que se respeitar a diversidade, ainda mais sob a ótica de uma população educada que soube construir uma sociedade de altíssimo desenvolvimento humano.

Hong Kong vale a visita. Como ela mesmo se auto-proclama, é a capital mundial da Ásia (The worlds Asia capital). Provavelmente é a mais ocidentalizada das grandes metrópoles asiáticas, e nem por isso perdeu seu DNA oriental. Mas como eu já escrevi em outros textos, uma coisa é visitar, outra é morar. E aqui, eu não moraria. E por que? Sou muito ocidental. Mas isso é assunto para outro texto…

 

4 Comments
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4 Comentários

  1. Carla

    4 de abril de 2015 em 15:31

    Ótimo texto e relato sobre HK.
    Na próxima visita à Ásia, que tal um tour gastronômico em Shanghai?

    1. Victor

      4 de abril de 2015 em 18:48

      Carla, o que Shangai oferece em termos de gastronomia. Bicho vivo não vale!!
      Vc está em Shangai?
      Abs

  2. Angela Freitas

    4 de abril de 2015 em 19:50

    Exelente cronica. Vou continuar insistindo no livro!

  3. Alcyone Vasconcelos

    4 de abril de 2015 em 19:53

    Viajar gera mesmo humildade. Ou melhor, pode gerar isso; tem gente que perde a oportunidade. Foi viajando pelo mundo que passei a apreciar o que os outros têm nos seus mundos, inclusive o que não entendo ou concordo. Existem muito mais similaridades do que diferenças entre os povos, mesmo que predominem as diferenças nas relações entre as nações. Muito bom artigo.

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